Apesar de ataques sistemáticos, relações entre Brasil e China não devem ser afetadas

Nos últimos dias, Brasil tentou se reconciliar com a China devido a necessidade de insumos para a produção de vacinas

Apesar de Ernesto Araújo e Bolsonaro, Brasil tem relações fortes com a China| Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

Após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, o mapa geopolítico do Brasil passou por algumas mudanças devido ao alinhamento ideológico do governo com alguns países, como por exemplo os Estados Unidos, em detrimento a outros, caso da China. 

Desde o início do atual governo, em janeiro de 2019, o país asiático vem sofrendo ataques de membros do alto escalão do governo, familiares do presidente, entre outros.. Não foram poucas as vezes que Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação, Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores, Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro atacaram a China, por vezes apenas pelo alinhamento ideológico diferente. 

Momento constrangedor

A atual conjuntura Brasil e China foi analisada por Aline Regina Alves Martins, professora doutora do curso de Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Goiás. Pesquisadora do INCT-INEU. Na visão da professora, o Brasil vive o momento mais constrangedor no que diz respeito às relações com a China. “Se não é o pior momento, eu diria que é o mais constrangedor, mas do que eu conheço historicamente são as relações mais estremecidas”, pontuou a professora. 

Segundo Aline Martins, um episódio recente que mostra o constrangimento que o governo Bolsonaro está passando perante a China é a carta redigida por Ernesto Araújo devido ao impasse em relação aos insumos. Na carta, o Chanceler, após fazer incontáveis ataques à China, destacando as relações saudáveis existentes entre os dois países.

Pressão informal para a saída de Ernesto Araújo

Nos últimos dias, os sucessivos ataques ao longo de dois anos cobraram o seu preço. Em meio ao impasse para a liberação de insumos para a produção de vacinas no Brasil, foi noticiado que o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, teria pedido a demissão de Ernesto Araújo do cargo de Ministro das Relações Exteriores. Para a professora, a China não irá pedir o desligamento de Ernesto Araújo de maneira formal, entretanto, nas entrelinhas, há a pressão, não só da China, mas de um contexto maior, inclusive com a eleição de Joe Biden, nos Estados Unidos, que envolve as relações internacionais do Brasil. Outro ministro que está na berlinda devido a pressão internacional é Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente. “Eu acredito que haja sim uma pressão de uma maneira muito mais macro, que não vem só da China, mas que vem das relações internacionais, do contexto internacional, para que o ministro das Relações Exteriores e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, sejam substituídos”.

Liberação dos insumos pela China

Apesar das crises diplomáticas causadas por Ernesto Araújo, o Brasil conseguiu a liberação dos insumos para a produção da Coronavac e da vacina Oxford/AstraZeneca. Segundo a professora, grande parte dos esforços para liberação podem ser atribuídos ao Itamaraty e ao seu corpo diplomático. “O Itamaraty vem articulando com a China para além do Ernesto Araújo, o nosso corpo diplomático é muito eficiente. Nós temos que ter orgulho do nosso corpo diplomático, além de muito eficientes nós somos respeitados lá fora. Então, apesar do Ernesto Araújo, o Itamaraty tem muito respeito internacionalmente”. 

Na visão da professora e pesquisadora, os últimos dois anos de relações conturbadas entre Brasil e China não foram determinantes para o atraso na liberação de insumos. Aline  Martins atribuiu o imbróglio ao governo, que desde o início da pandemia desacreditou a população sobre a pandemia. Entretanto, a opinião mudou nas últimas semanas, com a queda da popularidade do governo e a mudança da opinião pública acerca do combate à pandemia. Outros episódios citados pela professora e pesquisadora foram os contatos feitos pela Pfizer na metade de 2020, oferecendo a compra antecipada de vacinas e a demora do Brasil para entrar no consórcio internacional para a compra de vacinas. “O Brasil está se posicionando de uma maneira mais isolada, tentando relações bilaterais em relação às vacinas e não relações multilaterais, negando a própria presença da pandemia, isso traz atrasos logísticos e de gestão”, explicou. 

Futuro da relação Brasil e China

Entretanto, apesar de todos os problemas diplomáticos envolvendo Brasil e China, a professora e pesquisadora não acredita que isso irá interferir nas relações comerciais, pois a diplomacia entre os países é forte o suficiente para suportar o governo Bolsonaro. Desse modo, os estados do Brasil não seriam afetados pelas rusgas envolvendo o Governo Federal e a China a curto prazo, porém é um pouco complicado analisar a conjuntura a longo prazo “ Por enquanto eu não vejo o prejuízo estrutural do Estado de Goiás, do Brasil em relação à China, mas esse constrangimento diplomático podem aparecer futuramente, sem dúvida”. Como exemplo, Aline citou o exemplo das relações com os Estados Unidos, que resistiu a 4 anos do governo Trump, que sistematicamente atacava a China. “Eu acredito que a China não quer ter com o Brasil uma relação de governos, mas sim de estados. O governo Bolsonaro vai passar e a relação entre os países vai continuar”, finalizou.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.