Com um ano de isolamento social, veja quais as possibilidades futuras do trabalho

Da modalidade híbrida ao nomadismo digital, leque de opções aumenta; com a pandemia, preferências pessoais se alteram

Advogado Rafael Moreira em trabalho remoto. | Foto: Arquivo pessoal

Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o início da pandemia do novo coronavírus, no dia 11 de março de 2020, todo o mundo virou de cabeça para baixo. Além da própria doença, a qual governos de todos os países tiveram que bolar rápidas estratégias para enfrentá-la – algo que ainda está em curso –, as formas de trabalho precisaram passar por rápidas adaptações, já que o isolamento social foi considerado a melhor medida de combate à Covid-19, por conter sua transmissão. Com a adoção dessa estratégia, o home office se tornou parte da rotina de parte dos trabalhadores.

Segundo pesquisa divulgada pelo DataSenado em outubro de 2020, 7% dos brasileiros já haviam atuado com a modalidade de trabalho à distância antes da pandemia, porcentagem que representa cerca de 11 milhões de pessoas. A coach e especialista em estratégia de carreira e bem-estar financeiro, Rebeca Toyama, explica que, mesmo que em passos lentos, o home office já acontecia dentro das empresas antes da crise sanitária acometer o Brasil e o mundo.

Coach e especialista de carreira, Rebeca Toyama. | Foto: Assessoria de imprensa

“O home office ele já vinha acontecendo e mostrando sua cara aos poucos. Algumas empresas davam um “day off”, que permitia o funcionário escolher um dia na semana para ficar em casa. Algumas empresas escolhiam a sexta-feira, o último dia do mês ou o dia do aniversário, por exemplo. Entretanto, essa experimentação era lenta. O medo era grande, especialmente pelo despreparo da liderança quanto ao gerenciamento de pessoas à distância. Mas com o início da pandemia, não houve muita escolha. O home office aconteceu de forma compulsória”, detalha Rebeca.

Vantagens e desvantagens

Adaptações improvisadas realizadas em casa pela jornalista Bárbara Lauria para trabalhar. | Foto: Publicação em seu perfil do Instagram @barbara_lauria/reprodução

A jornalista Bárbara Lauria chegou a experienciar três formas distintas de home office desde o início da pandemia, tanto em seus dois empregos como repórter da Agência de Notícias da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego) e da PUC TV, quanto como assessora de imprensa, em sua empresa Comunicação Integrada. Apesar de não ter encontrado tantas dificuldades em se adaptar ao teletrabalho nas atividades em que realizava para a Alego, precisou realizar algumas adaptações para dar continuidade a produção de material jornalístico da PUC TV.

“Na assembleia, em 2020, a nossa chefe, distribuiu as pautas para cada repórter e de casa produzíamos as nossas matérias e elas eram publicadas no site. Depois, com o retorno das sessões ordinárias, remotamente, seguimos em casa e iniciamos, posteriormente, uma escala de revezamento presencial. Na minha opinião, deu certo no ano passado e tem funcionado muito bem em 2021”, conta Bárbara.

Já na TV, a repórter só entrou em home office em julho, quando testou positivo para a Covid-19, e diz ter sido desafiador. “Tive que me adequar ao trabalho. Foi uma experiência diferente. Na emissora tinha a maquiadora, o cinegrafista, os recursos do local, a ajuda dos colegas, editores, produtores e dos estagiários. Em casa, eu fazia tudo, as entrevistas pelo computador, as imagens de apoio e a passagem pelo celular e enviava para a edição”, explica.

Jornalista Bárbara Lauria em matéria para a PUC TV. | Foto: Publicação em seu perfil do Instagram @barbara_lauria/reprodução

Hoje, após pedir demissão da TV, segue com o home office e o revezamento presencial da Alego, além da prestação de serviço como assessora de imprensa. Entretanto, para que todo esse processo desse certo, Bárbara precisou investir em certas adequações. “As reuniões presenciais foram reduzidas e as plataformas digitais têm sido uma excelente saída. Investi num tripé melhor para o celular, luz, fone e outros acessórios”, diz.

