Até a próxima, Bonecos do Mundo

Goiânia se despede do festival realizado pelo Sesi, que foi encerrado com apresentação do grupo Kakashi-Za, do Japão, que mostrou toda técnica e habilidade com as sombras de mão

Crianças se divertiram bastante no último dia do Sesi Bonecos do Mundo | Foto: Augusto Diniz

Crianças se divertiram bastante no último dia do Sesi Bonecos do Mundo | Foto: Augusto Diniz

Ele demorou dois anos para voltar a acontecer, mas foi só voltar que já deixou muita gente encantada. E não foram só as crianças. Nos cinco dias do festival Sesi Bonecos do Mundo, que aconteceu de quarta-feira (1º/6) até a noite deste domingo (5), grupos dos Estados Unidos, Peru, Hungria, Rússia, Itália, Espanha, Japão, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, São Paulo, Distrito Federal, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Goiás fizeram adultos e crianças rirem, fazerem cara de espanto, felicidade, surpresa e lotaram o Teatro Sesi e a Praça Cívica.

Os dois últimos dias foram, para usar uma expressão mais do que clichê, a grande cereja do bolo de toda essa história. A Praça Cívica se tornou um palco, aliás, vários palcos com diferentes artes cênicas que envolvem as técnicas com os bonecos. Fantoches, marionetes, mamelungos, uso das mãos, sombras, dedos. O que não faltou foi habilidade, muita técnica e beleza nos movimentos.

O homenageado do festival, o mamulengo, ganhou um espaço mais do que disputado, com longa fila no sábado (4) e no domingo para ver de perto os vários bonecos da exposição “Mamulengo: Patrimônio Imaterial Brasileiro”, reconhecimento como parte tombada da cultura nacional que veio em 2015.

Por toda a Praça Cívica, bonecos gigantes se tornaram atração para os visitantes, que tiraram muitas fotos e selfies com bestas, robôs, peixes, cavalo de Troia e outras figuras espalhadas pelo espaço. E as companhias se revezavam em três palcos e a Praça dos Mamulengos.

Com bonecos e criaturas que andavam pelo público e arrancavam suspiros e deixavam a plateia de boca aberta, o grupo mineiro Giramundo fez a abertura, às 16h30, nos dois últimos dias do festival.

Por mais que o apresentador pedisse para que as pessoas esquecessem o celular e se concentrassem nos espetáculos, foi complicado evitar que fotos e vídeos fossem registrados durante os espetáculos dos palcos 1, 2 e 3. Por mais que a iluminação do palco e a noite ao ar livre não ajudasse na qualidade das fotografias.

“Essa coisa de ter que mostrar que você está vendo pela tela do celular, vamos prestar atenção e deixar o celular guardado”, tentou, quase que inutilmente, pedir o apresentador. Mas ele também destacou a importância e grandiosidade do evento: “É por isso que o Sesi Bonecos nunca perde o rebolado”.

Se, na era digital, o uso do celular no meio de shows, peças ou qualquer acontecimento é algo inevitável, o que interessava ali eram os espetáculos, que em nada decepcionaram. Talvez um ou outro desavisado que achou que a banda mineira Pato Fu tocaria um ou dois dos seus clássicos durante a peça Alice Live tenha ficado decepcionado.

Parte dos bonecos podiam ser comprados pelo público | Foto: Augusto Diniz

Parte dos bonecos podiam ser comprados pelo público | Foto: Augusto Diniz

Como foi

No sábado e no domingo, a bela cultura dos mestres mamulengueiros foi mais do que bem representada por Valdeck de Garanhuns, Zé de Vina (sábado), Zé Lopes, Chico Simões, Josivan & Daniel e Duda da Boneca (domingo). A união do Pernambuco com São Paulo, Distrito Federal e Rio Grande do Norte em três mini-cortinas de bonecos na Praça dos Mamulengos era parada obrigatória para quem chegava à Praça Cívica.

Em um desses espetáculos, o público gargalhava com piadas como a confusão feita pelo boneco que interpretava o pai, ao receber o pedido da esposa para “trocar o filho”: “Trocar o menino? Onde já se viu um pai trocar um filho?”.

