“Com dinheiro em caixa, Iris deixou pessoas morrerem esperando vaga na UTI”, diz Alysson Lima

Deputado dá detalhes do pedido de impeachment protocolado na Câmara Municipal e relata bastidores da sessão em que foi impedido de falar

Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Na manhã de quarta-feira, 8, o deputado estadual Alysson Lima (PRB), que foi vereador de Goiânia até 2018, entregou um protocolo de pedido de impeachment contra o prefeito Iris Rezende (MDB). A proposta se baseia em três possíveis crimes de improbidade administrativa.

Dois deles já tiveram recomendações e ações de entidades jurídicas. O Ministério Público Federal impetrou ação contra Iris e o secretário de Educação Marcelo Ferreira pelo atraso de obras em Centros Municipais de Ensino Infantil (Cmeis). Além disso, o Ministério Público do Estado recomendou o cancelamento do contrato com uma empresa de software de chequinho na rede de Saúde, que teve pedido aceito pela Justiça. Isso, porque o contrato foi feito com dispensa de licitação e não se constatou, pela Justiça, melhoria no serviço prestado com a troca da empresa.

Além disso, o deputado defende que as tentativas de aumentos no IPTU ao longo do mandato e a ausência de estudo sobre a planta de valores da cidade também podem ser ajuizadas como improbidade.

Tudo isso está detalhado no documento entregue na Câmara, onde protocolou na condição de cidadão e cabe à Casa aceitar ou não. No entanto, ao chegar ao plenário, Alysson foi impedido de falar pelos colegas, que tripudiavam sobre seu projeto e não lhe deram direito à tribuna. Em entrevista ao Jornal Opção, ele dá detalhes do pedido e da sessão na Câmara.

 

Elisama Ximenes: Quando você foi à Câmara Municipal apresentar o pedido de impeachment encontrou resistência de boa parte dos vereadores. Como você vê essa situação de voltar à antiga Casa e ser recebido assim?

Alysson Lima: Por mais que eu estivesse preparado para esse tipo de situação, foi uma surpresa. Afinal eu era oposição lá ao prefeito, e muitas vezes eu apresentei projetos de Lei que não foram para frente, travaram. Então com certeza eu já fui com pé atrás. Mas ao mesmo tempo eu tinha esperança de que a realidade está mudando em Goiânia e, enfim, que os vereadores estão vendo como está a política. Portanto eu fui na esperança de que essa resistência não acontecesse. O que mais me surpreendeu, na verdade, não foi o fato de me negarem a tribuna, mas foram os ataques contra mim.

O líder do prefeito, inclusive, o vereador Oseias Varão, debochando, tripudiando em cima de mim e fazendo teatro infelizmente. E, outra coisa, não me deixou nem pegar no microfone para poder me defender. E muitos vereadores com quem eu tinha uma relação muito próxima, como o ex-presidente da Casa, vereador Andrey Azeredo, e tantos outros também, que eu tinha a expectativa de que, mesmo negando a tribuna, não tripudiassem em cima do fato de que tinha um cidadão ali apresentando um processo de impeachment.

Eu não fui lá fazer teatro, eu não estou brincando, eu não sou leviano, eu sou uma pessoa séria na minha conduta. Fui apresentar um projeto muito bem amparado, uma peça de 20 páginas. Além disso, tem 200 outras páginas a serem anexadas como embasamento, como provas, caso os vereadores precisem. O sentimento depois disso tudo é de revolta, de indignação e de humilhação. Não por mim, mas pelas pessoas que são oprimidas na cidade de Goiânia. Uma cidade que continua sendo cheia de abismos. O pobre é muito pobre e o rico, muito rico. E os políticos que deveriam estar pensando no social estão pensando nos seus esquemas, nos seus grupos políticos.

Mas se um deputado estadual que vai apresentar um pedido de impeachment é tratado dessa forma, quem dirá um cidadão que está passando do outro lado da rua, será que ele vai ter alguma voz ali? Sinceramente, eu me senti humilhado lá.

