Até quando vence bem seu maior clássico, Galo insiste em colecionar decepções

Vitória com impressionante virada de 3 a 1 sobre o Cruzeiro na Arena Independência deveria ser único acontecimento no domingo (2/7) do atleticano. Infelizmente não foi

Tarde foi de festa com gols de Fred (2) e Cazares, mas torcida voltou a passar vergonha | Foto: Clube Atlético Mineiro

Depois de tomar um gol do rival Cruzeiro aos 5 minutos do primeiro tempo, marcado por Thiago Neves, o Atlético Mineiro demorou outros 42 para empatar em uma falta bem cobrada aos 47 minutos pelo equatoriano Cazares e fazer valer seu mando de campo na tarde deste domingo (2/7) na Arena Independência, em Belo Horizonte (MG). Dois minutos depois veio a virada, aos 49, com chute de Fred, após receber cruzamento do lateral Alex Silva. A festa dos atleticanos ficou completa com 34 minutos da etapa final, quando Fred fez seu segundo gol e o terceiro do Galo após bola levantada na área por Cazares.

O domingo do atleticano deveria ter sido marcado pela comemoração da vitória com uma bela virada sobre o Cruzeiro no clássico número 500 entre os times em tarde que poderia até ter um placar maior no Independência. Isso se o árbitro Anderson Daronco tivesse marcado pênalti quando Diogo Barbosa cortou dentro da grande área com o antebraço direito o chute de Cazares aos 28 minutos do primeiro tempo. Um lance que, pelo placar, não fez falta a partir desse momento, quando o Galo acordou e passou a dominar a partida válida pela 11ª rodada do Campeonato Brasileiro.

Mas infelizmente para todo atleticano, e eu me incluo nessa conta, o domingo foi marcado por um comportamento demonstrado inúmeras vezes pela torcida e diretoria do Atlético Mineiro: as manifestações homofóbicas contra seus adversários. Na madrugada que antecedeu o jogo, torcedores espalharam cartazes pelas vias de acesso à Rua Pitangui, no Horto, onde fica o Independência, com as cores da bandeira do orgulho LGBT e a frase “sejam bem-vindas”. O tratamento de gênero no feminino deixa bem claro que a intenção era mesmo a de tratar os homens cruzeirenses como gays de forma ofensiva, como se ser homossexual fosse motivo de chacota ou inferioridade.

Com símbolo do rival e cores da bandeira do orgulho LGBT, atleticanos mostram toda sua homofobia com frase “sejam bem-vindas” | Foto: Reprodução/WhatsApp

Não é novidade para quem frequenta estádios de futebol e já viu alguma partida do Galo. Para grande parte dos atleticanos, o rival Cruzeiro é tratado pelo apelido Maria. Até então, Maria é um dos nomes femininos mais comuns entre a população brasileira. Só que o uso da denominação Maria para tratar a torcida cruzeirense é e sempre foi para ofender como quem trata um homem como afeminado. Maria é, para o atleticano, uma alcunha gay, ou seja, homofóbica.

Fora as obviedades do texto até agora, o atleticano segue a perpetuar um comportamento lamentável e que coloca contra ele mesmo a visão de que a torcida do Atlético Mineiro é homofóbica. Para piorar, foi só o jogo acabar para saltarem em todos os vídeos e fotos no Facebook e Instagram os comentários “Eles 3 x 1 Elas” ou “Maria joga vôlei”, em referência ao time de voleibol Sada Cruzeiro, campeão brasileiro cinco vezes, sul-americano quatro vezes e mundial três vezes.

Desculpem, mas vôlei não é um esporte apenas para meninas, assim como futebol não é coisa só para você, que se acha o machão dono da bola. Aliás, tente jogar voleibol para depois continuar com a sua homofobia gratuita e vergonhosa contra qualquer homem ou mulher que pratica aquela modalidade esportiva.

Ofensas homofóbicas em cartazes foram espalhadas nas ruas de acesso ao estádio na madrugada deste domingo | Foto: Reprodução/WhatsApp

Sucessão de mancadas

O pior de toda a história é que a diretoria do Galo já deu não apenas uma mas várias demonstrações que, com seu silêncio ou justificativas absurdas, perpetua o comportamento dos torcedores homofóbicos de seu clube. Basta voltar ao primeiro semestre de 2016, quando o Atlético assinou contrato com a representante da canadense DryWorld para fornecimento de material esportivo.

