Apesar das novas regras, eleição 2020 não diminuiu fragmentação partidária

“DEM, PSD e outros partidos que transitam pelo Centrão tendem a fazer grandes bancadas em 2022”, aponta cientista político

Foto: Reprodução

Nestas eleições municipais, o País registrou um aumento de candidaturas por conta das novas regras eleitorais, que proíbe as coligações proporcionais. No entanto, espera-se que o maior impacto da mudança aconteça em 2022, com a possibilidade de diminuição do número de partidos.

A tendência apontada por alguns especialistas é que os partidos fortes e com capilaridade tenham mais condições de se manter no jogo. Para o cientista político Guilherme Carvalho, o pleito de 2020 foi marcado por surpresas e o resultado foi de mais fragmentação partidária, a exemplo da Câmara Municipal de Goiânia.

“Tivemos alguns erros de cálculos e os dirigentes partidários vão ter que estudar bastante para contornar as falhas de estratégia em 2022. Vejo que tem muita gente que não entendeu a renovação do Legislativo goianiense, por exemplo, porque fez o cálculo errado”, citou o cientista político.

Políticos com mandato na Casa acabaram optando por ingressar em siglas consolidadas e maiores, com outros candidatos também fortes, mas a distribuição do recurso acabou favorecendo as candidaturas majoritárias. Isso fez com que alguns candidatos de siglas menores mas que receberam mais investimento saíssem vitoriosos.

De acordo com o cientista, isso mostra que a divisão de recursos mais equânime pode se refletir em uma bancada maior, situação que pode inclusive se repetir em 2022 e que inspira atenção, já que uma bancada forte na Câmara dos Deputados é essencial para o acesso ao fundo partidário. “Se a distribuição não for feita de forma a garantir a manutenção da bancada, isso diminui o volume de recursos no próximo pleito”, explica.

Desde a redemocratização essa é a primeira legislação para combater a fragmentação partidária

As novas regras, de acordo com Guilherme, foram criadas para superar um problema histórico de fragmentação. “Desde a redemocratização essa é a primeira legislação para combater a fragmentação partidária. Mas vemos que o sistema político ainda esta aprendendo, e como em 2022 os recursos poderão estar ainda mais escassos a negociação balanceada dentro das grandes legendas é fundamental”, defende.

“Caso contrário, veremos um grande volume e recursos concentrados nas campanhas de presidente, governadores e senadores, mas os deputados também precisam de recursos e essas são campanhas mais caras do que a de vereador. Também destaco que, nas eleições gerais, o montante será maior tanto de dinheiro público quanto privado”, salienta o especialista.

Com uma divisão pouco equânime, partidos tradicionais do chamado Centrão fizeram mais prefeitos. “Nas majoritárias, a maioria dos eleitos vieram de partidos grandes”, diz Carvalho. No entanto, alguns nanicos conseguiram entrar nas Câmaras e caso isso repita nas próximas eleições pode acabar se tornado uma “pegadinha” para os grandes.  

“A grande cereja do bolo é conseguir fazer bancadas, principalmente os partidos mais fisiológicos, na Câmara dos Deputados, para não fragmentar os recursos e espaço com pequenas legendas”, encerra Guilherme. A eleição de 2020 mostra que ainda é cedo para cravar que as novas regras podem reduzir a quantidade de legendas no futuro, com siglas mais fortes e consolidadas.

Contraponto

A estratégia de eleger prefeitos, por sua vez, é importante para garantir cadeiras na Câmara enquanto base de sustentação para candidatos a deputado federal, em especial aqueles que já têm mandato. “Temos uma dinâmica muito interessante no Brasil que é a clara relação entre prefeitos, deputados federais e o presidente da República, que funciona assim: o prefeito precisa de recursos federais e muito deles vêm por meio de emendas impositivas e parlamentares, concedidas pelos presidentes.”

“Dentro dessa perspectiva, DEM, PSD e outros partidos que transitam pelo Centrão tendem a fazer grandes bancadas em 2022. Essa é única tendência que vejo mais clara. Então, não ter distribuído tantos recursos para vereador pode até fazer sentido se o intuito for formar bases para que os prefeitos ajudem a eleger deputados federais em 2022”, pontuo o cientista ao analisar as estratégias adotadas em 2020.  

“Fim de coligações é experiência proveitosa”, afirma Dyogo Crosara | Foto: arquivo

Para o advogado Dyogo Crosara, a primeira eleição sem as coligações proporcionais já alterou um pouco o mapa das eleições, com a desidratação de alguns partidos e outros que sequer lançaram candidatos. “Em locais como Goiânia foi até surpreendente a quantidade de partidos que fizeram vereador, mas isso não é uma prova de muita coisa ainda, não dá pra tirar conclusões com base nesse resultado”, avalia.

“Mas eu acho que é uma experiência proveitosa e, no futuro, a expectativa é essa de menos partidos compondo o quadro partidário. Esses partidos em tese teriam sim que ser mais programáticos, é necessário que a gente tenha candidaturas alinhadas com um programa partidário e não com a conveniência eleitoral.”

Em sua análise, Crosara aponta que nessas últimas eleições observou-se que candidatos, muitas vezes, se alinham ao jogo de política partidária numa espécie de jogo mais casuístico e não programático. “É necessário que a gente comece a repensar, é um caminho. Talvez não seja o único, talvez não vá resolver o problema, mas com certeza o fim das coligações vai ajudar nesse caminho”, conclui.

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