Apesar de grande eleitorado, representatividade feminina na política permanece baixa

Em 2020, mulheres compuseram apenas 15% dos eleitos

A cada 10 candidaturas à Prefeitura, apenas uma é de mulher. Isso é o que diz levantamento feito com base no repositório de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A pouca participação feminina nas decisões políticas brasileiras não é novidade, quando se comparam às estatísticas de presença masculina.

Em todo o Brasil, a quantidade de mulheres entre os eleitos se mantém em margem baixa, ao compor 13,43% do total em 2016, 16,11% em 2015 e 15,80% nas eleições municipais de 2020. Em números, essa porcentagem traduz as 187 mil candidaturas femininas que disputaram contra as 370 mil masculinas nas eleições de 2020.

As eleições de 2020, que ocorreram em cenário de pandemia, e trouxeram ainda mais desafios para quem pretendia se candidatar, resultou em 7.816 vereadoras eleitas frente a 50.099 vereadores. No Executivo, essa quantia é de 636 prefeitas em contraste aos 4.827 prefeitos e de 791 vice-prefeitas contra 4.671 vice-prefeitos.

A cientista social e atual secretária executiva da Secretaria de Políticas para as Mulheres de Goiânia, Ludmila Rosa, foi candidata em 2020 e diz que o maior desafio de se tentar ingressar na política em meio a uma crise sanitária foi ter que restringir a articulação política quase totalmente ao ambiente virtual. “Foi muito difícil mobilizar voluntários e multiplicadores, mas, de certa forma, para uma candidatura de primeira viagem, como a minha, a pandemia caiu como uma âncora. O momento era de circular o nome e consolidar apoio de grupos maiores, o que não foi possível fazer naquele contexto”, contrapõe.

Ludmila ainda cita grandes dificuldades financeiras ao se candidatar durante a pandemia da Covid-19, ao considerar o baixo orçamento que geralmente é liberado pelos partidos às candidatas mulheres e a necessidade de ter que apoiar a candidatura quase toda em arrecadações virtuais – que foram autorizadas pelo TSE somente a partir de agosto. “Foi um momento em que muita gente estava passando por dificuldades financeiras, perdendo emprego e não tinha dinheiro para dar. Até os empresários estavam contingenciando muito os gastos, além de não ainda não existir um hábito de doação para campanhas políticas”, acrescenta.   

A deputada estadual por Goiás, Adriana Accorsi (PT) concorda com Ludmila, quando o assunto é a interferência do aspecto financeiro na quantidade de candidaturas femininas. “Como a política ainda está muito ligada a questão financeira, isso prejudica muito as mulheres. Afinal, quem está com o poder? Na maioria das vezes, são os homens, e eles quem tem mais recursos. Por isso temos que lutar para que a política se desvincule cada vez mais da questão financeira”, opina.

Em Goiás

Segundo o repositório de dados do TSE, em 2020, 9.110 mulheres se candidataram para Prefeitura e Vereança no estado de Goiás; número que contrasta com as 15.818 candidaturas masculinas referentes aos mesmos cargos. No mesmo ano, dos 246 municípios existentes em Goiás, apenas 33 elegeram (34) mulheres para gerir os municípios goianos – número quatro vezes maior que o registrado nas eleições municipais de 2016, de acordo com o TSE.

Em Goiânia, apesar da expectativa de que a cidade atingisse seu maior número de candidatas à prefeitura até hoje, com quatro pré-candidatas, apenas três disputaram o pleito – Delegada Adriana Accorsi (PT), Manu Jacob (PSOL) e Dra. Cristina (PL) – e perderam para o candidato do MDB, Maguito Vilela. Isso, porque o partido Rede retirou a pré-candidatura da arquiteta Maria Ester para prestar apoio ao concorrente Elias Vaz (PSB). Já Dra. Cristina só conseguiu participar dessa disputa ao entrar com um processo judicial após o PL desistir de sua candidatura apenas um dia depois de oficializá-la e realizar sua convenção.

