O sociólogo Benedito Mariano, do PT, se encontrou com o ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, para propor que o governo Lula apoie oficialmente a campanha para que o padre Júlio Lancellotti seja indicado ao Nobel da Paz. Junto ao ministro e o padre, esteve Paulo Pedrini, coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo, que se pronunciou sobre a perseguição promovida pela extrema direita paulistana contra Lancellotti.

Mariano planeja abordar os ministros Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e Mauro Vieira (Itamaraty) sobre a proposta, além de sugerir que o ministro dos Direitos Humanos busque o apoio do papa Francisco para a causa. Benedito Mariano é secretário de Segurança de Diadema, em São Paulo, e já foi foi ouvidor das polícias da capital paulista, que teve drasticamente reduzidos os índices de violência nos últimos 30 anos.

“A Câmara deveria, ao contrário, premiá-lo por sua ação corajosa, permanente e profética de defesa das pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo”, declarou Paulo Pedrini a respeito da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das ONGs, que busca investigar as organizações que trabalham com pessoas em situação de rua.

O padre Júlio tem sido alvo de perseguição da extrema-direita, liderada pelo vereador Rubinho Nunes (União Brasil). Assim que o padre Júlio Lancellotti foi colocado como possível foco de investigação na Câmara dos Vereadores, o religioso também passou a ser alvo de uma onda de desinformação e discurso de ódio nas redes sociais. Monitoramento feito pela Lupa identificou uma corrente de informações falsas e descontextualizadas que o acusa — sem provas — de abuso sexual e pedofilia.

As informações inverídicas foram checadas pela Agência Lupa e a Arquidiocese de São Paulo emitiu uma nota dizendo que permanece distante de “interesses ideológicos e políticos” e permanece atenta aos elementos da verdade. Confira abaixo.

Nota da Arquidiocese de São Paulo. | Foto: Redes Sociais

Papa chamou Júlio de ‘mensageiro de Deus’

Durante discurso no Vaticano, o Papa Francisco contou aos fiéis sobre a ligação que fez ao padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo e defensor dos direitos humano, neste sábado (10).

Em seu discurso, Papa Francisco conta que ligou para Júlio, após ver fotos do atendimento à população de rua em meio à pandemia, que recebeu através do Vatican News. “Consegui ligar para um padre italiano [Júlio é descendente de europeus] idoso, missionário da juventude no Brasil, sempre trabalhando com os excluídos, com os pobres. E vive essa velhice em paz, consumiu sua vida com os pobres. Esta é a nossa Mãe Igreja, este é o mensageiro de Deus”, disse o pontífice.

Comunicado de Padre Júlio Lancellotti

“Neste sábado, 10 de outubro, às 14h15, recebi o telefonema de sua santidade o Papa Francisco que falou comigo com toda simplicidade e proximidade, perguntando sobre a população de rua, como é nossa convivência com os irmãos de rua, quais as dificuldades que sentimos.

O Papa disse que viu as fotos que enviamos para ele e que sabe das dificuldades que passamos, mas que não desanimemos e façamos sempre como Jesus, estando junto dos mais pobres.Pediu para transmitir a todos os moradores de rua o seu amor e proximidade e que todos rezem por ele. Ele reza por todos nós também.

Perseguição da direita maluca dará Nobel a padre

Padre Júlio, contrariando parte da elite brasileira, cuida e da visibilidade à população de rua, em São Paulo. Ele é reconhecido internacionalmente por seu trabalho social e ativismo em prol dos direitos humanos, especialmente em relação aos direitos dos moradores de rua e das pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Ele atua especialmente na Cracolândia, alimentando os usuários de drogas, combatendo à exploração sexual e promovendo ações voltadas para a inclusão e dignidade dessas pessoas, que tantas vezes, são invisibilizadas e esquecidas pela sociedade. “Minha perspectiva é o fracasso. Porque se nesse sistema eu não fracassar é porque aderi a ele”, disse o Padre Júlio em entrevista recentemente.

A proposta de CPI repercutiu nas últimas semanas e mobilizou políticos à esquerda — em defesa do sacerdote — e à direita — críticos a ele. Perfis nas redes sociais de lideranças políticas da direita ajudaram a aumentar a circulação de fakes sobre Lancellotti.

É o caso do deputado federal bolsonarista Gustavo Gayer (PL-GO), por exemplo, e do ex-ministro da Educação no governo de Jair Bolsonaro (PL) Abraham Weintraub, que concorreu ao cargo de deputado estadual em São Paulo em 2022 pelo PMB, mas não se elegeu. Ambos fizeram publicações que colocam em xeque a idoneidade do religioso e o associam à pedofilia sem apresentar provas.

Duas publicações no perfil de Gustavo Gayer (PL-GO) com informações sem provas tiveram, juntas, mais de 22,2 mil curtidas – Imagem: Reprodução

A Agência Lupa identificou uma série de conteúdos que imputam a Júlio Lancellotti o crime de pedofilia e abuso sexual — o que nunca foi comprovado. Essas publicações apresentam diferentes abordagens descontextualizadas de acusações que remontam a 2007, ano em que o padre foi vítima de extorsão.

Naquele ano, um grupo de quatro pessoas, incluindo um ex-interno da Fundação Casa (antiga Febem), Anderson Marcos Batista, ameaçou agredi-lo e denunciá-lo por pedofilia à imprensa caso não fizesse pagamentos.

Após queixa registrada pelo padre, o caso foi investigado pela Polícia Civil de São Paulo. Quando Batista foi preso, ele negou qualquer tentativa de extorsão contra o padre e afirmou, sem apresentar provas, que recebia dinheiro de Lancellotti para manter silêncio sobre um suposto relacionamento amoroso entre os dois ao longo de oito anos.

Em novembro de 2007, a polícia encerrou o inquérito e concluiu que o religioso, de fato, sofreu extorsão. Somente em maio de 2011, quase quatro anos após a denúncia, a Jutiça de São Paulo condenou os dois envolvidos no caso — o ex-interno Anderson Marcos Batista e a esposa Conceição Eletério. Eles foram condenados a sete anos e três meses de prisão. De acordo com a promotoria, os criminosos ameaçaram “dar um tiro na cabeça” do padre caso ele não desse dinheiro — essa abordagem foi filmada por câmeras de segurança.