Américo Poteiro: “Não deixo de ser discípulo do meu pai. Mas o meu mundo é um e o dele era outro”

As comparações com o pai, Antônio Poteiro, são inevitáveis. Entretanto, o mineiro — goiano de coração — frisa a necessidade da busca pela identidade própria

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Antônio pedala cerca de 15 km por dia, do instituto ao ateliê, o que o ajuda a observar o mundo que irá retratar nas telas | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

A simplicidade que recebe os visitantes na chácara de 26 mil m² nem parece que já percorreu no mínimo 15 países. O mineirinho que adotou Goiânia como moradia deixa de lado o carro e vai de bicicleta do Instituto de seu pai, Antônio Poteiro, no Jardim América, até o setor Buriti Sereno, em Aparecida de Goiânia. O muro que cerca a propriedade usada como ateliê é repleta de esculturas de argila que embelezam a região, feitas por Américo Poteiro.

A comparação com Antônio é inevitável. Aquele de quem leva o sobrenome artístico e biológico, conhecido pela produção de pinturas primitivas ou Naif, faleceu em 2010. E dois anos depois Américo, que antes produzia apenas com cerâmica e argila, se aventurou pelas pinturas em tela.

E é difícil se desvincilhar da imagem do pai. A tentativa é constante e declarada, com a busca pelo reconhecimento próprio por cima do brilho do “véi” — como Américo chama Antônio. “O artista tem que ter identidade própria. Não adianta eu fazer cópia do ‘véi'”. Poteiro garante que, com o que conseguiu construir até o momento, sua imagem já foi em parte desprendida da do pai. Mas não adianta: “Vou ser discípulo do Poteiro sempre. Sou filho, convivi junto”, diz.

Aos olhos desacostumados, a similaridade é clara. Mas Américo garante que a diferença é grande: da temática aos formatos. Segundo o artista, Antônio gostava mais de fazer trabalhos regionais, enquanto ele prefere não se prender a uma localidade. “E o formato das árvores e outras figuras da ecologia que ele fazia são completamente diferentes das que eu faço. O meu mundo é um e o dele era outro.”

O aprendizado na área da pintura foi fruto de diversas viagens a trabalho, quando observava outros artistas trabalhando e visitava diversas galerias de arte. O estímulo: o pai. Era ele quem dizia que Américo era pintor e dizia que o filho deveria se dedicar a área. Com as viagens, o senhor simples, aos 61 anos, aprendeu a misturar tintas e a fazer mais de 120 cores. Foi então que voltou à sua terra adotiva.

As pedaladas do artista e atleta — já até jogou no time juvenil do clube Goiás, mas sempre torceu para o Vila Nova — o ajudam a observar o mundo, as flores, as pessoas. O ajudam a criar, e a descansar a cabeça quando a fonte seca. “A criação vai acabando. Tem hora que eu não tenho mais ideia”, diz Poteiro, que já ficou dois anos sem produzir nada, buscando mais inspiração. Mas, depois, produziu em seis meses tudo o que deixou de fazer nos dois anos. “O processo de conceber e produzir a arte é demorado. Não adianta forçar, porque você acaba se ’embananando’.”

Mesmo focado nas pinturas, não existe uma preferência específica por um tipo de material para produção. Um dia é tinta e tela, outro é argila. As esculturas, entretanto, demandam mais tempo e esforço. São de cinco a oito dias para queimar as obras nos imensos fornos no quintal e sete meses para secar.

O quintal ao qual se fala faz parte da propriedade comprada há 25 anos da família Coimbra Bueno, do ex-governador de Goiás Jerônimo Coimbra Bueno. Repleta de árvores, o local possui três nascentes, segundo Poteiro. Viúvo há cinco anos, Américo tem uma filha psicóloga e um filho economista, que cuida do instituto. Nenhum deles seguiu os passos do avó ou do pai, que largou a faculdade no terceiro ano de administração. O amor pela arte passou mesmo de Poteiro para Poteiro.