“Fui apresentar um projeto muito bem amparado”

Elisama Ximenes: No fim do ano passado teve a sua saída, do agora senador Jorge Kajuru e do agora deputado federal Elias Vaz, que eram vereadores de muita voz na oposição ali na Câmara. Desde então mudou-se a configuração lá na Casa, com uma base maior, você acha que essa resistência tem a ver com isso?

Alysson Lima: Quando eu cheguei à Câmara Municipal, na quarta-feira, 8, a impressão que eu tive foi de que eu estava em um mosteiro ou em uma colônia de férias. A temperatura política da Câmara mudou completamente com a minha saída, do Kajuru, do Elias Vaz. Hoje parece uma orquestra sinfônica do prefeito. O que é vergonhoso, porque o papel do vereador é estar ligado ao cidadão, não a grupos políticos. Essa inversão de prioridades é nociva.

Mas essa reconfiguração da Câmara hoje, de ter uma base maior, eu não sei se é boa, porque no ano que vem tem eleição. Os vereadores têm que ficar preocupados com a população. Do jeito que está ali, eu acredito que uns 20, 25, ou até mais parlamentares não serão reeleitos no ano que vem.

Elisama Ximenes: E a proposta de impeachment tem base em que?

Alysson Lima: Ela se baseia em três crimes de improbidade administrativa praticados pelo prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB). Nós estamos apontando juridicamente, neste processo, esses três crimes e cabe agora aos vereadores investigar ou não. Um está relacionado à Educação, por essa ação do Ministério Público Federal para que o prefeito Iris Rezende retome as obras paradas dos Centro Municipais de Ensino Infantil (Cmeis).

Isso não é de hoje, já é antiga, o próprio Ministério da Educação, entre 2017 e 2018, determinou que a prefeitura retomasse essas obras de Cmeis. O que não foi obedecido, mesmo tendo dinheiro em caixa. Isso, porque desde a época que o Oséias era secretário de Finanças do município, a prefeitura vem alegando superávit. Desde o primeiro ano de gestão eles alegam superávit. Mas infelizmente, até agora, a prefeitura não teve o cuidado de terminar essas obras com dinheiro em caixa e isso é grave. Além disso, tem a questão tributária. O prefeito deveria ter montado um grupo para estudar a nova planta de valores do município de Goiânia e encaminhar a nova planta para a Câmara Municipal, para ser aprovada, e não o fez.

As consequências foram graves e foram várias. Tivemos aqueles aumentos desenfreados que a prefeitura tentou emplacar com alíquotas super elevadas, arrebentando a população. E, ao não fazer isso, ele também acabou cometendo o crime de improbidade administrativa. Fora isso, um terceiro ponto é a irregularidade na instalação do software de chequinho na Saúde. Além de, com saldo positivo, a prefeitura ter deixado muitas pessoas morrerem aguardando vagas de UTI, o software que eles compraram é tão péssimo e infundado que já foi condenado ao seu encerramento pelo Ministério Público do Estado.

Lá atrás o MP fez uma recomendação para não contratar com dispensa de licitação e, mesmo assim, a prefeitura o fez. E, hoje, já pagou mais de R$ 2 milhões e o software vai ser cancelado. É dinheiro público jogado para o ralo. Temos, também, quase 120 obras paradas em Goiânia, mais de R$ 1 milhão em obras paradas e a prefeitura esperou quase dois anos e meio para fazer saldo positivo, e agora no fim, o prefeito vem e diz que vai terminar essas obras. Um perfil claramente eleitoreiro. Isso a população não pode deixar e os vereadores de Goiânia, se tiverem o mínimo de sensibilidade e bom senso, não vão permitir mais o prefeito continuar governando a cidade.

“Nós estamos apontando juridicamente, neste processo, esses três crimes e cabe agora aos vereadores investigar ou não”

Augusto Diniz: Pelo que você viu na Câmara, você sente que esse bom senso vai existir?

