Ataques à imprensa: postura pode ser mal sinal para democracia, diz livro

Segundo cientista político, mídia jornalística é fundamental para processo democrático

Foto: Freepik

“Devemos nos preocupar quando políticos dão indicações de disposição para restringir liberdades civis de oponentes, inclusive a mídia.” Esse é um trecho de frase de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt e faz parte do livro Como as Democracias Morrem.

Dentre outras coisas, a obra alerta para ataques a imprensa e tentativa de aparelhamento (tomada de controle). “É assim que autocratas eleitos subvertem a democracia – aparelhando tribunais e outras agências neutras e usando-os como armas, comprando a mídia e o setor privado (ou intimidando-os para que se calem) e reescrevendo as regras da política para mudar o mando de campo e virar o jogo contra os oponentes”, também diz trecho do livro, best-seller do New York Times.

Mas antes de dar sequência, vale se atentar. Este texto não objetiva atacar nenhuma figura específica, apenas mostrar os riscos de ataques e aparelhamentos à mídia jornalística. Inclusive, conforme o ministro Dias Toffoli, “não existe democracia sem um Judiciário independente e autônomo, assim como não existe democracia sem uma imprensa livre”.

Análise

Marcos Marinho, professor e consultor de marketing político, mestre em comunicação e doutorando nessa área, vê a atividade de imprensa (investigação, pesquisa e noticiação) como fundamental no processo democrático. Segundo ele, esta ajuda a população a formar a sua opinião sobre os mais variados assuntos.

“Existem várias teorias que vão falar de modo positivo ou negativo, mas para mim ainda é a melhor forma de informar a população e colocar seus olhos sobre o ambiente político, que é o que mais atua sobre a democracia.” Para ele, quando o povo não participa deste ambiente político, este se torna coercitivo, agressivo e exclusivista de grupos e atores.

“Com isso, tem-se um distanciamento da ideia inicial de democracia, que é povo participando das decisões.” Também para ele, a possibilidade de uma imprensa livre é vital para a democracia, uma vez que é ela quem leva as informações das ações políticas. “O Estado não é tão transparente, então precisamos de alguém que dê essa transparência.”

Ataques

Para Marcos, atacar a imprensa de maneira a silenciá-la é uma afronta à democracia. “Fazer isso é sinal de que não se quer defender a democracia, mas impedir que a população [por meio da informação] atrapalhe uma aspiração de poder.”

Desconstruir a importância da imprensa, segundo ele, significa, ainda, criar uma blindagem para quem desfere o ataque e seus aliados. “Tenho muito medo desses políticos que atacam a imprensa de forma covarde para tentar deslegitimar o trabalho. Uma coisa é divergir de um veículo que tem uma linha editorial ‘suja’, outra coisa é generalizar toda a atividade jornalística. Quando você generaliza, não é porque você quer uma imprensa melhor, mas porque você quer uma imprensa que não te incomode.”

O analista político diz, ainda, que quem faz isso presta um desserviço à democracia e a sociedade. “Um autoritário que quer se tornar a única fonte de verdade e informação. O papel da política não é esse.”

Por fim, Marcos diz que o papel da imprensa é noticiar. Para ele, também não há problema que veículos de comunicação se posicionem em algum espectro ideológico, desde que de forma clara, “mas o dever é jogar luz”. Ele também afirma que pela quantidade de veículos de comunicação, hoje, não há condições de aparelhamento.

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ziro

Lamentável. Exemplo: VENEZUELA apoiada pelos partidos de esquerda.