Diferente de Bárbara, o advogado Rafael Moreira, além de ter começado a usar a internet de sua casa diretamente do cabo, ao invés do wi-fi, para não perder a conexão durante vídeo conferências e audiências virtuais, não precisou fazer adaptações técnicas para exercer o teletrabalho. “O escritório nos liberou preventivamente para o home office desde o início da pandemia, um pouco antes de se ter decretos que exigiram o fechamento. No começo, eu tive um pouco de dificuldade para me adaptar, pela falta de costume de trabalhar em casa. É preciso criar uma disciplina para cumprir o horário de trabalho como se estivesse presencial, porque é muito fácil misturar as coisas estando em casa, e acabar tendo que trabalhar a mais para compensar”, conta o advogado.

Apesar de ter tido a opção de retornar ao escritório, Rafael foi um dos funcionários que optou por continuar em home office de forma contínua, tendo ido de forma presencial somente três vezes desde março de 2020.

À direita, o advogado Rafael Moreira trabalhando no escritório, com demais colegas de trabalho, antes da pandemia. | Foto: Arquivo pessoal

“Na minha rotina pessoal, achei mais vantajoso ficar em casa, porque você acaba economizando tempo. Era uma média de quase duas horas para ir e voltar do escritório todos os dias, e com esse tempo acabei conseguindo estudar e fazer algumas atividades físicas em casa. Na parte profissional, também preferi à distância, porque diferente das audiências presenciais, que costumavam atrasar, as virtuais sempre são pontuais e isso facilita muito, e mesmo atrasa um pouco, por estar em meu computador, é possível fazer outras atividades enquanto espero. A dificuldade que ainda existe é quando há necessidade de se ouvir testemunhas. São maiores a quantidade de pessoas as quais precisamos nos conectar, e se uma tem problema de conexão com a internet, a audiência precisa ser remarcada”, relata.

Em levantamento, o DataSenado ainda divulgou quais foram consideradas os maiores obstáculos e vantagens de se exercer o teletrabalho. Campeã na lista de pontos negativos, está a falta de internet de qualidade, com 22%, seguido do desafio de se conciliar o trabalho com as tarefas domésticas, dos aparelhos de informática inadequados, do não convívio com os colegas de trabalho, de não se ter local adequado e da sobrecarga de atividades.

Em resposta a isso, Rebeca ressalta a necessidade de, mesmo após a pandemia, quem tiver a oportunidade, experimentar novamente o o trabalho à distância. “Não é nem dar uma segunda chance ao home office, é dar uma segunda chance a elas mesmas, porque o home office é o futuro, e muitas oportunidades vão estar concentradas nesse modelo. Com a pandemia, o que se teve experiência, não foi o home office propriamente dito. As pessoas ficam atribuindo ao home office questões de estresse e de saúde mental que não são do home office, mas que são oriundas do isolamento e do distanciamento social”, esclarece a especialista.

Já entre os aspectos positivos expostos pelo DataSenado, destacam-se a flexibilidade de horário (28%), o fato de poder se dedicar mais à família, não gastar tempo em deslocamento à empresa, a diminuição das despesas e o aumento da produtividade.

Marta Félix da Silva é secretária terceirizada da Diretoria de Auditoria Interna do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), está há um ano em home office, e concorda com as estatísticas: suas maiores dificuldades foram conciliar o trabalho com a rotina pessoal em um mesmo ambiente, lidar com a sobrecarga e o afastamento dos colegas. “Era tudo muito novo, um modelo de trabalho e uma rotina nova. Se a gente não tem um controle, tende a passar do horário, além de ser difícil se concentrar quando tem gente em casa, já que nem sempre as pessoas entendem que estamos trabalhando. Também foi difícil Me desligar dos colegas de trabalho. Éramos um grupo de 23 pessoas e com o isolamento, ficou cada uma em sua casa, então acabamos perdendo aquela afinidade diária”, relata a secretária.

Secretária do TJGO, Marta Félix, em home office. | Foto: Arquivo Pessoal

Passado um ano, sente que superou as dificuldades e assim como Rafael, a flexibilidade que o teletrabalho permite a atrai. “Hoje ligo meu computador às 11 da manhã e fico logada até às seis da tarde, que é o horário estipulado pelo meu chefe direto. Gosto da minha rotina e acho que facilita e me resguarda bastante em relação a pandemia, ao considerar que antes eu precisava andar de ônibus para me deslocar até o local de trabalho. Me adaptei tanto que preferiria permanecer em home office, caso tivesse a oportunidade”, conta Marta.

