Cegos e surdos enfrentam desafios redobrados ante pandemia

Com a necessidade constante do uso das mãos e de uma rede apoio, distanciamento social, uso de máscaras e falta de toque agravam a crise gerada pela pandemia em pessoas com deficiência visual e auditiva

Ashley Laurence, estudante norte-americana idealizadora da máscara de proteção para surdos | Foto: Arquivo pessoal/Facebook

Com a pandemia de coronavírus do lado de fora, espreitando nas ruas da cidade e surpreendendo a população nos mínimos descuidos, parte da sociedade sofre com ainda mais ênfase das consequências perversas da doença que se alastra cada vez com mais força. Além dos idosos e dos portadores de comorbidades, que podem vir a encarar a pior face da epidemia, como a necessidade de internação, uso de ventiladores mecânicos e até mesmo a morte, cegos e deficientes auditivos também fazem parte do grupo de risco por estarem mais suscetíveis ao contágio da Covid-19.

Por que? A resposta parece óbvia, mas nem todo mundo percebe com clareza. O uso frequente das mãos para leitura de libras, comunicação, tateação de objetos e superfícies; a necessidade constante de contato físico com outras pessoas e objetos; maior dificuldade para higienização das mãos; uso de bengalas; além da associação da deficiência com doenças crônicas.

De acordo com a escritora Joyce Guerra, são muitas as dificuldades enfrentadas por pessoas cegas durante a pandemia. “Como a gente já é invisibilizado, muitos nem acreditam que a gente é grupo de risco. Algumas pessoas com deficiência perderam completamente suas redes de apoio”, contou ao Jornal Opção.

Dentre os problemas citados, Joyce ressalta a evasão de cegos das instituições de ensino pelo aumento da dificuldade em se permanecer estudando. “A evasão de pessoas com deficiência das escolas, o desmantelamento de redes de apoio e pequenas estruturas que permitiam que pessoas com deficiência pudessem ir aos lugares, a invisibilização desse segmento da sociedade”, pontua.

“Não se fala sobre, não se pensa sobre, não se debate, não se colocam soluções. Quando esses debates existem, eles existem em meios fechados. Quando debatemos questões da deficiência estamos falando de cegos com cegos. O grosso da sociedade continua sem saber que isso está acontecendo. Isso é ruim, porque não vivemos em uma ilha em que as pessoas não contam. Não é esse o momento em que a gente existe no mundo”, argumenta Joyce Guerra.

“Então, aquela pessoa com deficiência visual que tem domínio da tecnologia, ela de algum modo continua estudando. Mas aquela que por algum motivo não tinha, parou de estudar. Acho que a evasão de pessoas com deficiência visual, tanto do ensino regular quanto de cursos universitários nunca esteve tão alta. Especialmente porque muitas pessoas com deficiência, especialmente no interior não possuem o amplo domínio das tecnologias. E quando falo do interior é porque muitas vezes não tem associação e não tem professores. Algumas cidades a gente consegue ter acesso e aprender bastante, mas outras a gente não tem isso. Acredito que isso seja um problema muito sério que está acontecendo”, aponta.


“Um outro problema que sinto que está acontecendo é a quebra da socialização. Tínhamos diversas medidas que visavam a tirar as pessoas com deficiência visual de dentro de casa. Agora, obviamente a gente fica dentro de casa. Quem precisa sair tem enfrentado desafios”, lembra.


“Quem precisa sair tem relatado bastante dificuldade em se locomover de máscara, por algum motivo, quando a gente anda de máscara, parece que temos menos noção do ambiente. A gente tem micro perceptores na pele, no rosto, na face, que mesmo sem a gente enxergar conseguiam nos dar percepções que agora estão sendo perdidas. Andar de máscara para a gente está sendo bem mais desorientador do que pra pessoa que enxerga. Claro que tudo isso é aprendido. A gente aprende as tecnologias, a gente aprende a se locomover de máscaras. Não estou dizendo que é insuperável, mas são outras coisas que estão acontecendo em decorrência da nossa condição”, conta a escritora.

Além dos contratempos pessoais, existe uma dificuldade também causada pela própria sociedade aos cegos. “Acho importante mencionar campanhas generalistas. Tem gente que fala assim: ‘Se você ver um cego na rua, não toque nele, porque ele é grupo de risco e você estará colocando ele a dispor do coronavírus’. ‘Se você encontrar uma pessoa na rua, não deixe de ajuda-la. Toque nela, ofereça ajuda, porque ela continua sendo cega e precisando de ajuda’. As pessoas não estimulam a abordar essa pessoa e perguntar: ‘Oi, você precisa de ajuda? Posso te tocar?’ Como se nós fôssemos um público geral e não tivéssemos personalidades diferentes, realidades diferentes e o mais importante, direito de escolha.”

As dificuldades dos surdos

De acordo com Vera Balbino da Associação das Mulheres Deficientes Auditivas e Surdas de Goiás (AMDASGO), as maiores dificuldades enfrentadas por pessoas surdas é a dificuldade para se manter financeiramente durante a pandemia. “Tem sido difícil, principalmente para quem não tem emprego formal. Muitos conseguem seu dinheiro através de trabalhos manuais e serviços, porém com a pandemia e quarentena, tiveram que suspender e ficaram sem receber”, contou.


“Outros, quando não perdiam emprego, tinham dificuldade em adaptar nesse momento de home-office ou trabalho adaptado, e a comunicação com o superior ou empresa muitas vezes tornava mais difícil por conta da correria”, disse Vera.

Outras dificuldades estão relacionadas também ao uso de máscaras. “Atrapalha a leitura labial e que é uma das poucas formas de comunicação dos surdos”, comentou. No entanto, uma alternativa tem sido encontrada para balizar esse problema: as máscaras transparentes. “Já é, sim, é bem difundido entre a comunidade. Ajuda principalmente aqueles que tem parceiros e familiares ouvintes que não sabem libras”, afirma.


“A maior dificuldade é sobre renda, muitos ficaram sem sustento, o que nossa entidade tenta trabalhar e ajudar aqueles que ficam desamparados.
A importância da família para o surdo, sempre incentivando usar o momento para melhorar comunicação, pois muitas vezes há pouca comunicação entre pais/irmãos, e nesse período de confinamento é importante que não deixem de lado a pessoa, e sim que todos se unam para podermos vencer essa difícil batalha.”

Arrecadação de cestas para surdos

Para ajudar pessoas surdas que têm sofrido dificuldades financeiras, a AMDASGO realiza uma campanha de arrecadação de alimentos, produtos de higiene e materiais de importante necessidade durante a pandemia. A sociedade em geral pode e deve ajudar caso tenha condições.

“De acordo com o levantamento realizado, temos em torno de 120 associados com suas famílias, passando por extrema dificuldade em razão dessa pandemia, e que precisam ser assistidos com a doação de cestas básicas. Desta forma solicitamos, aos que puderem colaborar, doações de cestas básicas para que possamos doar aos nossos associados, possibilitando a ajuda no enfrentamento desse momento difícil que estamos enfrentando”, informou Vera.

Quem tem desejo de contribuir, pode entrar em contato com a associação pelo telefone (62) 985-670-184 ou fazer sua doação diretamente no local da AMDASGO, no endereço: Rua 208-B número 171 quadra D, no setor Leste Vila Nova.

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