Com aumento de 300% da ocupação de lavouras na Chapada dos Veadeiros, ambientalista considera projeto para reduzir área do Parque ‘irresponsável’

Entre 2000 e 2019, o território ocupado por agricultura em Alto Paraíso de Goiás, São João d’Aliança, Cavalcante, Teresina de Goiás, Nova Roma e Colinas do Sul foi de 15,7 mil hectares para mais de 63,8 mil hectares

De acordo com dados da plataforma MapBiomas.org, em 20 anos, a dimensão da área das plantações nas cidades que compõem a região da Chapada dos Veadeiros triplicou, com um aumento de 305%. Entre 2000 e 2019, o território ocupado por agricultura em Alto Paraíso de Goiás, São João d’Aliança, Cavalcante, Teresina de Goiás, Nova Roma e Colinas do Sul foi de 15,7 mil hectares para mais de 63,8 mil hectares.

A alteração e reflexo da pressão do agronegócio no entorno parque da Chapada é perceptível, inclusive, pela evolução, ao longo do tempo, de imagens de satélite, com prejuízos para a biodiversidade local. Nos últimos dois anos e meio, a plataforma Map Biomas Alerta identificou 110 situações de desmatamento nas cidades da região, que geraram uma devastação de 5.431 hectares – média de 5,7 hectares por dia.

Para o ambientalista e conselheiro da As­sociação para Re­cupe­ração e Conser­vação do Ambiente (Arca), Gerson de Souza Ar­raes Neto, a ampliação da área do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, através do decreto presidencial editado presidente Michel Temer em 2017, é possivelmente o “único avanço que tivemos na área ambiental nos últimos cinco anos”.

Gerson Neto, ambientalista e conselheiro da As­sociação para Re­cupe­ração e Conser­vação do Ambiente (Arca)

Segundo o ambientalista, o bioma Cerrado está praticamente extinto e aquela região “é uma das últimas a conservar vastas paisagens preservadas, inclusive, com espécies de gramíneas que desapareceram fora dali”. Os números oficiais apontam que 51% da área de cerrado já havia sido desmatada em 2019.

“Das áreas desmatadas, o ecossistema menos protegido é o do Cerrado Strictu Sensu, com seus campos de gramíneas misturados a arvoredos retorcidos esparsos. As áreas de proteção estão próximas aos cursos d’água e se concentram em ecossistemas de matas ciliares e de galeria”, explicou Gerson Neto.

De acordo com o conselheiro da Arca, na região da Chapada dos Veadeiros os campos de gramíneas nativas ainda predominam, enquanto a braquiária e outras gramíneas exóticas impedem o desenvolvimento das espécies nativas por ter vantagens na competição pelo espaço. “A presença da braquiária muda até mesmo o regime do fogo. O motivo é por ela desenvolver mais massa de palha o que aumenta a temperatura, intensidade e a reincidência das queimadas”.

Na contramão da preservação ambiental, um projeto apresentado na Câmara dos Deputados prevê a redução do Parque Nacional da Chapada do Veadeiros de 240 mil para 65 mil hectares. O autor da proposta, o deputado Delegado Waldir (PSL), justificou que o aumento do parque, por meio do Decreto 14.471 de 5 de junho de 2017, prejudicou agricultores da região.

Gerson Neto considera a proposta para redução da área do Parque “irresponsável”. “Vivemos as ameaças prementes da crise hídrica, da crise energética e das mudanças climáticas. Um deputado que quer impor um retrocesso absurdo desses para o meio ambiente defende interesses particulares, é um despachante, contra a defesa de direitos que podem representar a segurança e a sobrevivência de todos”, pontuou.

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