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“Tem hora que a fonte seca, que eu fico sem inspiração.” | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

As comparações com o seu pai são inevitáveis. O sr. vê isso como um problema?

Não, não. Acho que tem que ter identidade. Não adianta querer fazer cópia dele. Se ele fazia ciranda, vou e faço ciranda. Se ele fazia cavalhada, vou e faço também. Não, eu tenho que ter o meu mundo. Sempre me preocupei com isso quando comecei a fazer escultura. Sempre me preocupei em fugir do que meu pai fazia. Os Vitalinos, no Nordeste, fazem o que o pai dele [mestre Vitalino] fazia e vendem baratinho. Se eles tivessem criado, estavam vendendo por R$ 300, R$ 400 peça pequena. A pessoa tem que se preocupar em criar.

Mas as produções do senhor tem como base a arte do seu pai, não é?

Queira ou não queira, não deixa de ter influência. As cores têm muito das cores dele, mas a temática, as criações, são totalmente diferentes. Então, o meu mundo é um e o dele era outro. A época dele era uma, mais antiga, a minha já é mais nova. Eu pego o cotidiano, o dia a dia, observo o povo, a natureza, então isso, com o tempo eu vejo essa modificação, e são poucos artistas que observam isso.

Eu observo muito a modificação do tempo, das pessoas, da vivência, das palavras. Se você pegar o Brasil, ele é rico em cultura. Tanto na parte do folclore quanto na parte artística, nas palavras. Cada um com um sotaque. É através disso que você percebe as pessoas, e vai criando.

Por exemplo, eu venho do Jardim América para cá todos os dias de bicicleta trabalhar. São 15 km, e isso há 10 anos. Faço pedalada com amigos também. Cada dia eu passo em uma rua diferente e vou observando as coisas. Vejo uma casa diferente, uma flor, uma árvore que estava com outra cor. O sol bate de um jeito específico… Então, o artista tem que ser um grande observador. Nisso dá para aproveitar muita coisa. E não é qualquer pessoa que observa isso.

A idade também vai chegando e a gente tem que começar a fazer alguma atividade física, senão vai mais cedo [risos].

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Observação interessante de um colecionador: a maioria dos personagens de Américo Poteiro possuem os olhos verdes. Por quê? “Não tenho a mínima ideia” / Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

E Portugal? O senhor vai lá com alguma frequência?

É, mesmo meu pai sendo de lá, e mesmo tendo família lá, tem mais ou menos uns 10 anos que não vou a Portugal. A gente sempre viveu no Brasil, então não trocamos esse país por nada. Nosso país é aqui. Meu pai gostava muito do Brasil.

O sr. se incomoda ao ser comparado com o Antônio?

Uai, não deixo de ser um discípulo dele. Não deixo. A gente tem que concordar, porque é uma grande honra falar que sou discípulo dele, que tenho influência dele. Mas se você for analisar, ver o meu trabalho e o dele, não tem nada a ver. Se você for olhar profundamente, é totalmente diferente. A própria temática é outra.

Meu pai fazia muito trabalho regional. Meu trabalho não é tão regional. E quando ele fazia ecologia, as árvores, por exemplo, têm um formato totalmente diferente das minhas. Você vai vendo que é totalmente diferente.

O sr. recebe muitas pessoas por aqui?

Olha, a intenção principal, na verdade, é fazer deste lugar um ponto turístico. Os quadros podem continuar aqui para venda, mas quero deixar também para exposição, para as pessoas virem aqui, observar. No ano passado estiveram aqui mais de 1.500 alunos, porque fazemos esse trabalho com alunos de escola pública. Não é um projeto específico, mas sempre que diretores ligam aqui e pedem para visitar com estudantes, abrimos para visita, sem problema. Geralmente são escolas públicas.

O sr. dá aula?

Eu não dou aula, porque não tenho tempo, e isso acaba tirando a criatividade. Fica bitolado em uma coisa só e não trabalho. Sempre trago jovens, coloco eles para ficar trabalhando aqui. Mas não sobra tempo para me dedicar a um projeto específico para isso. Quem quiser vir, recebemos com carinho.

