“Atual modelo do ensino médio mata criatividade do aluno e está fadado ao fracasso”

Ao Jornal Opção, Wisley Pereira, futuro Coordenador-Geral do Ensino Médio do MEC, adianta proposta de reforma do governo que pretende trazer a escola para o século 21

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Wisley Pereira acredita que a reforma pode ser aprovada ainda este ano, mas que o trabalho deve ser feito em conjunto com estados e municípios | Foto: Divulgação/Seduce

Prestes a assumir um dos cargos mais importantes do Ministério da Educação, o goiano Wisley Pereira deixa a Secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Goiás com um dos únicos resultados positivos do País registrados pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).  Em entrevista ao Jornal Opção neste sábado (10/9), Pereira comemorou os resultados obitdos à frente da Superintendência do Ensino Médio da Seduce, mas ressalta que mesmo os bons resultados ainda estão muito aquém daqueles que o Brasil precisa para consolidar uma educação pública de qualidade.

Goiás é um dos quatro estados da federação que conseguiu alcançar a meta para o ensino médio nas escolas estaduais em 2015. Para o superintendente, o bom resultado se deve ao trabalho sólido na área. “Levando em consideração a situação política e econômica e o esforço dispensado para alcançar o resultado, é de se comemorar. Mas, mesmo atingindo as metas, os resultados ainda são medíocres para a educação de qualidade que queremos. Em Goiás, conseguimos realizar um trabalho muito sólido, com um programa que não pensa de maneira isolada, abordando desde os anos iniciais, que também tiveram um bom desempenho.”

Em outubro, ele assume a Coordenadoria-Geral do Ensino Médio do Ministério da Educação (MEC) com a responsabilidade de liderar a aprovação de uma reforma no ensino médio, que registrou os piores índices entre os níveis da educação básica. A meta Ideb estabelecida para 2015 foi cumprida apenas nos anos iniciais do ensino fundamental, etapa que vai do 1º ao 5º ano do ensino fundamental. O ensino médio tem a situação mais crítica, com o índice estagnado desde 2011.

“Hoje nem as escolas particulares conseguem atingir as metas e isso acontece porque o modelo é ultrapassado. O modelo com 13 disciplinas obrigatórias não condiz com a realidade, é matar a criatividade do aluno, forçando todos a fazerem a mesma trajetória e fadando ao fracasso tanto professores, quanto alunos e o próprio sistema.” Para o educador, “hoje a escola está no século 18, o professor no século 19 e o aluno no século 21”.

Segundo Wisley, é fundamental o avanço no que chama de “política da totalidade”. “O Brasil precisa enxergar que a responsabilidade é de todos. Os esforços devem ser conjuntos, da União, estados e municípios, cada um em sua competência, para que as crianças e adolescentes tenham a oportunidade a uma educação de qualidade”, finaliza.

Projeto de Lei

O educador acredita que um grande passo para a solução do problema do ensino médio no Brasil está na discussão e aprovação do Projeto de Lei 6840/2013 que tramita no Congresso Nacional. De autoria do deputado Pauderney Avelino (DEM), a matéria estabelece diretrizes e bases da educação nacional para instituir a jornada em tempo integral no ensino médio, além de organizar o currículo em áreas do conhecimento.

Wisley explica que a reformulação do currículo é uma das principais aspectos da reforma. “A aderência dos alunos depende da definição de uma nova base comum para o ensino médio.” A proposta pretende aplicar uma base comum obrigatória, que inclui o estudo da língua portuguesa, matemática, conhecimento do mundo físico e natural, Filosofia, Sociologia e realidade social e política.

A partir das disciplinas obrigatórias, o aluno poderá escolher entre cinco trajetórias diferentes, com a possibilidade de ênfase nas áreas de linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas ou formação técnica/profissional.

“Mesmo com programas que facilitam o acesso ao ensino superior, como Fies, Sisu e as mudanças no próprio Enem, hoje 84% dos jovens que terminam o ensino médio não vão para o ensino superior. E o aluno que não vê possibilidade de ingressar em uma faculdade acaba, muitas vezes, desistindo do ensino médio também, porque não vê como isso vai fazer diferença no ganho salarial. É claro que escolaridade é um fator de blindagem da condição socioeconômica, mas o sistema força a exclusão”, pontua.

“Assumo esse cargo na Coordenadoria Geral do Ensino Médio com o objetivo de fazer valer essa reforma. Existe uma diferença entre apressar as coisas e colocar velocidade na discussão e tramitação de um projeto que já esta há anos no Congresso”, acrescenta Wisley.

O Ministro da Educação, Mendonça Filho, afirmou na última quinta-feira (8/9) que, caso o Congresso não consiga aprovar a reforma, solicitará junto ao presidente Michel Temer, a aprovação de uma Medida Provisória (MP) sobre o tema para que as mudanças possam ser aplicadas a partir de 2017. Para o novo coordenador nacional do ensino médio, é possível aprovar as medidas necessárias ainda este ano, desde que haja “compromisso de todos”.

“É preciso bastante lucidez para fazer o que é essencial. A escola integral, por exemplo, é uma tendência que já está posta em todo o Brasil, mas não é possível uma transformação imediata. É possível implementar as mudanças já no ano que vem, mas para isso é preciso uma sanidade de toda a população. É preciso desapegar de certos corporativismos e pensar nos alunos, olhar com carinho, principalmente para os jovens marginalizados, que desistem de fazer o ensino médio porque é difícil, porque pensam que não fará diferença em sua vida”, finaliza.

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