Além dos livros jurídicos: os presidentes brasileiros e seus poemas

Além de Temer, FHC, José Sarney, Jânio Quadros e até Getúlio Vargas colaboraram para a literatura brasileira

Vinicius Mendes
Especial para o Jornal Opção

Em janeiro de 2013, três anos após se tornar vice-presidente de Dilma Rousseff (PT), Michel Temer passou quase despercebido em um evento organizado numa das maiores livrarias de São Paulo para lançar “Anônima Identidade”, um pequeno conjunto de 120 poemas escritos em guardanapos que uma editora carioca decidiu publicar. Até então reconhecido pelos livros jurídicos que havia escrito, ele contou à época que a obra foi toda produzida durante os voos entre a capital paulista e Brasília. “Deixava a arena árida da política legislativa e me entregava a pensamentos”, disse.

No livro, o então vice-presidente escreve sobre a existência (“Que compulsão é esta?/ O que buscas?/ Será a incapacidade de fazer coisas úteis?/ Mais objetivas?”), sobre mulheres (“A quem minha memória deve armazenar? A loira, falsa/ ou a mulata, verdadeira?”), sobre relacionamentos amorosos (“Embarquei na tua nau/ sem rumo/ eu e tu”) e sobre a sua infância (“Bom mesmo era o correio elegante/ nas quermesses do interior/ O garçom levava a sua mensagem para alguém/ ou trazia/ sempre anônimas/ palavras de amor”).

O livro ficou esquecido nos anos seguintes ao lançamento e saiu do catálogo da editora, mas foi revivido no ano passado, durante a ascensão de Temer ao cargo máximo do Executivo com o impeachment de Dilma. Segundo o crítico gaúcho Carlos André Moreira, os poemas são repletos de lugares-comuns e “velhos”, apesar de transparecer que o presidente leu bastante antes de escrevê-los, a ponto de “reconhecer a fragilidade dos seus próprios versos”.

Temer, apesar das críticas aos seus poemas, não foi o primeiro presidente brasileiro a se dedicar a escrevê-los. Na história do país, outros chefes de Estado se arriscaram na literatura durante seus mandatos ou nos períodos que os antecederam.

Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), por exemplo, publicou alguns versos em um número da Revista de Novíssimos, que também trazia versos dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e de Décio Pignatari. O poema Transbordamento apresenta a lamúria de um jovem de 18 anos que se sente incompreendido pelo mundo. (“Ai que ninguém pode me compreender/ as mensagens são brumas hibernais/ flutuando em corações gelados/ e mesmo assim/ eu sinto a grandeza/ de cantar as gerações esmagadas”).

Em setembro de 2013, vale lembrar, Fernando Henrique tomou posse de uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras por suas obras sobre sociologia, política e relações internacionais, e em substituição ao jornalista João de Scantimburgo, morto em março daquele ano.

José Sarney (1985-1990) é, talvez, o presidente brasileiro mais conhecido como poeta: escreveu coletâneas de poemas, como Ensaio sobre a Pesca de Curral e A Canção Inicial (1953), e Os Maribondos de Fogo (1978); de contos, como Norte das Águas (1969); e um romance, O Dono do Mar (1995). Em 2013, ele contou a um documentário sobre sua vida que acreditou durante boa parte da adolescência que se tornaria escritor. “O que eu gostava mesmo era de literatura, não de política. Achei que seria o meu destino, mas foi apenas vocação. Política se tornou meu destino”, disse.

Em Meditação sobre o Bacanga, do livro A Canção Inicial, Sarney fala sobre Narciso, personagem conhecido da mitologia grega: “As águas passam/ É lua e as casas aparecem/ Sou eu/ Narciso que se olha e fenece”. Em outro, Carta do Anti-Santo José, ele também se coloca como personagem do poema: “Eu/ de nome José/ rasguei os olhos da vida/ em cinza manhã de abril”.

Ao contrário de Temer, Sarney sempre foi elogiado pela crítica por suas obras e, não à toa, foi eleito para ocupar uma das cadeiras da Academia Maranhense de Letras em 1980 por seus livros.

Jânio Quadros (1961), apesar de ter governado o país por pouco tempo, foi um dos políticos mais importantes de sua época. Seus poemas do período em que estudava Direito no Largo de São Francisco, em São Paulo, já indicavam que a cidade era um dos grandes amores tanto do homem público quanto do poeta.

Membro da Academia de Letras da universidade durante o período em que lá estudou, Jânio escreveu sobre a capital paulista no poema Evocação, de 1938: “Meu São Paulo querido!/ Eu te revejo/ pequenino, brumoso, frio, tristonho…/ e humilde, São Paulo, e sertanejo/ eras grande no amor! Grande no sonho!”.

Em 1972, já conhecido por sua atuação política, ele não deixou de escrever poemas sobre cidades. Lua Londrina, publicado na revista Arcádia, da Universidade de Direito da USP, faz uma analogia entre o satélite natural e a imponência da Inglaterra no cenário internacional: “Lua londrina que prescruta o mundo/ no terror do que vê e foge, presto/ da babel de um planeta moribundo”.

Já Getúlio Vargas (1930-1945 e 1950-1954), apesar de não ter escrito poemas – ou pelo menos não expostos ao público – é famoso pela carta que escreveu antes de se suicidar, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, em 1954. Em 2007, a jornalista Érica Alves publicou uma reportagem mostrando que o último texto de Getúlio e a ocasião de sua morte foram material para a produção de cerca de 2 milhões de folhetos de cordel com 60 títulos diferentes à época.

Curiosamente, algumas das frases do ex-presidente são mais famosas do que qualquer verso já escrito por qualquer político brasileiro, como aquela em que ele expressa sua entrega ao governo do Brasil (“Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte”) e a que encerra o texto (“Saio da vida para entrar na história”).

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