Não teve criança que não riu da brincadeira que simulava o mijo da criança com água sendo jogado no público. E o mesmo personagem, que já tinha dito que todos ali eram os “padrinhos” da criança, disse que aquele líquido era o “batismo”.

Dos espetáculos do sábado que não se repetiram no domingo, o destaque ficou para os peruanos Hugo e Ines, que mostraram a junção de partes do corpo e pedaços de roupa na criação de seus “bonecos” no palco. Até a barriga de Ines se tornou um rosto que fez a alegria das crianças que estavam concentradas na frente do local do espetáculo e nas laterais, sentadas em frente aos telões.

Das brincadeiras da mão que desobedece o boneco quando ela é parte do corpo do boneco e da criatura que se torna independente do criador, o que se via eram sorrisos e olhos que continuavam atentos sem piscar por todo o espetáculo Pequenos Contos, apresentado pelos peruanos.

Pato Fu e Giramundo

Alice Live, a interpretação do grupo Giramundo, que tem trilha sonora do Pato Fu e a vocalista Fernanda Takai como Alice na peça, nem parece tão infantil como era esperado. Com um início um pouco macabro, mas muito interessante, essa versão de Alice no País das Maravilhas se desenrola com a banda tocando no alto do palco, bonecos encenando os quadros no tablado e uma tela na frente do palco onde projeções completam o espetáculo.

Até Alice terminar sua aventura no País das Maravilhas, muita música, uma pitada de psicodelia, alguns bonecos agradáveis e outros assustadores, algumas gargalhadas e outros choros na plateia e muito rock’n’roll nas guitarras de John Ulhoa, do Pato Fu, que compôs a trilha do espetáculo.

Dia de dizer até logo

Plateia aproveitou as exibições do espetáculo Corsários Inversos na Praça dos Mamelungos | Foto: Augusto Diniz

Plateia aproveitou as exibições do espetáculo Corsários Inversos na Praça dos Mamelungos | Foto: Augusto Diniz

Quando o Giramundo fez sua apresentação de abertura no meio da tarde de domingo, o clima era de despedida. A praça estava cheia, não igual ao dia anterior, que tinha como atração principal o grupo ao lado do Pato Fu. Mas a diversão foi garantida, principalmente quando a Pia FraUS começou o espetáculo Gigantes do Ar.

Os paulistas trouxeram para o palco todo o humor e descontração mais tradicionais das peças infantis. Diversão, piadas leves, texto interessante e girafas gigantes garantiram muitas risadas. Foi o momento com o maior número de crianças sentadas sobre os ombros de pais, mães e irmãos para conseguir enxergar o palco de perto ou de longe.

Expressões como “que deus ajude as velhas desarrumadas” arrancaram risadas da plateia. E cada trecho da peça era uma cena inusitada no meio do público. Quando a história chegou em um ponto que Pablo, o passarinho, disse que não sabia voar, uma mãe perguntou para o seu filho: “Você sabe voar?”.

A resposta mais alta do público aos estímulos dos atores era sempre das crianças, atentas a cada detalhe dos quadros. Uma garotinha tentou se esconder atrás da cabeça do pai e deu um grito de espanto quando o domador, um boneco, falou da ferocidade e agressividade do leão que ele havia domado.

“Do Ré Mi Fá Sol Lá Si Dó/Vamos fazer xixi no sofá da vovó.” Essa era uma das piadas rimadas que botavam de casais a idosos a rolarem de rir na plateia do espetáculo Gigantes do Ar.

“Olha, pai, uma girafa”, foi o que disse um garoto ao meu lado quando viu as girafas gigantes começarem a aparecer no palco. Se a peça não agradava tanto, o encantamento das crianças era um espetáculo que valia a pena e contagiava.

No mesmo lugar, outra menina disse para a mãe: “Eu gostei da história do passarinho”. Em seguida ela emendou: “O leão soltou um pum na cara dele” e não se segurou de tanto rir. “Eu também solto pum assim”, disse vestida com sua fantasia azul de princesa.

Hungria, Itália e Rússia

O palco 3, assim como aconteceu no sábado, recebeu o grupo húngaro Mikropodium, com o espetáculo Stop, o russo Viktor Antonov e o seu Circo dos Fios, além dos italianos Girovago & Rondella na peça Mão Viva, uma das mais lindas coreografias de bonecos feita com as mãos pela beleza dos movimentos e encanto da história simples e bonita.