Alysson Lima: Só se Jesus voltar até lá. A tendência é cada vez mais endurecer o coração. Porque cada vereador ali, boa parte deles, têm seus cargos na prefeitura. Essa política de cooptação tem que mudar no Brasil. Eu vejo um certo esforço do presidente da república em fazer isso, não sei se o Congresso Nacional está disposto. Mas esse negócio de política e troca de cargos têm que deixar de existir. Eu, hoje, posso falar tranquilamente, não tenho um cargo no Governo do Estado.

Muitos batem desesperadamente na porta do meu gabinete pedindo emprego e eu nunca pedi para o governador cargo para ninguém, porque eu sei qual que é a relação de troca. O cidadão não pode ser ingênuo, ninguém ganha um cargo sem depois ter uma fatura. Agora uma coisa é um parlamentar que tem um cargo ou outro, outra é um que tem 30 a 40 cargos. Esse sujeito vai até o fim do mandato 100% ligado com o governador ou com o prefeito e vai ter que votar sempre de acordo.

Eu como deputado já tenho a prerrogativa de ter uma equipe boa comigo, não preciso desses cargos. Estou abrindo mão de metade da verba indenizatória e vou gerar uma economia de R$ 1 milhão ao longo dos próximos quatro anos e, mesmo assim, tem um gasto ainda ali. Mas enquanto tiver esse tipo de política no Brasil, o País vai continuar patinando.

Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Augusto Diniz: Vereadores alegam que o pedido de impeachment que o senhor protocolou é uma tentativa de aparecer. É uma decisão política?

Alysson Lima: Política é visibilidade. Ninguém faz política para ficar enterrado debaixo de um buraco como se fosse tatu. Para tudo que eu faço na minha vida é óbvio que eu quero dar visibilidade. Quando eu divulgo uma ação minha, por exemplo, de devolver recurso para os cofres públicos o pessoal fala “isso é proselitismo”. Mas se eu não faço, as pessoas me criticam, se eu faço é proselitismo.

Se eu fico calado durante dois anos como vereador de Goiânia, tento apresentar um projeto de impeachment e vejo que não é o ambiente, depois que eu saio e apresento como cidadão comum, os vereadores falam que eu estou fazendo plataforma política, trampolim político. Eu tenho quase 250 mil seguidores nas redes sociais, o tempo todo eu estou aparecendo. Você pode pesquisar no portal da Assembleia, eu sou um dos deputados que mais apresentou projeto de Lei nesta legislatura. Eu não faltei uma sessão neste ano. Então meu perfil, realmente, é o de engajamento. Agora, eu estou preparado para a crítica.

Eu cheguei à Câmara e o pessoal falou que iria bater em mim até me esmagar. E eu disse que podia bater, não tenho problema nenhum com isso, não tenho vínculo político com ninguém. Não é para aparecer, é realmente porque eu estou com uma motivação em cima de uma questão social e tenho embasamento para isso. Mas eu sei que quando apresento um projeto desse vem a visibilidade. Se eu que sou o Alysson Lima, que apresentei jornal em Goiânia, corro o risco de levar bordoada política, imagina um deputado ou um vereador que não tem expressão.

“Além de, com saldo positivo, a prefeitura ter deixado muitas pessoas morrerem aguardando vagas de UTI, o software que eles compraram é tão péssimo e infundado que já foi condenado ao seu encerramento”

Elisama Ximenes: Apesar do ambiente hostil, tiveram vereadores que saíram em sua defesa. Teve manifestação de solidariedade lá?

Alysson Lima: Teve e eu quero citar aqui o vereador Lucas Kitão, que é uma pessoa maravilhosa, político de muito futuro, um jovem que está realmente fazendo a diferença na política. A vereadora Dra. Cristina, que dispensa comentários, política muito conhecida, preparadíssima e uma pessoa por quem temos um respeito muito grande. Inclusive temos um trânsito político tão bom que eu, ela, o Kajuru e o Elias, de forma independente, temos discutido o futuro político de Goiás. Além deles, a vereadora Tatiana Lemos, que também é amicíssima, teve uma postura muito cordial comigo, me protegeu e defendeu. A vereadora Léia Klébia e, surpreendentemente, o vereador Wellington Peixoto, que é da base do prefeito, votou consentindo que eu fosse para a tribuna.

