“As pessoas falam que os decretos não funcionam, mas é porque não há aderência, diz biólogo da UFG sobre restrições em Goiânia

Novo decreto de isolamento entra em vigor nesta segunda, 15, com objetivo de reduzir curva de contágio e desocupar leitos de UTI

Biólogo José Alexandre Diniz Filho. | Foto: Universidade Federal de Goiás/reprodução

Mesmo tendo adotado medidas restritivas há duas semanas, e já prorrogado e endurecido o decreto por outras duas semanas a partir desta segunda-feira, 15, curva de contaminação pela Covid-19 não diminui e leitos da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e da enfermaria voltados ao tratamento da Covid-19 na rede municipal e estadual de saúde se encontram lotados.

Em Goiânia, já foram confirmados 121.535 casos da doença, que demandaram 9.456 internações, sendo 4.210 em UTIs e resultaram em 2.976 óbitos. Já em cenário estadual, essa quantia é ampliada para 433.706 contaminados e 9.572 vítimas fatais pelo novo coronavírus. Quanto a taxa de ocupação das UTIs e enfermaria da rede estadual, a porcentagem é de 97,78% e 90,52%, respectivamente. Na rede municipal goianiense, a taxa de ocupação das UTIs é de 100%.

O biólogo, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e desenvolvedor de uma ferramenta que calcula o crescimento da pandemia, José Alexandre Diniz Filho, diz não saber o quanto tempo irá demorar para que as medidas restritivas causem efeito na curva de contágio. Como grande razão, ele menciona a naturalização da crise causada pelo novo coronavírus, por parte da sociedade, e a pouca adesão ao isolamento social.

O programa desenvolvido pelo professor e pelo pós-doutorando Lucas Jardim, do departamento de Ecologia do ICB da UFG, fez o mapa de classificação regional da situação epidemiológica de Goiás, ferramenta que calcula o crescimento da pandemia.

“Quando se fala da redução da curva do vírus, existem várias coisas envolvidas. Se você olha a forma de crescimento da curva de contaminação e a quantidade de leitos de UTI, por exemplo, o número é muito alto, está duas vezes maior do que a gente teve no pico e continua crescendo. Goiás é um estado relativamente eficiente em termos de estrutura de saúde, então ainda está sendo possível abrir leitos, mas isso não é suficiente. Agora a gente está praticamente lotado, mas ficou muito tempo estagnado em 88% sendo que os números estavam crescendo, mas o estado estava conseguindo bancar a quantidade de leitos. Então essa porcentagem engana um pouco quanto a gravidade do problema. O que é preciso entender é que, quando se abre mais leitos, o poder de atendimento às pessoas que estão doentes é maior, mas o número de pessoas que estão doentes, sofrendo e que vão morrer, só vai aumentar. Temos que diminuir as transmissões, quanto mais tempo o vírus ficar circulando, maiores as chances de ele evoluir para uma forma mais problemática, só que as pessoas só percebem isso quando as UTIs lotam”, explica o professor.

Em conversa com o Jornal Opção, o professor identificou dois tipos de problemas que acometem a cidade neste momento: o que chama de ‘o problema real’, da pandemia causada por um vírus respiratório que cada vez se torna mais infeccioso – que se deve diminuir o contato entre as pessoas para reduzir a transmissão, ao mesmo tempo em que se precisa manter as pessoas em condições de trabalho, para que consigam ter sua renda e sobreviver, e o papel do governo é balancear essas duas coisas. O segundo problema é a falta de adesão das pessoas e do setor empresarial às medidas, que é justamente o que o governo precisa para conseguir buscar esse equilíbrio.

Para ele, a principal questão não é ter o fechamento ou o decreto, mas a maneira que as pessoas lidam com ele. “O problema que a gente está vendo é que o governo faz essa sinalização de fechar e tentar implementar uma coisa mais restritiva, mas as vezes às pessoas não aderem a isso e fazem com que o efeito das medidas não seja claro”, acrescenta. Como exemplo, José Alexandre mencionou as diversas aglomerações causadas por manifestações contra as medidas.

Covid-19 na capital goiana

Desde o dia 1º de março, a região metropolitana de Goiânia aderiu medidas restritivas como estratégia de combate à Covid-19. O primeiro decreto entrou em vigor na primeira segunda-feira do mês, foi estendido por mais uma semana, e nesta segunda-feira, 15, um novo decreto está em voga e define 14 dias de isolamento mais rigorosos que o das semanas anteriores.

Em coletiva de imprensa sobre o novo decreto, que ocorreu no último sábado, 13, o procurador-geral do município, Antônio Flávio de Oliveira, pediu a compreensão da população e afirmou que se as coisas não iriam se normalizar enquanto a curva de contágio e o percentual de ocupação de leitos em hospitais não reduzissem.

Apesar das novas medidas, o biólogo José Alexandre pontua que o isolamento proposto agora é ainda menor que o adotado em abril do ano passado, mesmo que as estatísticas estejam mais graves nesse momento. Desde o início da pandemia em Goiás, em abril do ano passado, foram 37 documentos emitidos pelo estado, em prol de fazer com que as medidas de combate fossem mais eficazes, conforme o entendimento do vírus com o passar do tempo.

José Alexandre, entretanto, pontua que mesmo que os decretos sejam importantes, nada vai se resolver enquanto as não houver um alinhamento entre o governo e a sociedade civil. “O decreto em si está sinalizando um problema, mas não temos a garantia de que as pessoas vão aderir a isso. As pessoas falam que os decretos não funcionam, mas não é pela questão conceitual do isolamento em si, é porque não há aderência”, conclui o biólogo.

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