Cérebro viciado: como a dopamina e a pandemia está afetando a nossa rotina

O isolamento social, devido à crise sanitária enfrentada nos últimos dois anos, é questão-chave, já que para o cérebro ser viciado, deve se ter um objeto de desejo. E em tempos de pandemia, são as telas azuis. 

A pandemia intensificou a procura por auxílio psicológico, disse neuropsicológica | Foto: Reprodução

A Covid-19 afetou o mundo de diversas maneiras, porém, uma das formas mais silenciosas de como ela transformou a vivência de várias pessoas foi através de um órgão do corpo humano: o cérebro. Além das sequelas deixadas nas pessoas que contraíram o vírus, o cérebro daqueles que ficaram em isolamento, trabalho e estudo remoto, também foi e é afetado. Com a retomada gradual ao serviço e aulas presenciais, a dificuldade de concentração, o problema em se manter atento em uma conversa rotineira e, até mesmo, a perda de memória, parecem ser questões que começaram a ser notadas cada vez mais.

A dopamina é um neurotransmissor, isto é, um mensageiro químico, produzido pelos neurônios, responsável por diversas funções no corpo humano, incluindo a sensação de prazer e o humor.  Quando liberada pelo corpo, provoca sensação de prazer e aumenta a motivação. Além de estar envolvida nas emoções, nos processos cognitivos, no controle dos movimentos, na função cardíaca, no aprendizado, na capacidade de atenção e no processo digestivo.

O uso frequente de computadores e smartphones podem causar uma compulsão pela liberação do neurotransmissor da dopamina. Todos os indivíduos possuem um nível base de dopamina, que varia de pessoa para pessoa, porém o nível deste neurotransmissor flutua no corpo, ou seja, não é sempre constante. Quando se tem uma baixa de dopamina, é procurado um jeito de aumentar esse nível, por isso a procura do celular para saciar essa baixa do neurotransmissor.

A problemática está quando a dopamina continua alta o tempo todo. Quando isto acontece, a pessoa não terá motivação para procurar novas fontes para receber o neurotransmissor, fazendo com que os picos e quedas sejam cada vez mais intensos. Depois de um tempo, o corpo acostuma com um alto nível de dopamina, precisando cada vez mais para atingir o mesmo efeito. Isso faz com que coisas liberam dopamina pareçam cada vez mais insuficientes e torna o cérebro cada vez mais viciado.

A neuropsicóloga Márcia Patrícia do Nascimento aponta que essa liberação em demasiado da dopamina pode desregular o chamado “Ciclo de recompensa”, região do cérebro responsável pelas vontades e tomadas de decisões. “Quando se faz o uso em demasia de telas, com certos aplicativos e as redes sociais, estará sendo ativado em excesso o ciclo da recompensa, onde se faz o cérebro trabalhar mais para transportar/ativar a dopamina. Consequentemente, a pessoa deixa de fazer o equilíbrio químico, ou seja, pode desenvolver efeitos colaterais, como a compulsão”, explica.

Problemas cognitivos gerados pelo excesso de exposição às telas, principalmente, em lugares como a América Latina, que tem um alto nível de ansiedade maior por conta de recorrentes problemas sociais e políticos, fazem com que as pessoas busquem as redes sociais para encontrar recompensa e aliviar essa ansiedade. Quem informa sobre isto é o neurocientista, PhD e biólogo, Dr. Fabiano de Abreu, que discursou durante o Congresso Científico Multidisciplinario Redilat 2021, organizado pela Revista Científica Ciência Latina.

O neurocientista acredita que, em países mais pobres, as redes sociais também são uma alternativa para tentar gerar lucro, por isso, o consumo de internet é diferenciado entre os países. “Tudo isso interfere na educação e na plasticidade cerebral que é fundamental para o desenvolvimento da inteligência”, pontua.

Tempestade

Sendo a dopamina um elemento essencial para a sobrevivência humana, pois é ela que fornece o desejo de fazer coisas novas, o disparo excessivo é o que preocupa. “ Você não vai ficar se sentindo 100% do seu tempo bem, porque ele vai trazer efeitos colaterais. Vai faltar foco para coisas importantes, você vai ser visto como uma pessoa que não dá conta das obrigações”, disse também Marcia Patricia.

Com o uso diário e em longos períodos de horas em frente às chamadas  “telas azuis”, tanto por profissionais em trabalhos remotos e estudantes, a atenção parece cada vez mais prejudicada.

“A atenção é a primeira que sofre a consequência de um desequilíbrio. Podendo desenvolver uma dificuldade maior para concentrar em um texto, dificuldade para estudar e se entreter em uma conversa. Por isso essa relação entre vício, compulsão, da dopamina”.

Uma resposta para “Cérebro viciado: como a dopamina e a pandemia está afetando a nossa rotina”

  1. Avatar Gunther Heinz disse:

    Errou. O nome da revista não é Ciência Latina …, é Ciência LATRINA.

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