“Chegará a um ponto em que a investigação vai parar. Se não há vítima, não há crime”

Ao Jornal Opção, delegada diz acreditar em relatos de jovem que denunciou um possível estupro na UFG, mas adianta que investigações terão que parar se vítima não aparecer

Delegada Ana Elisa, responsável pelo suposto caso de estupro na universidade | Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Delegada Ana Elisa, responsável pelo suposto caso de estupro na universidade | Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

A denúncia de um estupro na Universidade Federal de Goiás (UFG) feita por um aluno de Relações Públicas da instituição ainda repercute na mídia e nas redes sociais. Praticamente dois dias após o ocorrido, a possível vítima não procurou a polícia, e nem se identificou de qualquer outra forma, fazendo com que o caso siga eventualmente para o arquivamento.

A avaliação é da delegada Ana Elisa, responsável pelo caso. Em visita ao Jornal Opção, a titular explicou que o crime de estupro depende de algumas variáveis, que, até agora, não estão claras para a polícia. “Tudo está sendo feito na base de hipóteses e de possibilidades”, disse.

Segundo Ana Elisa, seria necessário primeiramente saber a idade da vítima e se ela estava sob efeito de drogas ou álcool. “Se ela estivesse em seu estado normal e fosse menor de 18 anos, por exemplo, eu teria a obrigação de investigar. Caso ela seja adulta, posso investigar apenas com sua autorização. E ainda há uma outra situação: se ela seja adulta, e estivesse sob efeito de alguma substância, e consequentemente incapacitada de resistir a uma ação violenta — o que o Código Penal define como estupro de vulnerável — , também passaria a ter a obrigação de investigar. Tudo depende da situação da vítima”, explicou.

A delegada pondera que a polícia continuará a trabalhar no caso, mas que, sem a identificação da vítima, não será possível prosseguir com as investigações. “Chega um momento em que a investigação vai parar, porque não tenho a vítima e, se eu não tenho a vítima, eu não tenho crime”, lamenta.

Fora o depoimento do aluno da UFG, uma calcinha encontrada no banheiro em que a mulher foi vista também pode indicar a existência de um crime de estupro. O objeto foi encontrado por um segurança da universidade, logo após a mulher ter sido encontrada no prédio da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), e já foi encaminhada à perícia. À reportagem, a delegada preferiu não oferecer nenhum prognóstico quanto à procedência da peça íntima.

A polícia ainda não teve acesso às câmeras do circuito de segurança da UFG, mas, segundo a Ana Elisa, informações dão conta que a câmera instalada próxima ao banheiro em que a vítima foi vista estava virada para o lado oposto, não sendo possível registrar o momento.

Sobre o depoimento da única testemunha visual do caso, a delegada disse não acreditar que o rapaz tenha inventado toda a história ou, ainda, mentido em seus relatos. “Ele foi muito coerente e seguro o tempo todo. Tinha conversado com ele, por telefone, antes, e é a mesma história sempre. Ele não se contradiz em nenhum momento”, frisou.

Relato 

Por volta das 19 horas de terça (14), o aluno do curso de Relações Públicas da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da UFG usou sua conta no Twitter para denunciar o suposto estupro dentro da universidade.

Ele contou que estava no estacionamento da faculdade quando viu um carro Volkswagen Gol preto deixar uma jovem, aparentemente dopada. Segundo o relato, ela estava com as roupas rasgadas e chorando.

Ao ligar o farol para ver melhor o que estava acontecendo, o rapaz contou que o motorista do carro fugiu e a jovem correu para dentro do banheiro. Quando entrou no banheiro, viu a jovem sem a parte de baixo da roupa, se lavando na pia. “Quando eu fui até ela, começou a pedir socorro e me bater, como se eu fosse fazer algo com ela. Estava em pânico demais”, contou.

O estudante então conta que saiu para pedir ajuda, mas não encontrou nenhum funcionário da segurança ou qualquer pessoa que pudesse ajudar e por isso resolveu pedir ajuda por meio das redes sociais. Quando retornou ao banheiro, a garota tinha fugido.

Repercussão

Ainda na noite de terça, a hashtag #UFGSePosicione ficou entre os assuntos mais comentados no Twitter do Brasil, com pessoas pedindo investigação no caso da denúncia, bem como mais segurança nas dependências da universidade.

Na manhã seguinte, alunos da UFG realizaram um protesto e ocuparam a reitoria da universidade. Os estudantes se concentraram no pátio da Faculdade de Comunicação e Informação (FIC) e seguiram em direção a reitoria entoando palavras de ordem . A organização do protesto fala em 500 pessoas.

Mesmo sem a comprovação do estupro, a denúncia serviu para levantar o debate da falta de segurança no Campus II da universidade, principalmente à noite. Os alunos reclamam de falta de funcionários da segurança e iluminação insuficiente.

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