Na Câmara Municipal de Goiânia, apesar de os rostos mudarem, não houve diferença nas estatísticas, já que a quantidade de cinco vereadoras eleitas – Aava Santiago (PSDB), Gabriela Rodart (DC), Leia Klebia (PSC), Luciula do Recanto (PSD) e Sabrina Garcês (PSD) – frente a 30 homens, se manteve.

Aava Santiago, uma das vereadoras eleitas em primeiro mandato nas eleições de 2020, explica que apesar desde muito jovem ter carregado consigo a vontade de ingressar na Política, os “olhos de descrença” das outras pessoas se fizeram presentes em todos os momentos em que seu desejo pela candidatura aflorava.  “Quando uma mulher decide disputar uma eleição, a primeira coisa que a gente escuta é que ainda não é a hora certa. Que podemos esperar mais um pouco e apoiar outros projetos até o nosso amadurecer, porque, na verdade, nunca é o tempo certo para uma mulher. Sempre tem algo mais urgente que isso”, acrescenta.

Por outro lado, apesar do desestímulo constante, Aava conta que sempre que as corridas eleitorais se aproximam, os partidos se mostram ávidos por lançar as mulheres filiadas. “Eles querem que a gente se candidate, e é por isso, inclusive, que existem tantos escândalos envolvendo candidaturas laranjas. Não porque mulheres não querem disputar, mas porque são desencorajadas dia após dia a ocupar esses espaços”, esclarece a vereadora.

Em consonância, Adriana Accorsi (PT) acredita que, se o Brasil é um lugar complicado quando se fala mulheres em espaços de liderança política, Goiás intensifica esse cenário. “Goiás tem um modelo e cultura mais machista, patriarcal e coronelista que prejudica a ocupação das mulheres nesses lugares de poder”, acrescenta.  

Pouca representatividade

Esses pequenos percentuais de quantidade de mulheres que avançam em curtos passos entram em contradição com a quantia que preenche o eleitorado brasileiro. Apesar de mulheres só participarem ativa e diretamente das decisões políticas do Brasil há 89 anos, desde 2018 elas compõem 52,50% do eleitorado, de acordo com pesquisa realizada pelo TSE. Em Goiás, esse número sobe para 53%.

A discrepância entre o número expressivo de mulheres eleitoras e a pouca quantidade que é eleita demonstra o longo caminho que ainda é preciso percorrer para que a participação feminina na política se mostre efetiva.

Apesar de crer na existência de muitos fatores que desestimulam a entrada das mulheres na política, a deputada estadual delegada Adriana Accorsi (PT) ressalta o fato de este ser um ambiente hostil e agressivo, o que pode fazer com que muitas mulheres não se sintam a vontade. “Nós fomos criadas para sermos passivas e boazinhas, e isso colabora para nos afastar da política”, complementa.

A delegada ainda diz que de modo algum acredita que esta seja uma causa perdida, e frisa o papel do estado na para contornar este quadro. “O Poder Público tem muita força para efetivar políticas públicas de igualdade, seja com cotas, seja com a punição dos que pagam salários distintos a homens e mulheres que exercem a mesma função, que punem situações de assédio, entre outras medidas”, explica Adriana.  

Estratégias de contorno

Como forma de reverter esse cenário, nas eleições de 2020, o TSE estabeleceu que as cotas de 30% para mulheres, estabelecidas pela Lei Eleitoral 9.504/1997 deveriam ser aplicadas tanto em disputas nacionais, quanto regionais e municipais. Contudo, após a eleição municipal, sete partidos – Cidadania, Avante, PTB, PSC, PL, PTC e PMB – tiveram essa cota descumprida e passaram a recorrer de uma decisão judicial.

Além das cotas, organizações suprapartidárias como o Goianas na Urna, começaram a surgir para colaborar com este mesmo objetivo. A economista e presidente do projeto, Emilia Marinho, explica que o criou ao identificar um contexto onde mulheres não sabiam por onde começar para alcançar os espaços de poder. “O Goianas fornece formação política a mulheres que nunca tiveram mandato eletivo e as auxilia, com o intuito de criar uma rede engajada de pessoas que as apoiam e de combater candidaturas laranja”, explica. Após 30 mulheres que receberam formação do Goianas saírem como candidatas, cinco foram eleitas.

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