Aparecida de Goiânia teve 242% de aumento nos casos de Covid-19 após flexibilização

Flexibilização precoce decretada por prefeitos reflete em salto do número de caso da Covid no Estado

O novo coronavírus já infectou mais de 22 mil goianos espalhados por 241 municípios – Apenas 5 cidades não registram casos suspeitos. E no momento em que se observa uma explosão dos casos da Covid-19, o tema mais debatido pelos gestores municipais é justamente a flexibilização. Uma incoerência. Com uma curva crescente, é unânime os alertas dos especialistas que insistem em dizer que ainda não é o momento para a retomada. 

Uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) garante autonomia a prefeitos para determinarem medidas para o enfrentamento ao coronavírus. Foi a partir desta decisão que muitos municípios goianos deixaram de lado o que vinha sendo pregado e decretado pelo governador Ronaldo Caiado (DEM). O fechamento do comércio e a imposição do isolamento foram aos poucos caindo por terra.

O que era um alerta dos pesquisadores e especialistas em saúde pública se tornou uma realidade. Retomar as atividades comerciais, ampliando o fluxo de pessoas e reduzindo drasticamente o índice de isolamento resultou no avanço acelerado da doença.

Aparecida de Goiânia é um exemplo dos efeitos da flexibilização precoce. A cidade hoje é a terceira no ranking entre os municípios com incidência da doença (atrás de Goiânia e Rio Verde). A Prefeitura permitiu a reabertura do comércio ao publicar um decreto específico derrogando recomendações do Decreto estadual 9.653/20, que restringia atividades. A medida adotada pelo prefeito Gustavo Mendanha (MDB) liberou o funcionamento de shopping center – quando era explícita a recomendação de que existiam riscos com a retomada nesta espécie de comércio.

A cidade de Aparecida de Goiânia registrou no domingo, 28, o total de 2.400 casos da Covid. Se comparado ao dia 2 de junho, um dia antes do decreto de escalonamento que permitiu a reabertura do comércio e shoppings, quando a cidade tinha confirmado 701 casos da doença, houve um salto de 242% no número de pacientes infectados.

Na época do Decreto de escalonamento o prefeito de Aparecida de Goiânia acreditou que a medida poderia até reduzir o índice de contágio na cidade. “Desta forma vamos evitar o colapso do sistema público de Saúde e reduzir o índice de contágio da doença, além de melhor atender aos pacientes que apresentarem a forma mais grave da Covid-19”. 

No entanto, os resultados dos dias que vieram a seguir mostram exatamente o contrário. No dia 3 de junho foram somados novos 58 casos de Covid-19. E o ritmo não parou de crescer. No dia 8, por exemplo, surgiram 62 casos; dia 10, mais 83 doentes; dia 15, 110 casos; dia 18, 138 doentes.

O salto nos casos da doença chegou a um ponto que o prefeito precisou anunciar um recuo na flexibilização. Publicou uma portaria que proíbe o comércio de abrir aos domingos em qualquer região da cidade. Mas a medida ainda parece pequena diante do avanço da contaminação da doença na cidade.

Goiânia segue um caminho bem parecido com o da cidade vizinha. Em meio a curva ascendente e o nível de ocupação dos leitos disponíveis para pacientes da Covid próximo do colapso, decretou a flexibilização. Comércios, galerias, shoppings e até a movimentada região da 44 receberam a permissão para a retomada.

A secretária municipal de Saúde, Fátima Mrué, diz acreditar que a decisão de reabertura do comércio é acertada. Segundo ela a análise multidimensional das políticas públicas, levando em consideração o equilíbrio entre os benefícios de saúde pública com outros impactos sociais e econômicos, foi uma medida acertada da Prefeitura. 

Rio Verde também permitiu uma nova reabertura do comércio. No último dia 19 a Prefeitura publicou um decreto com validade de 15 dias – do dia 22 de junho a 5 de julho. Restaurantes, indústrias, academias, escolas de música e idiomas e cursos livres profissionalizantes são alguns dos exemplos de estabelecimentos que pode voltar a funcionar.  A BRF, indústria que teve um surto da doença, também pôde retomar as atividades.

Antes do decreto de relaxamento, a taxa de isolamento de Rio Verde estava acima de 50%. A flexibilização foi feita depois de a Prefeitura realizar uma testagem em massa na população e descobrir milhares de casos da doença. Até domingo, 27, a cidade registrava 4.024 casos da doença.

Outro exemplo é a cidade de Valparaíso, na região do Entorno. Desde que o Prefeitura de Valparaíso flexibilizou a abertura do comércio na cidade, os casos de Covid-19 tiveram um salto. Quando o prefeito Pábio Mossoró, assinou o decreto que permitiu o funcionamento de boa parte do comércio, incluindo shoppings, no dia 22 de abril, a cidade tinha confirmado sete pacientes infectados com coronavírus. No último domingo já eram 518 casos confirmados. Um salto de de 7300%.

“Não é o momento adequado para reabrir o comércio. Estamos na pior fase desde o início da pandemia”. O alerta vem da professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutora em Epidemiologia e Saúde Pública, Erika Silveira. Ela participou do bate papo do Sindicato dos Docentes das Universidades Federais de Goiás (Adufg-Sindicato) e apontou que o número de casos do novo coronavírus (Covid-19) está em franco crescimento em Goiânia e no interior goiano.

Segundo a professora, o cenário poderia ser outro em todo o Estado se a flexibilização não tivesse sido feita de forma precoce. “Os casos estão crescendo conforme há o relaxamento das medidas. Com a flexibilização total, ficará muito complicado porque a taxa de ocupação de UTIs do SUS já está acima de 80%”, diz.

Pressão 

A decisão do STF que joga para os municípios o poder de decisão sobre as medidas de enfrentamento a Covid não observa como os gestores municipais estão mais suscetíveis a pressão de entidades classes que lutam pela retomada do comércio.

Prefeitos sofrem uma pressão muito forte de setores econômicos que foram afetados pela crise do coronavírus. Protestos de lojistas, representantes de classe, sindicalistas entre outros, fazem parte de uma agenda diária para influenciar gestores a acatar os pedidos de retomada da economia – mesmo diante da curva da Covid-19 ainda em franco crescimento.

Além da pressão vinda das classes atingidas pelo fechamento e isolamento das pessoas, os prefeitos ainda têm pela frente as eleições. Ter um colapso social, frente ao desemprego, a queda brusca de rendimentos e arrecadação tem a sua influência na tomada de decisões dos prefeitos ao optarem pela flexibilização precoce.

Indicadores

Alguns indicadores precisam ser levados em conta pelos gestores municipais ao permitirem a reabertura, segundo o Pesquisador do Laboratório de Biologia Integrativa e Sistêmica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Marcelo Brandão. Em entrevista recente ao Nexo, ele criticou o uso dos números de ocupação dos hospitais como justificativa para a reabertura. 

“Não é mentira que os hospitais de campanha e os hospitais particulares estão livres e que a rede pública está bem utilizada. Mas é uma foto de um momento e não se pensou daqui para frente”, disse o especialista. Além da taxa de ocupação de UTI, se defende que leve-se em conta a taxa de contágio, a taxa de isolamento e até o uso transporte coletivo.

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