Cenário presidencial tende a se reorganizar com saída de Joaquim Barbosa

Corrida eleitoral ao Palácio do Planalto ganha nova perspectiva após anúncio do ex-ministro e especialistas fazem suas apostas

Desistência de Joaquim Barbosa (PSB) de pré-candidatura a presidente da República faz com que corrida eleitoral se reorganize | Foto: Carlos Humberto/SCO/STF

Jéssica Torres

Após anunciar na última terça-feira (8/5) sua desistência à pré-candidatura a presidente pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), Joaquim Barbosa traz alteração ao cenário da disputa presidencial. Para especialistas da área política, o ministro aposentado não deve voltar atrás em sua decisão e cabe aos demais pré-candidatos que continuam no páreo reorganizar suas estratégias.

A publicação em seu perfil oficial do Twitter constava: “Está decidido. Após várias semanas de muita reflexão, finalmente cheguei a uma conclusão. Não pretendo ser candidato a Presidente da República. Decisão estritamente pessoal”.

Para Malco Camargos, doutor em ciências polícias e professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), não é possível uma mudança de decisão por parte de Joaquim Barbosa, diante da forma como argumentou. Professor doutor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e PUC Goiás, Luiz Signates pondera que é difícil saber em um mundo no qual as decisões nunca são definitivas. Contudo, diz acreditar que a pressão por sua candidatura não deve ser tão grande, a ponto de demovê-lo, depois de uma declaração pública e pessoal, como a que Barbosa fez.

Os pré-candidatos que permanecerem devem se reorganizar na corrida presidencial. “Com a desistência do ex-ministro, todos os outros pré-candidatos saem ganhando”, avalia Camargos. Barbosa, que ficou conhecido por ter sido relator do mensalão, tirava votos de todos os lados, tanto da esquerda como da direita, e até do centro, declara o especialista.

Para o cientista político, a escalada de Barbosa, a partir das pesquisas, e aceitação na disputa presidencial se davam justamente por ser uma novidade no meio político. Já Signates aponta Joaquim Barbosa como um “balão de ensaio” como foi, à direita, João Dória (PSDB) e Luciano Huck. Diante da atual situação, prossegue uma “dança das cadeiras” dos pré-candidatos em busca de consolidação.

Apoio

O ministro aposentado, que estava sendo tratado por alguns como o Obama brasileiro, traz a partir de sua decisão mudanças no cenário. Com ausência de candidato no momento, cabe ao PSB decidir quem irá apoiar.

Camargos vê a possibilidade de apoio ao PDT, em torno à pré-candidatura de Ciro Gomes, ou mesmo à candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB). “Agora o que cabe ao partido é apoiar algum candidato que tenha pouca rejeição e seja interessante uma aliança”, avalia.

Com o impasse que bloqueia o PT hoje, em sua luta pela soltura de seu principal líder, o ex-presidente Lula, Signates também aposta em Ciro, porém como principal opção. “O nome de Ciro tem se empoderado cada vez mais. Candidato de discurso forte e que está cada vez mais ganhando a confiança dos setores médios e intelectuais de esquerda do País, é, até agora, o nome com maior consistência à esquerda do processo político brasileiro”, declara.

Segundo o professor da UFG e PUC-GO, há uma expectativa de poder, que, se as forças políticas continuarem a se movimentar no sentido que estão esse será o caminho, onde naturalmente os partidos tenderão a negociar o apoio a ele.

Malco Camargos lembra que essa não é a primeira vez que o PSB passa por uma mudança de última hora. Antes, um caso semelhante aconteceu nas últimas eleições com a pré-candidata de Marina Silva, da Rede. “Mais uma vez repetem o mesmo erro”, afirma. Isso porque, segundo o cientista político, um candidato à presidência não pode ser escolhido poucos meses antes das eleições. “Deve ser uma construção ao longo de quatro anos. O PSB continua pagando o preço por sua carência de líderes nacionais e sua busca tão em cima da hora de candidatos”, acrescenta.

Quanto à visão de como ficará o cenário político, Signates analisa que as seguidas desistências de novatos, como Joaquim Barbosa, e “aventureiros”, como Huck e Dória, devem ser acompanhadas de outras, e talvez o processo eleitoral de 2018 avance para candidaturas mais sólidas.

Subida do ex-ministro na corrida presidencial era apontada em pesquisa

Barbosa, que filiou-se ao PSB no último mês, apareceu em quarto lugar na última pesquisa Datafolha (15/4). No cenário sem Lula, o ex-presidente do STF subiria para a terceira posição.

O primeiro negro a ocupar uma cadeira no STF saía dos 3% na rodada anterior do levantamento encomendado pela “Folha de S. Paulo” — divulgado em 30 de janeiro —, quando ainda estava sem partido, para percentuais que variavam de 8% a 10% em todos os cenários apresentados de intenção de votos, o que gerava temor nos demais pré-candidatos.

Em 2013, Joaquim Barbos foi eleito pela revista “Time” como uma das cem pessoas mais influentes do mundo e incluído pela BBC Brasil em uma lista de dez brasileiros que foram notícia no mundo naquele ano.

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