Altair Sales narra bastidores da publicação de “Na Terra dos Mãe-da-Lua”, obra que une ciência, literatura e preservação do Cerrado
28 novembro 2025 às 18h56

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*Colaboração de Amanda Costa
Doutor em Antropologia/Arqueologia, Altair Sales Barbosa detalhou os bastidores da publicação de “Na Terra dos Mãe-da-Lua e o Diário de Zuza Santa Cruz”, obra que combina achados científicos no Cerrado, registros de campo e narrativa literária. O livro, organizado pela professora Tatiana Carilly Oliveira Andrade, resgata as anotações de Zuza Santa Cruz — um observador autodidata que documentou paisagens, fauna, flora e seres míticos conhecidos como Mãe-da-Lua.

O processo editorial, segundo Altair, foi marcado por coincidências decisivas, pela parceria com a pesquisadora Graça Fleury e pela contribuição do artista plástico Elder Rocha, que criou as pranchas que definiram a identidade visual da obra.

Altair explica que a viabilização do livro começou quando Graça Fleury assumiu a leitura dos originais, já que o autor não conseguia mais trabalhar diretamente no computador.
“Graça me ajudou demais”, relembra. “Ela falou: ‘Me manda os originais’. Mandei, ela leu, e então conversamos sobre as pranchas que o Elder estava fazendo.”
O encontro com o artista ocorreu durante um curso de doutorado promovido pela Unevangélica e pela UEG, em Goiás. Numa noite informal, Altair apresentou seu manuscrito, e Elder mostrou as sete pranchas que havia preparado.
Segundo o artista, tratava-se de uma espécie de “código para abrir o sétimo céu de Alá” — metáfora que, no clima descontraído da visita, representou a interpretação simbólica e profunda que ele atribuía à narrativa.
“Quando cheguei em casa e abri aquelas pranchas, tive uma surpresa imensa. Elder tinha realmente entendido o livro. Ele disse que a obra ‘abria portas’ e mostrava outra realidade. Fiquei com isso na cabeça”, contou Altair.
Mesmo assim, o autor ainda hesitava em publicar.
A validação acadêmica que impulsionou a obra
A definição veio após a assinatura de um convênio com a UniAraguaia. Em uma das atividades, Altair conheceu uma professora cuja leitura cuidadosa lhe deu o impulso final.
“Ela leu um texto pequeno, fez um comentário escrito e disse: ‘Vamos publicar isso. É uma raridade’. A visão dela coincidiu com a do Elder, e isso me encorajou a seguir em frente”, relata o arqueólogo.
Esse alinhamento entre arte, ciência e leitura especializada reforçou a convicção de Altair de que o livro cumpria uma função educativa e sensível.
Graça Fleury: “Elder vive o Cerrado”
Graça Fleury, responsável por acompanhar o diálogo entre texto e imagens, afirma que as ilustrações foram essenciais para aproximar o livro do público não acadêmico.
“As ilustrações democratizam a informação e enriquecem a ciência”, explica. Ela destaca a predisposição de Elder para captar o bioma como experiência sensorial.
“Elder transmite o Cerrado. Ele é o Cerrado. Nas pinturas acrílicas, parece que você está dentro da tela”, afirma. Ela lembra ainda a relação histórica da família do artista com a paisagem: “Meu pai e meu avô fotografavam a serra em 1908, com máquinas enormes. Sempre tive amor por aquela serra. A união disso com o amor dele ao Cerrado criou esse diálogo com Altair.”
A percepção de Elder — para quem “Deus está na natureza” — aproximou ainda mais arte e ciência, tornando as pranchas parte indispensável da narrativa.
Tatiana Carilly Oliveira Andrade: “Um tesouro para a humanidade”
Organizadora da edição, Tatiana Carilly Oliveira Andrade destaca o caráter científico e ao mesmo tempo literário da obra, que classifica como fundamental para ampliar o acesso a conhecimentos sobre o Cerrado.
“O livro é um tesouro para a humanidade”, afirma. “Altair entrega não apenas seu domínio profundo sobre o Cerrado — que por si só já é um presente intelectual — mas também literatura. Ele faz isso de maneira singular. Quem lê esta obra não sai o mesmo.”
Tatiana ressalta o caráter híbrido da narrativa, que une ficção, ciência, mitologia e cultura.
“É um convite para conhecer o Cerrado por meio de uma literatura que, mesmo sendo ficcional, carrega muita ciência. É imperdível e escrita por uma alma que é um presente para a humanidade”, conclui.
Leia também: A poesia oculta do Cerrado: “Na Terra dos Mãe-da-Lua” e o legado do prof. Altair Sales Barbosa
