O produto cultural brasileiro mais conhecido no exterior é a música e, entre os ritmos, o samba. Dos eventos que tão bem representam esta nação, o maior sucesso ao redor do planeta é o Carnaval. Juntando-se às duas formas de atrair prestígio, dispomos do samba-enredo, que as multidões entoam fora de época, até porque toda época é de alegria. O que não se pode é comparar qualquer delas com a atual.

Em 1964, por exemplo, o país era embalado por “Aquarela brasileira”, da escola carioca Império Serrano; em 2026, está no ar “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”, da Acadêmicos de Niterói. Este reverencia o presidente da República, que já tem reservados 2 camarotes para o desfile; o outro faz alusão a “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, que morreu momentos antes de as alas descerem a avenida.

Não são só 62 anos e 13.290 metros de ponte dividindo as duas canções. Há entre elas um abismo literário, político e artístico. A obra salgueirense é um lindo poema composto por Silas de Oliveira, que começa descrevendo:

“Vejam esta maravilha de cenário

é um episódio relicário

que o artista num sonho genial

escolheu para este Carnaval

e o asfalto como passarela

será a tela do Brasil em forma de aquarela”

A letra de “Lula” é de 9 compositores: André Diniz, Arlindinho, Fred Camacho, Junior Fionda, Lequinho, Paulo César Feital, Tem-Tem Jr., Teresa Cristina e Thiago Oliveira. Começa assim o tema da campanha de reeleição, tocado desde setembro nas mídias sociais aliadas:

“Quanto custa a fome? Quanto importa a vida

Nosso sobrenome é Brasil da Silva

Vale uma nação, vale um grande enredo

Em Niterói, o amor venceu o medo”

Nove letristas, que foram recebidos por um lacrimejante presidente da República na sede do Poder Executivo federal, e ainda tiveram de vampirizar o slogan lulista de 2022. Antes que alguém queira justificar que “vida” rima com “Silva”, continuemos com os versos de Silas:

“Passeando pelas cercanias do Amazonas

conheci vastos seringais

no Pará, a ilha de Marajó

e a velha cabana do Timbó

Caminhando ainda um pouco mais

deparei com lindos coqueirais

estava no Ceará, terra de Irapuã

de Iracema e Tupã”

A oralidade das tradições surge na estrofe, parando no Norte e no Nordeste. Expõe personagens do imaginário e do santuário. E o time de Lula, para onde vai?

“Olê, olê, olê, olá

Vai passar nessa avenida mais um samba popular

Olê, olê, olê, olá

Lula, Lula”

A mistura de Chico Buarque (“Vai passar”) com Hilton Acioli (“Lula lá” de 1989) rende o 3º tema dos comícios e o som mal começou com o protagonista de 7 campanhas presidenciais. O Tribunal Superior Eleitoral deve estar de ouvidos bem abertos para o abuso do poder carnavalesco. Enquanto isso, Silas insiste em festejar o que este torrão tem de melhor:

“Fiquei radiante de alegria

quando cheguei na Bahia

Bahia de Castro Alves, do acarajé

das noites de magia do candomblé

Depois de atravessar as matas do Ipuassisti em Pernambuco

a festa do frevo e do maracatu”

E os 9 cavaleiros do apocalíptico jingle cantam o nascimento do patrocinador:

“Eu vi brilhar a estrela de um país

No choro de Luiz, a luz de Garanhuns

Lugar onde a pobreza e o pranto

Se dividem para tantos

E a riqueza multiplica para alguns”

O país de Silas celebra Castro Alves, o frevo e o maracatu; o dos 9, o pranto de Luiz Inácio e a pobreza, dependendo do público que se quer conquistar nas urnas. E se rimasse “acarajé” com “candomblé” alguém vetaria, não pelo encontro melódico, mas porque as religiões de matriz africana vivem uma fase de endeusamento dentro de palácios de Brasília e destroçadas por facções nos morros, numa completa inversão. Por falar na capital da República…

“Brasília tem o seu destaquena arte, na beleza e arquiteturafeitiço de garoa pela serra

São Paulo engrandece a nossa terraDo Leste por todo o Centro-Oestetudo é belo e tem lindo matiz”

Foi assim que Silas conquistou o mundo, a partir de sua aldeia. Como a letra lulista ganhou a concorrência em uma agremiação que deseja se manter no grupo especial? Pois é, não ganhou. Não houve disputa. Até agora, só se ganhou dinheiro, inclusive o Tribunal de Contas da União quer suspender ao menos R$ 1 milhão dos R$ 12 milhões em verbas federais destinados ao desfile.

Haverá recursos oficiais também do Rio e de Niterói, além de concessionárias de água e luz. Portanto, não se trata apenas da má qualidade do trabalho, mas do que ele inspira –enquanto Silas cantou um lugar indescritível, o samba do presidente exalta o país de que a sociedade tenta se livrar, o do jeitinho, o do compadrio, o do oportunismo.

Lá pelas tantas, o extenso enredo de Lula descamba para o Horário Eleitoral Gratuito (quer dizer, pago):

“Por ironia, 13 noites, 13 dias

Me guiou Santa Luzia, São José alumiou

Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical

À liderança mundial”

Dá o número para o folião digitar, louva um ladrão (Dimas, que em algumas pinturas surge à esquerda de Deus Pai) e se lega ao presidente um título que não alcançou, o de estadista global. Conclui como iniciou, passando pano para seu ídolo e descendo o porrete nos adversários:

“É, teu legado é o espelho das minhas lições

Sem temer tarifas e sanções

Assim que se firma a soberania

Sem mitos falsos, sem anistia”

Lequinho e Tem-Tem Jr. se esqueceram de que a herança de Lula inclui o Mensalão, o Petrolão, os assaltos aos velhinhos do INSS e o Banco Master, cujo dono era anfitrionado em palácio fora da agenda, como cabe aos VIPs. Camacho e Fionda sabem que as tarifas e sanções a serem temidas são as internas, frutos da sanha do governo para arrecadar. Os mitos falsos estão espalhados pelos diversos partidos. Sem anistia para quem? Para os criminosos de direita e esquerda de 1979?

A escola de samba lulista regurgita milhões, Silas de Oliveira morreu enquanto participava de uma roda de samba para pagar a matrícula da filha na faculdade. Também não podemos nos valer de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, criador do “Samba do Crioulo Doido”, que fez crer no casamento da princesa Leopoldina com Tiradentes (que preferia Chica da Silva) do mesmo jeito que acreditamos no Samba do Esquerdista Doído, que tenta nos fazer acreditar que o país segue a voz de Lula.

Para nada se acabar na 4ª feira, Dona Leopoldina virou escola, Lula virou samba e o Brasil dança. Ainda bem que, mesmo antes de soarem os tamborins, se descobriu o bom gosto do presidente para música. Seu choro incontido quando a ouviu pela 1ª vez puxada pelo pessoal de Niterói foi de ódio:

“Que pagaram o preço da raiva

Nós ainda estamos aqui

No Brasil de Rubens Paiva”

Demóstenes Torres, 65 anos, é ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, procurador de Justiça aposentado e advogado.