Chegou a hora de a seleção brasileira livrar-se da neymardependência

Em 2022, Neymar terá 30 anos e não será mais garoto. O Brasil precisa firmar novos talentos. É a missão de Tite

Cilas Gontijo

Futebol é esporte e, ao mesmo tempo, arte. Os torcedores exigem vitórias, mas também espetáculo — jogo bonito. Por isso todo grande time de futebol precisa ter no elenco um jogador que faz a diferença e desequilibra as partidas. Há craques que dão plástica aos jogos. Quem não gosta de ver Messi jogando, sobretudo no Barcelona, onde brilha com mais intensidade? Quem não aprecia as arrancadas de Cristiano Ronaldo, da Juventus?

As seleções também precisam de craques que desequilibram as partidas e empolgas as torcidas. Frise-se que, em termos de seleções, há a possibilidade de se ter no elenco mais de um jogador com qualidades individuais excepcionais — tanto como titular quanto no banco de reservas. A seleção de Portugal sofre quando Cristiano Ronaldo está ausente. A seleção da Argentina não brilha se Messi não joga bem.

Willian: sem Neymar, joga grandes partidas

A seleção brasileira sempre se destacou por ter de dois a cinco jogadores excepcionais. Na Copa de 70, tínhamos Pelé, Tostão, Gerson, Jairzinho e Clodoaldo. Em 1982, o país tinha Falcão, Zico e Sócrates. Em 1994, Romário e Bebeto jogavam por música. Ronaldo Fenômeno, Kaká e Ronaldinho Gaúcho tiveram parceiros excepcionais.

Há craques que são completos: driblam de maneira desconcertante, marcam gols impossíveis, batem faltas como se estivessem compondo a Nona Sinfonia de Beethoven, e com um lance de corpo, como se fosse um bailarino, põem o companheiro na cara do gol. O Brasil cansou-se de produzir atletas excepcionais. Tanto que o Ministério da Economia deveria computar o futebol como uma espécie de commodity. Nenhum país exporta tantos jogadores quanto o país de Pelé, Romário e Vinicius Jr.

Everton Cebolinha: joga bem e pode se firmar

A torcida brasileira reclama, como qualquer torcida. Mas tem de reclamar muito menos do que várias outras torcidas. Porque o Brasil sempre ganhou títulos mundiais — cinco — e, sobretudo, encheu os olhos do mundo. De alegria e prazer.

Entretanto, nos últimos nove anos, a seleção verde-amarela — o uniforme branco não empolga nem os gramados — vive a mal afamada e improdutiva neymardependência. É certo que, durante algum tempo, não havia um jogador capaz de desequilibrar, até aparecer Neymar, quando este escapa da síndrome do cai-caísmo.

Neymar é um craque, não há dúvida. Porém, ao menos na seleção, não tem feito a diferença, exceto num ou noutro jogo. Falta-lhe regularidade. Falta-se objetividade. Joga bonito, dribla e levanta a torcida, mas raramente é produtivo para o time. Fica-se com a impressão de que joga para si, para ganhar mais publicidade, do que para o time, para o grupo.

No momento, Neymar, machucado, está ausente da seleção. Sua ausência será positiva para a seleção, para os demais jogadores. Eles terão a chance de se firmar. Quem for craque pode se fortalecer, pois seu futebol, sem a presença do “símbolo”, pode aparecer um pouco mais. Sem Neymar para ofuscá-los, se sentirão mais responsáveis pelo time de maneira global. Não é à toa que, no jogo contra o Peru, a seleção brilhou. Certo, o time peruano é fraco. Mas a seleção brasileira mostrou conjunto, espírito coletivo, ousadia e pode-se falar também em brilho individual.

Gabriel Jesus: falta passes certeiros do meio-campo

O Brasil não pode se tornar Portugal, que, sem Cristiano Ronaldo, cai de produção. Por isso, o técnico Tite não pode montar a seleção em função de Neymar — que, psicologicamente, não anda bem e enfrenta uma grave acusação de estupro. Há indícios de que está batendo um bolão mais fora do que dentro de campo.

A ausência de Neymar está sendo positiva inclusive para Tite. Porque, sem seu principal jogador, pode montar um time mais completo, mais unido. A seleção nacional tem jogadores acima da média, mas precisa que o técnico perceba e desenvolva suas qualidades. Veja-se o caso de Éverton Cebolinha. Não é um Neymar, mas, incentivado, faz a diferença. Ele é ousado e regular. Bancado, pode se firmar como um grande jogador. O mesmo ocorre com David Neres, do Ajax.

Willian brilha na Europa e, na seleção, fica na sombra de Neymar. Mas, sem a presença de Neymar, joga muito bem. Ele é inteligente, hábil e chuta bem. Fez um golaço contra o Peru.

Tite parece não perceber, mas o meio-campo precisa mudar em termos de jogadores e posicionamento. Casemiro e Coutinho deixam a desejar. Coutinho joga eventualmente bem, mas às vezes desaparece em campo (o mesmo problema ocorre no Barcelona, saí o desânimo do time catalão com o brasileiro). Falta um meia que pense e dê o passe preciso, colocando o atacante na cara do gol. Lucas Paquetá pode melhorar a qualidade do time a partir do meio-campo. Com bons lançamentos, um atacante veloz, como Gabriel Jesus, pode fazer a diferença.

A Copa América é um grande teste para a seleção, sobretudo para saber se funciona sem a estrela Neymar — que, em duas copas, não deslanchou. Neymar faz falta, mas uma seleção não pode depender de apenas um jogador. Até o momento, a falta do principal craque não tem sido sentida em larga escala. Ressalte-se, porém, que Bolívia, Venezuela e Peru não são França, Alemanha, Inglaterra, Espanha e Itália. Mas Tite certamente está percebendo se os atuais jogadores, sobretudo sem a estrela guia, podem fazer a diferença… Detalhe: se perceber que a seleção funciona sem ele, Neymar, quanto voltar ao time, poderá jogar até melhor — mais coletivamente.

É preciso lembrar que na próxima Copa do Mundo, em 2022, Neymar terá 30 anos. Quer dizer, não será mais um garoto. Se mais jovem não fez a diferença, será que, mais velho, fará?

Cilas Gontijo é comentarista esportivo.

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