Cerca de 500 mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam, na madrugada desta segunda-feira, 9, uma área de aproximadamente 8 mil hectares pertencente à falida Companhia Bioenergética Brasileira (CBB), localizada no município de Vila Boa de Goiás.

A mobilização reúne participantes de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e do Distrito Federal e integra a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, realizada em todo o país sob o lema “Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar!”.

De acordo com o movimento, a ação busca pressionar o poder público a avançar na desapropriação da área da usina, que teria sido oferecida ao patrimônio da União para quitar dívidas milionárias. A expectativa das manifestantes é que o território seja incorporado ao Programa Nacional de Reforma Agrária, o que poderia atender famílias sem terra que vivem na região e aguardam uma solução definitiva para a situação fundiária.

A área total da usina é formada por diferentes propriedades rurais, entre elas as fazendas Tábua de Cima e Prelúdio, além de outras áreas que atualmente passam por processo de adjudicação. Nesse tipo de procedimento, os bens são repassados ao patrimônio da União como forma de pagamento de débitos acumulados com o Estado.

Segundo o MST, a CBB acumula dívidas que ultrapassam R$ 300 milhões. O montante inclui débitos tributários, trabalhistas, embargos administrativos e multas ambientais. Mesmo assim, a avaliação da propriedade, estimada em cerca de R$ 200 milhões, não seria suficiente para quitar todos os valores devidos. 

Entre as pendências apontadas estão diversas ações trabalhistas movidas principalmente por trabalhadores assalariados que vivem na região ou migraram de outros estados. Há relatos de funcionários que teriam recebido apenas R$ 27 por diária, situação que configuraria trabalho em condições análogas à escravidão.

As irregularidades também envolvem questões ambientais. Dados do Ministério do Meio Ambiente indicam que aproximadamente 4 mil hectares da área estão embargados por crimes ambientais, incluindo desmatamento e destruição de áreas sensíveis de reserva sem autorização. As infrações resultaram em multas que somam cerca de R$ 3,2 milhões.

Apesar disso, a empresa costuma apresentar sua atuação como ligada ao setor de energia limpa. Integrantes do MST contestam essa narrativa e afirmam que a companhia utiliza práticas de “greenwashing”, termo empregado para descrever estratégias de marketing ambiental que ocultariam impactos negativos ao meio ambiente.

Além das denúncias ambientais e trabalhistas, outro ponto levantado pelas manifestantes envolve a existência de um stand de tiros instalado dentro da sede da usina sem licenciamento. Segundo relatos, o espaço funcionaria de forma irregular e poderia ser utilizado para intimidar trabalhadores ou dificultar a atuação de órgãos públicos no território.

Em setembro de 2025, uma operação do Ministério Público do Trabalho em Goiás (MPT-GO) resgatou 108 trabalhadores em condições análogas à escravidão após denúncia relacionada às atividades da usina. As investigações apontaram que os trabalhadores atuavam no corte de cana-de-açúcar e enfrentavam jornadas exaustivas, alojamentos precários, ausência de registro em carteira e falta de banheiros e equipamentos de proteção.

Após a apuração, a empresa foi condenada a pagar mais de R$ 1,5 milhão em verbas rescisórias e indenizações por danos morais individuais.

Enquanto isso, as mulheres mobilizadas afirmam que permanecerão na área ocupada até que o Estado avance na desapropriação do terreno por dívida com a União e incorpore a propriedade às políticas de reforma agrária. Segundo o grupo, a medida seria fundamental para garantir terra e condições dignas de vida às famílias sem terra que atualmente vivem acampadas na região.

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