Ainda tiveram duas pessoas que se solidarizaram comigo, por quem tenho muito carinho: a vereadora Sabrina Garcêz, que me ligou e entrou em contato comigo, disse que não pode estar presente porque alguém da família dela passou mal e ela teve que levar ao hospital; e a vereadora Priscila Tejota, que tinha acabado de sair para um compromisso junto com o vice-governador, seu esposo. Então essas pessoas, realmente, contam com meu respeito. As demais também, mas me deram uma surpresa negativa. Eu ouvi de ex-colegas, com quem eu convivia há 5 meses atrás, que eu estava querendo aparecer ali.

Teve um que, de maneira até leviana, disse que da próxima vez que eu fosse à Câmara teria que ir com uma melancia na cabeça. Pelo amor de Deus, eu fui o terceiro mais bem votado de Goiânia e fui lá apresentar uma peça de impeachment junto com o meu departamento jurídico. A sensatez deles era deixar eu falar durante dez minutos e depois poderiam me atacar politicamente no microfone. Não tinha problema nenhum em relação a isso, fui preparado.

Augusto Diniz: Quem foi o vereador que fez essa fala que compara sua ida a colocar uma melancia na cabeça?

Alysson Lima: O novo líder do prefeito, vereador Oseias Varão.

“O prefeito colocou um carrasco lá para defendê-lo”

Elisama Ximenes: Sobre isso, o prefeito mudou o líder recentemente, inclusive após o seu anúncio de que levaria um pedido de impeachment à Câmara. É uma troca que ele anunciava desde o início do ano, mas só agora o fez. Você acha que tem a ver com esse protocolo apresentado por você na Casa?

Alysson Lima: Eu tenho certeza de que foi tudo calculado. O Iris colocou um vereador ali com quem já tive embates. Um parlamentar que já se aproximou de mim, quando eu me aproximava da tribuna para falar contra a reforma da previdência do município, ainda em 2018, e me xingou. Isso dentro de um ambiente de debate político, onde tem que ter divergências, eu gosto disso, mas ofensas não. E aí ficou essa rusga dele comigo. Da minha parte não tenho nenhuma.

E então, um dia antes da apresentação do projeto de impeachment, o prefeito tira o vereador Tiãozinho Porto, que é uma pessoa agradabilíssima, mas que não tem o perfil líder, e colocou o vereador Oseias Varão. Uma escolha muito infeliz, porque se trata de um vereador muito desgastado na Câmara Municipal, uma pessoa que 80% dos vereadores não gosta de tê-lo por perto, ele desagrega. Uma pessoa pesada, que usa o subterfúgio da religião para passar por cima das pessoas como se fosse um trator. E religião não é isso, minha visão de religião é completamente diferente. Então o prefeito colocou um carrasco lá para defendê-lo.  

Augusto Diniz: Mas é um vereador que tem um perfil de defesa incondicional do que foi colocado para ele, né? Ele vai defender o prefeito independente da situação.

Alysson Lima: O Oseias Varão é uma marionete que representa um grupo político muito forte e que tem essa questão religiosa por trás. Falo com muita tranquilidade. Ele representa um grupo que tem questão ideológica como bandeira, e que para defender isso passa por cima das pessoas. Então ele é uma pessoa extremamente despreparada para ser líder do Governo. A Câmara é o termômetro da sociedade e precisa de pessoas que sejam sensíveis ao que está acontecendo em Goiânia. E o Oseias é uma pessoa completamente desequilibrada para isso. Gostaria de ter palavras de elogio para ele. E ele representa um grupo, nada mais que isso, é uma marionete de um sistema religioso.

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