Ao citar Delegado Waldir, Fernanda Torres compara goiano a “velho coronel patriarcal”

Em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo desta sexta-feira (29/4), a atriz e escritora carioca lembra experiência em sauna de hotel de Goiânia e analisa voto dos deputados

Em coluna na Folha, Fernanda Torres se disse assustada ao perceber que a figura do machão e do conservadorismo está presente no Congresso e de forma intensa | Fotos: Reprodução/TV Câmara e Fernando Frazão/Agência Brasil

Em coluna na Folha, Fernanda Torres se disse assustada ao perceber que a figura do machão e do conservadorismo está presente no Congresso e de forma intensa | Fotos: Reprodução/TV Câmara e Fernando Frazão/Agência Brasil

“A votação do impeachment na Câmara provou que eu estava enganada, o goiano ainda é regra.” A conclusão foi feita pela atriz e escritora Fernanda Torres, que, em sua visão, entendeu que o voto de parlamentares como o Delegado Waldir Soares (PR-GO) na análise do processo de impeachment na Câmara dos Deputados no dia 17 de abril demonstraram que o “velho coronel patriarcal” está mais do que vivo no Brasil.

A opinião de Fernanda Torres é parte de sua coluna semanal, publicada nesta sexta-feira (29/4) no jornal Folha de S.Paulo, e que ganhou o título Romanos. A atriz começa seu texto com a lembrança de quando veio a Goiânia com a peça A Casa Dos Budas Ditosos, adaptada do livro de João Ubaldo Ribeiro, e resolveu usar a sauna do hotel.

“Há anos, numa turnê com ‘A Casa Dos Budas Ditosos’, desci para tomar uma sauna no hotel de Goiânia. Cinco senhores envoltos em toalhas brancas dividiam o cubículo escaldante. Na parede, uma placa avisava que era proibido bater o Prestobarba na madeira. O ambiente era para macho. Fingindo normalidade, me sentei entre os romanos.”

Ela conta a conversa que teve com um deles, que apresentava seu medo pela possibilidade do filho ser gay. “Soturno, ‘Heráclito’ (antes, o texto diz que o homem lembrava o deputado federal Heráclito Fortes, do PSB do Piauí) confessou que passou 18 anos atormentado com a possibilidade de o filho ser “bicha” –palavras dele –e só relaxou no dia em que o guri arrumou uma namorada fixa.”

E continua: “Intrigada, perguntei se existia algum caso na família que justificasse tão longo sofrimento. De olhos baixos, ele acenou com um sim. “No seu lado dos parentes, ou no de sua mulher?”, arrisquei indagar. “No meu”, sentenciou consternado. E nada mais foi dito”.

A lembrança da experiência na sauna do hotel em Goiânia, para Fernanda Torres, era o marco de um passado que não fazia mais parte de uma sociedade, a brasileira, que teria evoluído e por isso “sentia pena daquele exemplar em extinção do velho coronel patriarcal”.

Mas, ao ver o voto dos deputados federais na sessão plenária de 17 de abril, em Brasília, Fernanda disse na coluna que se assustou: “A votação do impeachment na Câmara provou que eu estava enganada, o goiano ainda é regra. A constatação gerou-me um misto de horror e alívio”.

Parte do espanto de Fernanda Torres, segundo ela, se deu, principalmente, pela forma como alguns dos parlamentares apresentaram seus votos. Entre eles, o Delegado Waldir Soares, “deputado pela mesma Goiânia, que votou simulando uma arma apontada na mão”. Vale lembrar que, apesar de representar Goiás, Waldir é paranaense.

E manteve as críticas aos votos, considerados conservadores, de parte dos deputados que disseram sim à abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff (PT), que ela também critica na coluna.

“Veio à tona o que sempre esteve ali: a homofobia, a misoginia, a bancada da bala e da família quadrangular; o reino do meu companheiro de vapores goiano. Cabe aos sobreviventes reorganizar as trincheiras e escolher melhor os aliados.”

Fernanda Torres ainda compara a postura do presidente da Câmara, o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ao francês Joseph Fouché, conhecido pelo título de Duque de Otranto (1759-1820), que é tratado como um político marcado, nos períodos da Revolução Francesa e de Napoleão Bonaparte à frente do país, como símbolo de político oportunista, pérfido, inescrupuloso e vil, como retrata Alberto Dines no jornal El País.

“Cansado da coadjuvação, o velho clero chutou para corner o verniz social modernizante da USP, da Unicamp e do ABC. Via-se, no sorriso de Fouché do arquivilão Cunha, o prazer de ensinar como se faz política na ex-colônia extrativista. Agora é às claras.”

Ao pedir como esperança no meio do que ela considera como estar “entre os romanos”, a colunista da Folha declara “Está aberta a temporada de cuspe no Planalto Central” ao final de seu texto.

Nem PT e PSDB foram poupados: “Chocante é perceber que os dois partidos progressistas, PT e PSDB, tal qual Caim e Abel, preferiram cultivar o ódio mútuo, firmando acordos escusos com o que havia de mais retrógrado no Congresso, a se aliar, ou mesmo dialogar em prol do país”.

Antes de dizer que a temporada de cuspes está aberta em Brasília, Fernanda Torres manda chamar o Cristovam Buarque, senador, agora no PPS do Distrito Federal, marcado por ser um defensor da educação como solução para o Brasil.

Leia a coluna completa de Fernanda Torres publicada nesta sexta na Folha:

Romanos

Há anos, numa turnê com “A Casa Dos Budas Ditosos”, desci para tomar uma sauna no hotel de Goiânia.

Cinco senhores envoltos em toalhas brancas dividiam o cubículo escaldante. Na parede, uma placa avisava que era proibido bater o Prestobarba na madeira. O ambiente era para macho.

