Bélgica, a favorita depois das favoritas

Com a geração mais talentosa da história, os Diabos Vermelhos nesta Copa
estão tão ofensivos como seus vizinhos holandeses nos melhores tempos.
E melhor: sem responsabilidade, podem surpreender

Witsel, Hazard e Defour festejam a vaga da Bélgica na Copa do Mundo: os Diabos Vermelhos estão chegando / Fotos: Reprodução

Witsel, Hazard e Defour festejam a vaga da Bélgica na Copa do Mundo: os Diabos Vermelhos estão chegando / Fotos: Reprodução

Elder Dias

De um lado, a tradição. Existem invariavelmente sempre quatro grandes favoritas em qualquer Copa do Mundo: Brasil, Itália, Alemanha e Argentina, por ordem decrescente (de cinco para dois) de títulos conquistados. Basta dizer que pelo menos uma delas esteve presente em todas as finais antes da última edição em 2010, na África do Sul, quando Espanha e Holanda fizeram a decisão. Mais do que isso, dos 18 Mundiais anteriores a 2010, seis finais foram entre duas das quatro seleções.

Do outro lado, a Bélgica. Apesar de ser um dos sete países fundadores da Fifa, dentro de campo sua seleção quase sempre apresentou parcos resultados em Copas: o melhor resultado em 11 participações foi o 4º lugar em 1986, no México. Nas outras dez não passou da 2ª fase e em seis destas foi eliminada logo de cara.

Goleiro Courtois e zagueiro Kompany: segurança na defesa é ponto forte

Goleiro Courtois e zagueiro Kompany: segurança na defesa é ponto forte

Em Copas, tradição realmente conta muito, como mostra o pri­meiro parágrafo. Mas, ao contrário do que é relatado no segundo, nem sempre retrospecto faz alguma diferença. Em 1974, uma seleção que até então tinha participado de apenas dois Mundiais e havia sido eliminada com apenas um jogo em ambos chegou ao vice-campeonato: a Holanda comandada por Cruijff reinventou o futebol naquele ano e sua derrota para a Alemanha é considerada uma das maiores injustiças da história do esporte. Uma meia verdade, já que os germânicos, diga-se, tinham um timaço, com Sepp Maier, Breitner, Gerd Müller e o fora de série Beckenbauer, entre outros. De toda forma, o “Carrossel Holandês” treinado por Rinus Michels foi tão marcante que elevou o futebol dos Países Baixos ao nível das seleções ganhadoras de Copas. A partir de então, a Holanda passou a ser tão temida quanto Inglaterra, França ou Uruguai, para dizer o mínimo.

A questão presente não é a Holanda de Michels, mas a Bélgica de Wilmots. Em termos de segredos táticos, na era da internet, não parece haver muito mais coisa a descobrir, como ocorreu com o “futebol total” da Laranja Mecânica em 1974. Mas a semelhança está na possibilidade de os quase sempre discretos belgas chegarem muito longe no Mundial do Brasil.

A participação dos “Diabos Vermelhos”, como são conhecidos, começa na terça-feira, 17, contra a Argélia, em jogo no Mineirão, em Belo Horizonte. E a Bélgica tem tudo para ser a grande surpresa da Copa. A começar por quem a comanda fora de campo. Marc Wilmots é um dos maiores jogadores da história do país. Esteve presente em quatro elencos de seleções que disputaram o Mundial e se tornou o maior artilheiro belga da competição, com cinco gols. Em 2002, quando o Brasil encontrou os belgas pelo caminho, Wilmots marcou um gol erradamente anulado pela arbitragem quando o jogo ainda estava 0 a 0. A seleção ganharia por 2 a 0, com gols de Ronaldo e Rivaldo, e seguiria rumo ao penta.

Mais do que já ter experiência em Copas, ainda que como jogador, Wilmots montou um moderno esquema tático. Aposta em jogadores jovens — a seleção tem a terceira menor média de idade (25,3 anos) entre todas as 32. Mas não são quaisquer jovens: é uma turma que prima pela homogeneidade em termos de idade, mas também de talento. Entre os garotos de Wilmots estão o melhor goleiro da última temporada europeia, Courtois (21 anos), do Atlético de Madrid, e a estrela do Chelsea, Eden Hazard (23). Outros destaques: o zagueiro Kompany (28), do Manchester City; o meia Fellaini (26), do Manchester United; e o atacantes Lukaku (do Chelsea).

Prós e contras

Depois de qualquer seleção ser eleita a “surpresa” tudo pode acontecer. Inclusive nada. Basta lembrar-se do que houve com a aclamada Colômbia de 1994, que acabou eliminada logo no começo, última colocada do Grupo A. O técnico não ignora essa possibilidade. E chega a ser ríspido com a própria equipe ao analisar as possibilidades na Copa. Como na declaração durante entrevista que ele concedeu ao ex-jogador Falcão, hoje apresentador de programa no canal Fox Sports: “Eu peguei esse time há dois anos. Todos me falam que é ‘a geração de ouro’. Mas só será ouro se fizer alguma coisa. Por enquanto, não fez nada além de conseguir a classificação para a Copa após 12 anos”, minimiza, para então concluir: “O talento não significa nada, mas os títulos, sim.”

Wilmots acentua a falta de experiência como um fator que pode complicar a situação para a equipe. “Basta dizer que meu melhor Mundial foi o último.” Por outro lado, ele comemora a posição de franco-atirador: “Nós temos tudo a ganhar e nada a perder”, sintetiza. Esta é uma característica psicológica observada na seleção da Bélgica: não temem cara feia, jogam sem parecer estar sentido a pressão. Foi assim durante toda a fase das Eliminatórias e o resultado — oito vitórias, dois empates e nenhuma derrota — diz muita coisa.

Em campo, muita gente especializada prevê uma Bélgica jogando à la Holanda. Ou seja, uma seleção que sempre se caracterizou por se defender bem agora busca o ataque. A formação deixa Lukaku como homem de referência, Hazard e Fellaini avançam bem. Os laterais, Alder­weireld e Vertonghen, na verdade são zagueiros de origem, o que deixa a equipe bem resguardada, apesar de prejudicada nos avanços pelos flancos.

Todas as análises apontam esta como a mais talentosa seleção já formada na terra de Audrey Hepburn. Falta provar em campo. O jeito sereno de condução de Marc Wil­mots também vai contar positivamente, liberando os “meninos” de qualquer maior compromisso. E rapazes talentosos jogando sem responsabilidade maior podem fazer duas coisas: pôr tudo a perder ou brilhar. Como não há muito a perder para quem não tem tanto peso a carregar, a chance de sair coisa boa aumenta. Se for para apostar em uma seleção menos cotada, os belgas têm a melhor relação custo-benefício.

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