Acha que o trabalho do sr. é bem aceito?

Olha, eu comecei com a pintura há três anos, e a escultura tem mais ou menos uns 30 anos. Eu tenho aqui mais ou menos umas 300 esculturas, e cada peça é diferente da outra. São obras caras, porque são únicas e duradouras. Eu me preocupo em vender, porque tem que vender para sobreviver. Mas eu estou sempre fazendo o meu trabalho, do jeito que eu quero.

Eu não faço, por exemplo, trabalho por encomenda. Porque senão passo para uma parte muito industrial. E eu não quero isso. Quero que aceitem meu trabalho do jeito que é, senão começo a fazer besteira.

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Obras do artista mineiro têm característica marcante de pés e mãos grandes. Questionado, Poteiro afirma: “Não sei. O pé de ninguém é igual ao do outro” | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Qual é a formação do sr.?

A minha família sempre mexeu com arte. Vieram de Portugal para cá, mas eu nunca quis entrar nesse ramo. Meu pai sempre teve uma fábrica de pote, mexia com cerâmica, e eu nunca quis. Estudei até o terceiro ano do curso de Administração de Empresas, aí meu pai me chamou para trabalhar com ele. Através das ajudas, eu comecei a fazer minhas esculturas. Isso foi em 1975. Eu nunca voltei a estudar, nem fiz uma faculdade de Arte.

Eu parei de estudar para viajar com meu pai. Eu cuidava dos trabalhos dele, das exposições, preparava as telas. O ‘véi’ ficava por conta de produzir. Eu não produzia porque não tinha tempo, e me preocupava mais com o trabalho dele.

Acha que isso atrapalhou as suas produções?

Não, tudo tem a hora certa na vida. Se correr demais, acaba não chegando onde quer. As coisas tem que acontecer no tempo certo. Por exemplo, eu sempre mexi com escultura. Já meu pai, com pintura e escultura. Antes do ‘véi’ falecer, ele falava que eu era pintor, mas eu nunca quis pintar enquanto ele estava vivo. Aí depois que ele foi embora, passou um ano, dois anos, e  eu comecei a pintar. Essa pintura minha aí é de três anos pra cá.

Com qual material prefere trabalhar?

Depende do momento. Tem hora que eu prefiro trabalhar com escultura, outras com pintura. Tem hora que a gente cansa de determinadas coisas, e a criação vai acabando. Vai criando muito, e acaba que não tem mais ideia. Em alguns momentos me dá um vazio… Já fiquei dois anos e meio sem trabalhar, sem fazer nada. Aí comecei a trabalhar e dentro de seis meses eu fiz tudo que eu não fiz em dois anos e meio. O processo de conceber e produzir a arte é demorado. Não adianta forçar, porque você acaba ficando frustrado e se ’embananando’.

O que mais marca o sr. e as suas produções?

Eu acho que a influência do meu pai e a vivência que tive com as minhas viagens; o contato com o mundo, os grandes artistas que conheci. Então, a gente aprende muita coisa. A própria natureza, as pessoas, o cotidiano.

O povão ensina muito a gente. As pessoas acham que o povão não tem sensibilidade artística, mas tem sim. É só ver como base as esculturas que coloquei no muro lá fora. Isso tem cinco anos e nunca estragou uma peça. O povo dá valor. Essas pessoas podem ser futuramente colecionadores de arte. Elas têm sensibilidade igual a elite, e talvez mais, porque a sensibilidade do artista e do colecionador vem um pouco por meio do sofrimento, que ensina a ter conhecimento e noções da vida. Ensina muito a viver.

Existe algum artista da atualidade que o sr. tenha uma grande admiração?

Queira ou não queira, Siron Franco é um grande artista. Não tenho convivência com ele, mas é muito criativo. [A chácara de Poteiro é ao lado da de Siron].

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