“Cheguei a ter ânsia de vômito”, diz prefeito de Bonfinópolis sobre proposta de propina

Kelton Pinheiro afirma estar tranquilo com convite para o Senado e acredita que força de denúncias irão ajudar a esclarecer o caso

“Foi uma das coisas mais absurdas e ofensivas que ouvi na minha vida, cheguei a ter ânsia de vômito.” É assim que o prefeito de Bonfinópolis, Kelton Pinheiro (Cidadania) relata a abordagem de Arilton Moura, um dos dois pastores no centro da crise do gabinete paralelo dentro do Ministério da Educação. Os nomes de Arilton e Gilmar Santos despontaram como responsáveis por interferência na agenda do ministro Milton Ribeiro, por meio da cobrança de propina de prefeituras do país. Tanto o ministro como os dois pastores são alvos de inquérito de investigação aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), na última quarta-feira, 24.

Além dos investigados, a Comissão de Educação do Senado também irá ouvir prefeitos envolvidos no caso. Entre eles, está o prefeito Kelton Pinheiro, presente em uma das reuniões realizadas ao lado do grupo. O nome de Kelton foi incluído entre os listados após pedido do senador Vanderlan Cardoso (PSD), mas não gerou preocupações para o prefeito, que diz ter recebido a notícia “com tranquilidade.” “É bom deixar claro que não fui eu que fiz a denúncia, o primeiro foi um [prefeito] do Maranhão. Foi aí que me lembrei da situação e, quando fui perguntado sobre participar da reunião pela imprensa, contei que sim. Só estou dando minha participação para contribuir para que a gente tenha um sistema democrático fortalecido e que, qualquer que seja a pessoa envolvida, seja Kelton, o presidente da República ou alguns pastores, é preciso apurar pra ver quem tem culpa”, comentou.

Segundo Kelton, o contato com o esquema comandado pelos pastores surgiu quando ele foi procurado para conversar com o pastor Gilmar, que poderia aproximar o município do ministério para que houvesse liberação de recursos para a construção de escolas. Após demonstrar interesse fazer os primeiros contatos pelo telefone, Kelton se encontrou com Gilmar e Arilton em Goiânia. Já na primeira reunião, Arilton teria dito que levaria o prefeito até o Ministério, para que as negociações fossem iniciadas, e Kelton questionou o interesse dos líderes religiosos na mediação. “‘Você dá uma ajuda para a igreja, compra mil bíblias que já ajuda’, eles responderam. Depois de perguntar o preço eu disse que a prefeitura não tinha condição, e eu teria que fazer uma doação pessoal, talvez comprar umas 100 bíblias. Mas até aí, nenhum problema num pastor pedindo uma colaboração para o trabalho dele”, narrou Kelton.

No dia seguinte, então, uma pessoa entrou em contato para confirmar a reunião com o ministro. O prefeito de Bonfinópolis avalia que que a reunião foi extremamente positiva, com uma explanação interessante, embora superficial, dos programas disponíveis no ministério. “A reunião queria aproximar os municípios [do MEC], inclusive frisando que não havia corrupção, sem a necessidade de intermediários ou lobistas entre as prefeituras e o ministério. Porém frustrante na segunda parte, quando pessoas nos abordam dessa forma. Saímos felizes com a reunião do ministério, mas tristes pela situação de constrangimento.”

A situação de constrangimento a qual o prefeito se refere aconteceu após a reunião oficial, num restaurante já fora dos ambientes oficiais. Logo após terminar o almoço, Kelton conta que foi abordado por Arilton de forma bem clara e direta. “Ele chegou dizendo ‘prefeito, consigo liberar a escola, num valor de R$ 7 bilhões, mas o senhor tem que depositar hoje na minha conta R$ 15 mil. Papo reto. Porque vocês políticos são desonestos, se eu liberar antes vocês não pagam’. Foi uma das coisas mais absurdas e ofensivas que ouvi na minha vida, cheguei a ter ânsia de vômito”, relembra.

Apesar da reação, Kelton conta que conseguiu manter a calma e respondeu que a proposta ia exatamente contra tudo o que fora dito na reunião, finalizada pouco tempo antes, mas o pastor teria explicado que precisava “arcar com os custos” e que nenhum valor seria liberado ainda esse ano, caso a transferência não fosse feita. “Nesse momento agradeci e falei para deixar para lá”, conta o prefeito. Alguns dias depois, o pastor Arilton teria entrado em contato novamente tentando fechar o negócio, mas o prefeito afirmou que não tinha condições financeiras ou interesse em seguir com a negociação.

Diante da situação, que Kelton classifica como, “entre outras palavras, um malandro tentando me extorquir”, ele confessa ter tido vontade de fazer uma denúncia formal ao MEC, mas acreditou que seria apenas sua palavra contra a do pastor. Agora, um ano depois, ele sente que o discurso ganha força ao lado da denúncia de outros prefeitos, que também estão expondo as abordagens.

“Se me perguntar se tenho provas, não tenho. Eu nunca gravei pessoas em reuniões porque não acho correto, e a única maneira de provar seria com filmagem ou gravação entre eu e eles. Mas como acontece em outros tipos de denúncias de crimes, como em abusos, por exemplo, depois que a primeira pessoa fala, surge uma série de casos. Se é só uma, é uma palavra solta e não dá em nada. Agora, se aprecem outras, cinco, seis, várias outras, isso ganha forma de evidência com peso de prova”, declara confiante na avaliação da comissão que irá julgar o caso.

Diante do crescimento das dúvidas sobre a atuação do gabinete paralelo dentro do ministério, Kelton é ponderado, declarando que não quer acreditar que exista um forte esquema de corrupção, porém segue afirmando que “essas pessoas citadas [os pastores Gilmar e Arilton] pediram para que eu pagasse R$ 15 mil pra liberar o recurso”.

Sem pagamento, inclusive, nenhum recurso foi liberado e Bonfinópolis segue aguardando a verba federal para investimento na educação municipal.

Uma resposta para ““Cheguei a ter ânsia de vômito”, diz prefeito de Bonfinópolis sobre proposta de propina”

  1. Avatar luiz faleiro disse:

    PREFEITO KELTON FOI MUITO FELIZ EM SUAS ENTREVISTAS.

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