Eles se revesaram entre as 17 horas e as 20 horas de sábado e domingo na Praça Cívica. E sempre tinha um acúmulo de pessoas bem antes de começarem as exibições.

Enquanto isso, na Praça dos Mamulengos, os gaúchos do Mosaico Cultural apresentavam o espetáculo Corsários Inversos, com uma viagem marítima cheia de piadas, diversão, plateia sentada em círculo em volta dos três atores e muitos efeitos sonoros, participação do público e mais gargalhadas. Foi inclusive a última atração do domingo na Praça dos Mamulengos.

Momentos antes do espetáculo japonês Sombras de Mão | Foto: Augusto Diniz

Momentos antes do espetáculo japonês Sombras de Mão | Foto: Augusto Diniz

Barreira do idioma

O grupo espanhol LaSal se apresentou no palco 2 da Praça Cívica no domingo. O belo espetáculo O Grande Traje, no qual uma jovem narra a sua história vivida desde pequena ao lado da família na Espanha, que construiu, ao invés de uma casa, um enorme traje (casaco, jaqueta) para viver com o gato, o cachorro e filha.

O português da atriz se misturava com palavras em espanhol, o que na maior parte do espetáculo não atrapalhou o entendimento. Mas como o espanhol costuma falar mais rápido, em alguns momentos a junção de palavras na fala complicava a compreensão do texto que a atriz dizia, o que desanimou parte do público, que aproveitou as outras atrações na Praça Cívica.

Mas o cenário, que se baseava no grande traje no centro do palco e a atriz com o seu próprio traje, era um atrativo forte para o público. Se não fossem as crianças, talvez o festival não fosse tão divertido. Bom seria de qualquer jeito pela qualidade e criatividade dos bonecos apresentados e espetáculos, mas a risada dos pequenos contagia.

E as frases inesperadas em reação às cenas também. “Ela vai cortar o pelo do cachorro”, comentou surpresa uma garota na frente da mãe quando a atriz pegou uma tesoura e tentou segurar o seu cãozinho.

Comida

É claro que criança não vai ficar o dia inteiro na rua sem comida gostosa. E toda hora passava um vendedor de pipoca, churros, fora os sanduíches e batatas, pamonha, cural e milho vendidos nas banquinhas Comida de Boneco, do festival.

Dava até para levar um boneco de lembrança, vendido na Feira dos Mamulengos. O bom é que sempre tinha um mestre mamulengueiro de algum lugar do Brasil conversando com o público sobre a criação e fabricação dos bonecos.

Show de sombras

Sabe aquela brincadeira que você fazia em casa ou com amigos de fazer sombra na parede que dessem formato a bichos ou algum objeto? O grupo japonês Kakashi-Za leva isso muito a sério. Tanto que apresentaram um espetáculo de quase uma hora de duração chamado Sombras de Mão, que encerrou o Sesi Bonecos do Mundo em Goiânia.

O quarteto no palco começou a fazer formas e animais diferentes atrás de uma tela. Aí foi a vez dos adultos se encantarem e comentarem a cada figura que aparecia da sombra das mãos dos japoneses. “Olha isso! Que incrível!”, comentou um rapaz com a namorada em pé na plateia.

Em seguida, uma mulher olhava para o marido e dizia “esse japoneses são fantásticos mesmo”. As crianças, sentadas no chão na frente do telão do palco, tentavam imitar as formas que viam no espetáculo. Foi uma sequência de palmas incansável.

O espetáculo foi encerrado com a história de um casal de pinguins que se desencontrava e o macho vivia uma viagem de aventuras para reencontrar a amada.

Agora o festival Sesi Bonecos do Mundo segue para Belo Horizonte. A espera foi de dois anos, mas o evento voltou a acontecer. Pela alegria do público e a qualidade dos espetáculos, a expectativa é de que o Sesi Bonecos do Mundo volte logo a Goiânia, local em que ele é sempre bem-vindo. Até a próxima.

Veja galeria de fotos do último dia do Sesi Bonecos do Mundo:

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