O colapso de uma mina da Braskem, em Maceió, no Estado de Alagoas, pode ocorrer a qualquer momento. A cidade está em alerta para o risco iminente de desabar, podendo deixar milhares de mortos e desabrigados. Por isso, a Defesa Civil emitiu alertas ao longo da semana para que os moradores deixem a região e procurem um local seguro.

Ainda de acordo com a Defesa Civil, até o início da tarde de sexta-feira, 1º, o solo no local afundava a uma velocidade aproximada de 2,6 centímetros por hora. Até o meio-dia, o deslocamento vertical acumulado na área da mina era de 1,42 metro. O órgão está  em alerta máximo, devido ao risco iminente de colapso da mina 18, que está na região do antigo campo do clube CSA, no bairro de Mutange.

Na noite de quarta-feira, 29, o prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (PL), decretou estado de emergência por 180 dias na capital de Alagoas. Um gabinete de crise foi criado emergencialmente pelo prefeito na quarta para acompanhar o agravamento da situação e agentes da Defesa Civil Nacional foram para a cidade.

De acordo com a Prefeitura, a “instabilidade do solo foi provocada pela atividade de mineração da Braskem em 35 minas na região”.

A região das minas, onde a empresa de mineração está realizando o preenchimento, registrou ocorrências de microssismos. As atividades na área foram interrompidas preventivamente para não prejudicar a coleta de dados, e a região foi isolada de acordo com os protocolos da empresa e da Defesa Civil de Maceió.

De acordo com líderes locais, desde que a Defesa Civil de Maceió emitiu um comunicado sobre a situação na região do antigo campo de futebol do CSA, as comunidades estão em pânico e revoltadas. Uma decisão judicial determinou a evacuação de 27 famílias da área de risco 00, que inclui dois bairros. Até a noite de sexta-feira, 14 famílias ainda não haviam deixado suas casas.

A Braskem informou em nota que continua monitorando constantemente os dados, compartilhando as informações em tempo real com a Defesa Civil municipal.

Como começou a crise em Maceió

Tudo começou em 3 de março de 2018, quando Maceió testemunhou um tremor de terra que causou rachaduras em ruas e residências, acompanhado pelo afundamento de cinco bairros: Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e uma parcela do Farol. Mais de 55 mil moradores tiveram que deixar suas residências naquele ano por causa das atividades de mineração da Braskem, que operava em 35 minas na capital alagoana.

Em novembro de 2019, a empresa optou por uma remoção preventiva dos moradores e pela criação da Área de Resguardo, situada nos 35 poços de sal que estavam paralisados desde maio do mesmo ano. Nesse período, a Braskem anunciou o encerramento definitivo da extração do minério na região, afetando mais de 200 mil pessoas.

O fechamento das 35 minas da companhia, em 2019, ocorreu após a empresa ser responsabilizada pelo surgimento de rachaduras em casas e ruas de alguns bairros de Maceió no ano anterior. O deslocamento do subsolo foi provocado pela extração de sal-gema, um cloreto de sódio utilizado na produção de soda cáustica e policloreto de vinila (PVC) pela Braskem, que começou suas operações na região em 1976.

Em meio ao registro de novos tremores, as atividades na Área de Resguardo foram temporariamente interrompidas. Os sismos mais recentes foram identificados em áreas já desocupadas. Por razões de segurança, a Defesa Civil recomenda evitar a circulação de pessoas e embarcações na lagoa próxima a Mutange.

“A recomendação é clara: a população não deve transitar na área desocupada até uma nova atualização da defesa civil, enquanto medidas de controle e monitoramento são aplicadas para reduzir o perigo. A equipe de análise da defesa civil ressalta que essas informações são baseadas em dados contínuos, incluindo análises sísmicas. O órgão reitera a recomendação de evitar a área desocupada do antigo campo do CSA.

A mina em risco tem 85 metros de largura e está a 1,1 mil metros de profundidade, segundo estudo do Serviço Geológico do Brasil. A catástrofe pode ser ainda maior, visto que outras duas minas, a de número 7 e a 19, estão bem próximas da 18.

Localização do bairro Mutange, em Maceió, onde está localizada a mina 18 / Reprodução/Google Maps

A gestão municipal informou que “até 2019, a empresa fazia extração inadequada de sal-gema”. Esse material é utilizado pela indústria química para fabricação de soda cáustica e PVC.

Segundo o governo de Alagoas, cinco abalos sísmicos foram registrados na região somente neste mês de novembro. O desabamento da mina pode ocasionar a formação de grandes crateras na região, além de provocar um efeito cascata em outras minas.

O prefeito JHC atribui à Braskem a responsabilidade pela situação. “A empresa Braskem começou a operar em Maceió na década de 1970. De lá pra cá, essa exploração predatória continuou de forma agressiva. Faltou fiscalização por parte dos órgãos competentes de maneira mais contundente.”