Veio a apresentação dos então novos uniformes do time de futebol com um desfile no qual o modelo usava a roupa de jogo, com camiseta, bermuda, meião e chuteira, enquanto a modelo passava pela passarela com a camiseta que seria utilizada nas partidas, calcinha preta e salto alto, quando nem biquíni ou calçado a loja oficial do clube vendia. A sequência de mancadas foi mais trágica do que o esperado.

Quando questionada por torcedoras do Galo, que não são poucas em todos os jogos nas arquibancadas, a diretoria minimizou a possibilidade de aquilo ter sido uma promoção machista dos novos uniformes. O problema é que até a etiqueta interna do material trazia nas instruções de lavagem a frase “give it to your wife”, ou seja, “dê para a sua esposa”, que foi respondida pela DryWorld como um erro de impressão apenas no material utilizado no lançamento.

“Ôôô bicha”

Reforçados os estereótipos grotescos do mundo do futebol, a diretoria nunca se manifestou de forma enfática sobre os gritos de “bicha” adotados pela torcida, que jorra de alegria e risadas toda vez que o goleiro da equipe adversária cobra o tiro de meta a cada partida no Independência ou no Mineirão. Fatídico dia 23 de maio de 2013, na campanha do título inédito da Copa Libertadores da América, quando o Galo foi enfrentar o Tijuana no México pelas quartas-de-final da competição.

Foi quando a torcida atleticana resolveu ter a lamentável ideia de copiar os gritos de “puto” (bicha em espanhol) das torcidas mexicanas, que acreditam que chamar de bicha o goleiro da equipe adversária seria algo ofensivo. Nem com a determinação da Fifa de multar a seleção brasileira em duas partidas diferentes pela mesma prática, que virou febre em todo o Brasil a partir da Copa do Mundo disputada no País em 2014, os atleticanos pararam com essa idiotice.

Se você também é atleticano e leu até aqui provavelmente vai dizer “mas não é só a torcida do Galo que grita isso nos estádios” em tom de revolta. Sinto muito, mas eu não quero fazer parte de um grupo de torcedores que usa da defesa de inúmeros partidos políticos tentando justificar o envolvimento de parte de seus filiados em crimes de corrupção ao jogar a culpa no sistema e dizer que são menos criminosos do que outra legenda partidária. Se há um erro cometido por mim, eu preciso conseguir olhar para o meu umbigo e reconhecer que eu tenho de melhorar, e não jogar a culpa no outro. O crime é meu, não interessa o tamanho da ilegalidade que o outro comete, ela não exime a minha falha.

E é por isso que eu, que um dia já chamei cruzeirense de Maria, não faço mais isso. Eu preciso reconhecer o meu erro e tentar melhorar a partir das minhas deficiências e erros. Eu não justifico a homofobia do outro fazendo o mesmo, eu tento reconhecer a minha e parar de agir dessa forma. Não me interessa se as torcidas do Cruzeiro, América ou de outros estados mantêm gritos ou comportamentos homofóbicos ou racistas nas arquibancadas. Eu, como atleticano, não aceito e não posso apoiar quem vê o outro como pior ou inferior só porque não nasceu com o mesmo sexo, orientação sexual ou identidade de gênero que os meus. Preciso aprender a entender que diferenças existem, devem ser respeitadas e, mais do que aceitas, incluídas no contexto do futebol ou de qualquer outro esporte ou setor da sociedade.

O seu machismo me incomoda como atleticano. A sua homofobia me impede de me sentir empolgado com a vitória do nosso time. O silêncio e conivência da diretoria do meu clube do coração também me afeta e me irrita. O Atlético Mineiro completou 109 anos de história em 2017. Já está mais do que na hora de começar a respeitar os outros pelo o que eles são e parar de agir como homens das cavernas no século XXI. Assim como o futebol evoluiu, as práticas de quem vive dele ou o acompanha também precisam acompanhar seu tempo. Vamos comemorar a vitória do nosso time contra o rival pelo futebol ou vamos continuar a agir como machões perdidos no pensamento da idade média? Não sei você, mas eu cansei há muito tempo de me sentir apaixonado por um clube que, quando não parece ser, age como se homofobia fosse algo normal e aceitável.

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LUCAS TADEU DO NASCIMENTO COSTA

Isso e discursao de torcidas organizadas nao dos atleticanos