Para Guilherme Carvalho, chefe do Executivo centralizou boa parte das atribuições em si. “A consequência disso é a paralisia da governança”

Guilherme Carvalho, cientista político | Foto: Reprodução

Atingidos os 100 primeiros dias de governo, o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), promoveu um encontro no Palácio do Planalto para apresentação do balanço e prestação de contas destes pouco mais de três meses de trabalho. Ao Jornal Opção, o cientista político Guilherme Carvalho fez uma análise sobre os principais pontos a serem destacados neste início de mandato.

Na visão do cientista, para que se entenda melhor a situação atual, é necessário retomar ao período de campanha. Bolsonaro, segundo Carvalho, foi eleito com um discurso de ruptura. “Esse discurso era fortemente associado à corrupção, desmandos, falta de gestão no trato público. Isso ganhou coro popular e veio ganhando massa corporal, principalmente após os protestos de junho de 2013”. Para ele, o presidente soube “capitalizar muito bem isso para ser eleito”.

Ele diz ser importante entender que “a base do Bolsonaro não é inteiramente bolsonarista”. E explica: “Essa base, em grande parte, também é formada por antipetistas. Essa ala (que votou no Bolsonaro não por favoritismo, mas por rejeição) não foi capitaneada por outros partidos. Ela é composta por pessoas que simplesmente não quiseram que o Partido dos Trabalhadores (PT) retornasse ao Poder”. 

100 dias

“Ele tomou posse e daí em diante vivemos uma série de crises. A síntese é que o presidente continuou em cima do palanque”. Para o cientista, Bolsonaro criou um inimigo permanente e esse inimigo é o PT, bem como os socialistas, comunistas e todos os integrantes da esquerda. “Por isso vemos esses discursos de exaltação ou referendando, em partes, o golpe de 1964 e todos os desdobramentos que dali vieram. Ele está falando (nesses momentos) com as hostis propriamente bolsonaristas, aquele núcleo central.”

Quanto aos antipetistas, o cientista considera que, apesar de terem votado em Bolsonaro e ajudado a elege-lo, “Por não quererem o PT de volta, acharam que essa seria uma alternativa”. Carvalho diz acreditar que as derrapadas de Bolsonaro acabam atrapalhando sua comunicação com este eleitor, definido pelo cientista como “eleitor médio”.

“Então a gente começa a ver o esfacelamento muito precoce da base social que elegeu Bolsonaro. É o presidente que perdeu popularidade mais rápido na história sendo que a tradição é que nos seis primeiros meses seja a lua de mel”, destacou Carvalho.

Para ele, a “oposição institucionalizada” tem capitaneado todas essas “caneladas e desarranjos” do presidente para tentar demover os eleitores que deram a ele (Jair Bolsonaro) seu voto de confiança. Para o cientista, o chefe do Executivo centralizou boa parte das atribuições em si. “A consequência disso é a paralisia da governança”.

“Agora a gente começa a ver uma resposta dessa confiança que não era bolsonarista, de uma confiança mais ao centro. Ele escolheu, nesses 100 primeiros dias, fazer um discurso para sua militância aguerrida e não para todos os brasileiros. Isso tem um preço eleitoral que poderá ter consequências já no ano que vem nas eleições municipais”, justificou.

Goiás

Guilherme enxerga um grande alinhamento do Estado com o Governo Federal. “O Estado deu a maior parte dos votos para o presidente. Goiás também elegeu deputados que podem ali ser afeitos as agendas do presidente. O governador Ronaldo Caiado, além de apoiar o presidente, já se mostrou afeito as agendas, principalmente, do ministro Paulo Guedes”, enumerou.

Porém, diferentemente do Governo Federal, o cientista alega que o Estado não conseguirá “viver só de símbolos”. “Ele precisa de ações concretas. (…) O governador está imobilizado mesmo cumprindo agendas em Brasília para tentar buscar recursos.”

“Por outro lado, os deputados também não estão tendo acesso a liberação de emendas. Apesar de ser um Estado que dá forte sustentação ao governo, ele está sendo deixado de lado. Goiás não está recebendo, assim como os demais Estados, a devida atenção do presidente”, finalizou.