Saiba mais sobre a Braskem

“Orientada para as pessoas e para a sustentabilidade, a Braskem está engajada em contribuir com a cadeia de valor para o fortalecimento da Economia Circular. Os 8 mil integrantes da petroquímica dedicam-se diariamente para melhorar a vida das pessoas por meio de soluções sustentáveis da química e do plástico”. É como se apresenta a empresa responsável por causar uma catástrofe ambiental em Maceió, podendo levar a cidade a afundar.


De acordo com seu site oficial, a Braskem foi criada em agosto de 2002 pela integração de seis empresas da Organização Odebrecht e do Grupo Mariani, e é, hoje, a maior produtora de resinas termoplásticas nas Américas e a maior produtora de polipropileno nos Estados Unidos. “Sua produção é focada nas resinas polietileno (PE), polipropileno (PP) e policloreto de vinila (PVC), além de insumos químicos básicos como eteno, propeno, butadieno, benzeno, tolueno, cloro, soda e solventes, entre outros. Juntos, compõem um dos portfólios mais completos do mercado, ao incluir também o polietileno verde, produzido a partir da cana-de-açúcar, de origem 100% renovável”, descreve a empresa. 

Com 40 unidades industriais no Brasil, EUA, México e Alemanha, a companhia exporta seus produtos para Clientes em mais de 71 países. É líder na produção de resinas termoplásticas (PE+PP+PVC) nas Américas e 6ª maior petroquímica do mundo, conforme se descreve em seu site oficial.  

“A Braskem está inserida no setor químico e petroquímico, que tem participação relevante em inúmeras cadeias produtivas e é essencial para o desenvolvimento econômico. Nesse contexto, a química e o plástico contribuem na criação de soluções sustentáveis para a melhoria da vida das pessoas em setores como moradia, alimentação e mobilidade”, completa. 

Em 2021, o ex-presidente da Braskem José Carlos Grubisich foi condenado a 20 meses de prisão nos Estados Unidos. Segundo a acusação, Grubisich e outros funcionários da Braskem e da Odebrecht (atualmente rebatizada de Novonor) foram responsáveis pela elaboração de um fundo secreto milionário que era usado para subornar funcionários públicos e partidos políticos do Brasil, garantindo contratos com a Petrobras.

O esquema ocorreu entre 2002 e 2014 e foi denunciado por delatores da Operação Lava Jato. O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef disseram aos investigadores que a Braskem pagou propina para ser beneficiada em contratos com a Petrobras.Tanto a Braskem quanto a Odebrecht se declararam culpadas das acusações criminais ao fechar um acordo com a Justiça norte-americana como parte do acordo.

Em novembro de 2019, Grubisich foi preso no aeroporto John F. Kennedy, em Nova York, por conta do esquema. À época, ele foi acusado pelo tribunal federal do Brooklyn de conspiração para lavagem de dinheiro com risco de fuga. Ele foi solto em abril de 2020, depois de pagar fiança de US$ 30 milhões.

Braskem e Odebrecht concordaram em 2016 em pagar um total combinado de US$ 6,9 bilhões em um acordo com autoridades dos EUA, Brasil e Suíça para resolverem as acusações de suborno.

Veja o que diz a Braskem:

Leia a íntegra da nota da empresa publicada na sexta-feira, 1º:

“A Braskem continua mobilizada e monitorando a situação da mina 18, localizada no bairro do Mutange, tomando todas as medidas cabíveis para minimização do impacto de possíveis ocorrências. Referido monitoramento, com equipamentos de última geração, foi implementado para garantir a detecção de qualquer movimentação no solo da região e viabilizar o acompanhamento pelas autoridades e a adoção de medidas preventivas, como as que estão sendo adotadas no presente momento.

Os dados atuais de monitoramento demonstram que a acomodação do solo segue concentrada na área dessa mina e que essa acomodação poderá se desenvolver de duas maneiras: um cenário é o de acomodação gradual até a estabilização; o segundo é o de uma possível acomodação abrupta. Todos os dados colhidos estão sendo compartilhados em tempo real com as autoridades, com quem a Braskem vem trabalhando em estreita colaboração.

A área de serviço da Braskem nas proximidades da mina 18 está isolada desde a tarde de terça-feira. Ademais, a região onde está localizada referida mina (área de resguardo) já está totalmente desocupada desde 2020.

Desde a noite da quarta-feira, a empresa também está apoiando a realocação emergencial dos moradores de 23 imóveis que ainda resistiam em permanecer na área de desocupação determinada pela Defesa Civil em 2020. Essa realocação emergencial foi determinada judicialmente na tarde da quarta-feira e está sendo coordenada pela Defesa Civil. Até o momento, 22 desses imóveis já foram desocupados e os trabalhos prosseguem. A realocação preventiva de toda a área de risco foi iniciada em dezembro de 2019 e 99,3% dos imóveis já estão desocupados (dados de 31 de outubro de 2023).