Auxiliar revela que secretária da Saúde de Iris mandou gravar paciente

Segundo o vereador Delegado Eduardo Prado (PV), a produção do áudio pode ser considerada clandestina

Carlinhos do Esporte é funcionário do Ministério da Saúde cedido à Secretaria municipal | Foto: Câmara Municipal / Wictória Jhefany

Os vereadores da Comissão Especial de Inquérito (CEI) que investiga o caos da Saúde de Goiânia interrogaram nesta segunda-feira (11/12) o assessor de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e radialista, Carlos Roberto da Rocha, conhecido como Carlinhos do Esporte.

Ele foi o responsável por intermediar a visita da secretária Fátima Mrué a casa da Dona Celina, goianiense que ficou conhecida nacionalmente após contar que teve que arrancar o próprio dente com um alicate por falta de atendimento odontológico.

Carlinhos do Esporte é funcionário do Ministério da Saúde cedido à Secretaria Municipal de Saúde, onde trabalha na assessoria de Comunicação. Ele também é radialista da Terra FM, em Goiânia.

Segundo ele, parte da visita da comitiva da SMS foi gravada a pedido da secretária Fátima Mrué. “Em certo momento da visita a secretária me pediu, na frente da Dona Celina, para que gravasse”, disse o jornalista durante oitiva. Aos vereadores, Carlinhos informou que foi feita uma gravação de áudio de cerca de oito minutos.

De acordo com o vereador Delegado Eduardo Prado (PV), porém, a gravação é clandestina e pode configurar crime.  “Apenas o ato de gravar já configura ilícito. Dona Celina pode entrar com ação por danos morais. Temos aqui um caso de gravação clandestina de uma paciente que tinha sofrido previamente um descaso por parte da Secretaria Municipal de Saúde. Isso cabe inclusive representação criminal contra o prefeito Iris Rezende [PMDB]. Isso é o cúmulo do absurdo”, disse o delegado.

Segundo o delegado, o caso pode ser enquadrado na Lei 9.296, que tipifica as circunstâncias para realização de gravações e interceptação telefônicas.

O assessor disse que o trecho da conversa que foi gravado inclui a parte em que Dona Celina teria dito que arranca os dentes há cerca de dez anos e voltou a corroborar a fala da superintendente Luciana Curado, que disse que Dona Celina “teria o hábito” de arrancar os próprios dentes.

Em depoimento à CEI na semana passada, Dona Celina se emocionou ao falar sobre seu problema odontológico, dizendo que já perdeu quase todos os dentes da boca. “Eu não sou insana, nem masoquista para arrancar meus próprios dentes. Quem faz isso? Foi um momento de desespero. Outras vezes arranquei porque já estava mole, fragmentados. Fui perdendo os dentes ao longo dos anos e já os tirava com a mão pois já não tinha jeito”, disse.

Além disso, o assessor SMS negou que tenha pedido para que Dona Celina não falasse mal da secretária. “Em momento algum disse isso ou vi alguém da comitiva dizer. O oferecimento das cestas básicas foi um ato pessoal meu, como parte do trabalho humanitário que faço pois fiquei comovido com a história da Dona Celina. Minha consciência está tranquila”, disse Carlinhos.

Apesar de ter sido um “ato pessoal”, ele contou à CEI que após o depoimento de Dona Celina na CEI da Saúde, ele não levou a doação das cestas básicas por orientação de dentro da Secretaria Municipal de Saúde. “Não cumpri porque depois desse fato me falaram para não ir lá. Depois dessa entrevista, fui orientado pela assessoria e chefia de gabinete, simplesmente me falaram para não ir”, disse o radialista.

Diante disso, o vereador Jorge Kajuru (PRP) acusou Carlinhos do Esporte de ter retaliado Dona Celina. “Então o senhor deixou seu lado humanitário para com ela por causa da entrevista? O senhor a retaliou. Isso é retaliação”, disse o parlamentar.

Carlinhos do Esporte respondeu que o pedido para que não fosse levar a doação partiu também de sua família. “Me disseram que ela disse aqui na CEI que inclusive não queria ajuda. Foi um apelo da minha família também. Por isso achei melhor não ir”, justificou.

Gravação

Diante disso, os vereadores integrantes da CEI aprovaram pedido para ter acesso à essa gravação, que deve, posteriormente, passar por perícia. Os parlamentares questionam o fato de que apenas oito minutos da visita terem sido gravados, sendo que a comitiva da SMS ficou na casa de Dona Celina por pelo menos meia hora.

Eles também querem saber se ela realmente sabia que estava sendo gravada. Foi aprovado também requerimento de convocação da secretária Fátima Mrué para novo depoimento à CEI na próxima segunda-feira (18/12).

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Sergio Lima

De duas uma, ou o vereador delegado não entende de lei, o que acho não ser o caso, ou está se utilizando desta de forma equivocada, com fim eleitoreiro. A Lei nº 9296/1996, trata de interceptação telefônica, o que é bem diferente de gravação, clandestina ou não. Uma gravação, seja ela por que meio for, será considerada clandestina, caso nenhum dos interlocutores tenham conhecimento, ou seja, esteja sendo realizada por um terceiro estranho ao diálogo, o que parece não ter sido o caso. Outro caso, seria a gravação de escuta telefônica, feita por um terceiro, mas com autorização judicial, esta… Leia mais