Fingindo normalidade, me sentei entre os romanos.

Afetados com a minha presença, os convivas abandonaram o barco mal brotado o suor e eu sobrei sozinha, com um patrício graúdo que lembrava muito o deputado federal Heráclito Fortes.

Vencido o constrangimento, acabamos íntimos.

Soturno, “Heráclito” confessou que passou 18 anos atormentado com a possibilidade de o filho ser “bicha” –palavras dele –e só relaxou no dia em que o guri arrumou uma namorada fixa.

Intrigada, perguntei se existia algum caso na família que justificasse tão longo sofrimento. De olhos baixos, ele acenou com um sim. “No seu lado dos parentes, ou no de sua mulher?”, arrisquei indagar. “No meu”, sentenciou consternado. E nada mais foi dito.

Certa dos recentes avanços morais e cívicos da nação, sacramentados pela aceitação inconteste da baiana libertina de João Ubaldo entre as plateias mais díspares, senti pena daquele exemplar em extinção do velho coronel patriarcal.

A votação do impeachment na Câmara provou que eu estava enganada, o goiano ainda é regra. A constatação gerou-me um misto de horror e alívio.

Passei os últimos dez anos culpada por fazer parte da elite espúria. Hoje, sei que sou minoria. Do circo dominical, ressalto as vozes de Alessandro Molon, Chico Alencar e Jean Wyllys, embora preferisse a sua abstenção no voto.

Fora o delírio do pré-sal, que alavancou o ganância do Petrolão, a campanha eleitoral de 2014 se valeu de artimanhas arcaicas, vindas de um partido que jurou dar cabo desse modelo.

Jamais esqueci da promessa do Bolsa Mobília, feita no rádio pela então candidata, de distribuir cama, mesa e sofá em troca de votos. Houve maquiagem no rombo das contas públicas e gastou-se os tubos em computação para fazer o feijão sumir do prato.

Que diferença existe entre isso e a troca do voto por um saco de açúcar, praticada nos eternos currais eleitorais?

Se o Heráclito da sauna fosse político e se valesse de tais artifícios, eu não me espantaria; ou o deputado Givaldo Carimbão, de Alagoas; ou o Delegado Waldir, deputado pela mesma Goiânia, que votou simulando uma arma apontada na mão.

Chocante é perceber que os dois partidos progressistas, PT e PSDB, tal qual Caim e Abel, preferiram cultivar o ódio mútuo, firmando acordos escusos com o que havia de mais retrógrado no Congresso, a se aliar, ou mesmo dialogar em prol do país.

Cansado da coadjuvação, o velho clero chutou para corner o verniz social modernizante da USP, da Unicamp e do ABC.

Via-se, no sorriso de Fouché do arquivilão Cunha, o prazer de ensinar como se faz política na ex-colônia extrativista.

Agora é às claras.

Veio à tona o que sempre esteve ali: a homofobia, a misoginia, a bancada da bala e da família quadrangular; o reino do meu companheiro de vapores goiano. Cabe aos sobreviventes reorganizar as trincheiras e escolher melhor os aliados.

Chama o Cristovam Buarque.

Está aberta a temporada de cuspe no Planalto Central.

Fernanda Torres

A figura tida como assustadora pela atriz e escritora em sua coluna, que citou o deputado Delegado Waldir e seu voto “simulando uma arma”, veio acompanhado do seguinte discurso: “Pátria amada, pátria amada, seu filho Delegado Waldir não foge à luta. Por ti, Goiânia querida. Por ti, Goiás. Pelo meu País. Por Deus, por minha família, pelas famílias, pelas pessoas de bem. Meu voto é sim. Fora Dilma. Fora Lula. Fora PT”.

De acordo com o parlamentar que representa Goiás na Câmara, mas que nasceu em Jacarezinho, no Paraná, em jantar oferecido pelo Fórum Empresarial e o Fórum da Habitação de Goiás, a atitude interpretada por alguns como forte e até violenta é a demonstração da firmeza “de quem não foge à luta” em resposta ao “vai ter luta, não vai ter golpe dito pelo PT”.

“Pois eu disse para eles ‘um filho teu, Delegado Waldir, não foge à luta’. Nós estamos usando o processo democrático previsto na Constituição. Mas se for necessário luta, o filho Delegado Waldir, cada um de vocês, eu tenho certeza que não vai fugir à luta. Eu quis avisar o PT que vai ser da forma que eles querem, mas que nós vamos tirar eles de lá.”

Lembre como o deputado federal Delegado Waldir Soares anunciou o seu voto:

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Vera

Esse povo escreve sobre Goiânia como se ela fosse uma cidade no meio do nada. Puro escárnio. Esse episódio em q a moça cita a sauna em um “hotel” de Goiânia, me fez lembrar do Jô Soares, em um de seus programa citando o Teatro Goiânia, como cinema que se transformava em teatro, como se Goiânia fosse uma cidade perdida em um conto do Alan Poe. Povo chato e pretensioso.

Marisa Pacheco

Fernanda Torres só errou ao chamar o senador Cristóvam para salvar o Brasil. Trabalhei com ele como coordenadora do programa Bolsa -Escola. Trata-se de um vaidoso, arrogante que não tem capacidade de ouvir opiniões divergentes e não foi um competente administrador. Não está preparado para governar este país tão complexo. O seu discurso sobre educação não será suficiente para elegê-lo. Queremos educação com qualidade mas, existem outras necessidades do povo que ele jamais aborda no senado. Neste momento, de grande risco para a nossa incipiente democracia, ele se junta ao que há de pior na política para, ignorando a constituição,… Leia mais

si

Fala muito e nao fala nada. Esquerda é assim. Muita teoria, pouca realidade.

Walter Monteiro

E qual a realidade que a direita apresenta, a volta da senzala