Carnaval não é o vilão: a falsa escolha entre cultura e saúde
13 fevereiro 2026 às 17h18

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A cada início de ano, quando se aproximam os desfiles e os blocos tomam as ruas, ressurge uma tese recorrente em setores conservadores: “é preciso cancelar o Carnaval e investir esse dinheiro em saúde ou educação”.
A frase soa moralista, quase irrefutável à primeira vista. Mas, ao ser analisada com seriedade, revela-se uma falsa dicotomia, uma simplificação que ignora como funcionam as políticas públicas e o próprio conceito de desenvolvimento social.
O Carnaval não é um capricho, nem uma frivolidade financiada por dinheiro “jogado fora”. Trata-se de uma manifestação cultural que atravessa séculos, que mobiliza milhares de trabalhadores, de costureiras a músicos, de ambulantes a técnicos de som, e que movimenta a economia local de forma concreta.
Em cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Recife, a festa gera emprego, renda, turismo e arrecadação. Cancelar o Carnaval não significa, automaticamente, transferir milhões para hospitais ou escolas; muitas vezes, significa reduzir circulação econômica e, paradoxalmente, diminuir arrecadação.
A lógica de que saúde e educação são prioridades, e são, não exclui a cultura do rol de direitos fundamentais. A Constituição brasileira reconhece a cultura como um direito social. Ou seja, não se trata de uma competição entre setores, mas de políticas complementares.
Um país não se desenvolve apenas com hospitais e salas de aula; ele também precisa de identidade, memória e expressão artística. Além disso, o argumento conservador costuma ignorar que boa parte dos investimentos no Carnaval envolve parcerias público-privadas, patrocínios e retorno tributário.
O dinheiro não sai de uma “caixa única” que poderia simplesmente ser redirecionada de forma automática para outra área. Orçamento público é estruturado por vinculações constitucionais, fundos específicos e planejamento anual. É simplista, e conveniente, opor cultura a serviços essenciais.
Um outro problema, que incomoda a elite brasileira, é que o Carnaval é uma festa de rua, democrática, que inclui ao invés de excluir. É uma ocupação das ruas, de gente trabalhadora que tem alguns dias para “esquecer” dos problemas. Isso incomoda a elite, que insiste em cercear até espaços públicos.
A contradição da defesa seletiva da saúde
Há um elemento de incoerência que precisa ser apontado. Parte dos grupos que defendem o cancelamento do Carnaval sob o pretexto de “priorizar a saúde” foram os mesmos que, durante a pandemia, questionaram a eficácia das vacinas e atacaram o Sistema Único de Saúde.
Foram vozes que relativizaram a ciência e minimizaram a gravidade da Covid-19. Ao longo da pandemia de Covid-19, o SUS foi essencial para garantir vacinação em massa, atendimento hospitalar e vigilância epidemiológica.
O Brasil tornou-se referência mundial na capacidade de imunização justamente por causa desse sistema público. Defender “mais saúde” enquanto se desqualifica a principal ferramenta de saúde pública do país é, no mínimo, contraditório.
Não se trata de desqualificar críticas legítimas à gestão de recursos públicos. Fiscalizar gastos é necessário. O problema está na retórica moralizante que escolhe o Carnaval como bode expiatório simbólico, enquanto ignora desperdícios estruturais muito mais robustos em outras áreas do orçamento.
Reduzir o Carnaval a “gasto supérfluo” é ignorar seu papel como símbolo da cultura brasileira, reconhecido internacionalmente. É também desconsiderar que cultura gera inclusão social, fortalece comunidades e amplia oportunidades.
Escolas de samba e blocos são, muitas vezes, espaços de formação, pertencimento e trabalho. O debate sobre prioridades orçamentárias é legítimo. Mas colocá-lo nos termos de “ou Carnaval ou saúde” é uma falácia que empobrece a discussão.
Um país capaz de organizar a maior festa popular do planeta também deve ser capaz de fortalecer hospitais e escolas, não por exclusão, mas por compromisso com todas as dimensões do bem-estar coletivo.
Desenvolvimento não é apenas ausência de doença ou analfabetismo. É também autoestima, identidade e alegria compartilhada. E nisso, gostem ou não seus críticos, o Carnaval ocupa um lugar central no Brasil.
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