Privilégio para poucos

É preciso ressaltar, entretanto, que segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 22,7% das profissões existentes no Brasil, sendo uma em cada cinco, têm a possibilidade de adotar o teletrabalho. Assim, ao passo que estados e municípios começaram publicar decretos que determinavam semanas de isolamento àqueles que não faziam parte dos serviços essenciais, nem todas as pessoas tinham a possibilidade de continuar trabalhando enquanto se mantinham confinadas dentro de casa.

Um exemplo, foi a liminar concedida pelo Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) na primeira semana de março de 2021, após requerimento realizado pela subseção de Goiânia da Ordem dos Advogados do Brasil em Goiás (OAB-GO), para o funcionamento dos escritórios de advocacia de forma presencial durante o período de restrição de circulação. Com o decreto que passou a vigorar no dia 1º de março, as atividades estavam restritas. No documento seguinte, escritórios de advocacia já estavam inclusos, desde que seguidas as recomendações da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO) e os protocolos de biossegurança.

Como justificativa a esse requerimento feito pela OAB-GO, o conselheiro federal da OAB, Rafael Lara Martins, explica que nem todo escritório de advocacia possui as condições necessárias para manter o trabalho remoto e que, além disso, diversas outras atividades realizadas pelos advogados precisam ser feitas de forma presencial. “Quando não temos escritórios de advocacia funcionando, não temos justiça e nem Estado Democrático de Direito. Até mesmo as empresas que estão abertas agora precisam da advocacia”, complementa.

Da modalidade híbrida ao nomadismo digital

Com a normalização do home office que passou a existir desde o início da pandemia, em 2020, pode-se enxergar a abertura de um caminho ao nomadismo digital, tendência antiga que defende o teletrabalho bem antes de esta ser uma medida estratégica de combate a uma crise sanitária. A especialista em estratégia de carreira, Rebeca Toyama, ressalta que não se pode, entretanto, confundir o nomadismo digital com o home office, uma vez que o nomadismo digital diz acerca da possibilidade de se trabalhar remoto a partir de qualquer lugar do mundo, e quem trabalha em home office nem sempre exerce essa modalidade de forma integral.  

“O nomadismo digital é um advento que nasce com a globalização e com a capilaridade tecnológica vinda da internet, é a possibilidade de eu poder fazer o meu trabalho independentemente de onde eu estiver. O meu cliente não precisa nem saber onde eu estou para que eu esteja atuando. Eu mesma, hora estou em Manaus, hora em São Paulo ou no Rio de Janeiro, e o atendimento a meus clientes continua, só o cenário de fundo que muda”, detalha Rebeca.

Coach e especialista de carreira, Rebeca Toyama, em gravação à distância. | Foto: Publicação em seu perfil do Instagram @rebecatoyama/reprodução

Rebeca ainda menciona o cruzamento do nomadismo digital com a moda dos “sabáticos”, que seriam pessoas que tiram um ou dois anos para viajar, e a partir disso trabalham onde encontram oportunidades, de acordo com as habilidades que possuem. “Existem vários casos de pessoas que viajaram por muito tempo e arrumaram trabalhos diferentes a depender de onde estivessem. Quem sabia cozinhar, buscava oportunidades relacionadas a isso, por exemplo”, exemplifica.  

Com o home office decorrente da pandemia, entretanto, Rebeca acredita que as pessoas em geral e que empresas puderam perceber que o trabalho remoto não é tão difícil quanto parecia e que a modalidade híbrida é a com maior tendência para o futuro. “Tenho clientes que já atualizaram no Linkedin estarem disponíveis para vagas em home office, e outros que pediram demissão por terem sido notificados pela empresa que trabalhavam que o trabalho remoto se estenderia por tempo indeterminado. Esse olhar é muito dividido, mas o movimento maior é de um hibridismo. Trabalhar home office ou presencial quem preferir ou adotar uma escala de revezamento entre os dois”, conclui a coach.

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