A perda de biodiversidade e o declínio de polinizadores têm despertado atenção de pesquisadores em todo o mundo, especialmente diante do avanço das mudanças climáticas e da destruição de habitats naturais. No Brasil, esse cenário é ainda mais preocupante no Cerrado, um dos biomas mais ameaçados do planeta e essencial para o equilíbrio ambiental do país.

É nesse contexto que cientistas brasileiros voltam o olhar para uma espécie rara de abelha sem ferrão, descoberta recentemente e restrita a uma pequena área do território nacional. Trata-se da Schwarziana chapadensis, catalogada em 2015 na região da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Adaptada a viver em áreas de altitude elevada, a espécie é considerada altamente vulnerável às alterações climáticas, o que reforça a necessidade de monitoramento e ações de conservação.

A pesquisa é liderada pelo professor Antônio José Camillo de Aguiar, do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB). O estudo tem como objetivo mapear a distribuição da espécie, avaliar o tamanho de suas populações e acompanhar os riscos ambientais aos quais ela está exposta.

Segundo o pesquisador, a Schwarziana chapadensis pertence a um gênero peculiar de abelhas sem ferrão, com características que a diferenciam de muitas outras espécies. “Elas constroem ninhos em cavidades subterrâneas, ao contrário de muitas abelhas sem ferrão que nidificam em árvores”, explica Aguiar ao Jornal Opção.

O professor destaca que se trata de um exemplo clássico de espécie com distribuição geográfica extremamente limitada. “É uma espécie registrada apenas na Chapada dos Veadeiros. Como outras abelhas sem ferrão, elas são fundamentais para a polinização da flora nativa do Cerrado, sendo um elemento-chave no ecossistema”, afirma.

De acordo com o pesquisador, a dependência de condições ambientais muito específicas torna a espécie ainda mais sensível às mudanças climáticas. “Elas são vulneráveis porque dependem de altitudes específicas e do clima característico da Chapada. Com o risco de extinção, o monitoramento da espécie é essencial”, complementa.

Além de sua importância ecológica, a Schwarziana chapadensis é considerada um organismo-chave por manter interações complexas com as plantas do Cerrado. O projeto também atua na formação acadêmica, envolvendo estudantes em atividades de campo, coleta de exemplares, armazenamento na coleção entomológica da UnB e extração de DNA para análises genéticas das populações.

Os estudos buscam compreender se as populações estão crescendo, se permanecem isoladas ou conectadas entre si e como estão respondendo às mudanças ambientais. O levantamento é realizado no Santuário Fazenda Volta da Serra, área que desenvolve pesquisas científicas há mais de 20 anos, localizada no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

Perfil do pesquisador

O professor Antônio Aguiar iniciou seus trabalhos com abelhas em 1996 e soma quase três décadas de dedicação à pesquisa científica. Ele conta que, no início da carreira, o interesse pelo grupo não era exatamente por paixão. “Inicialmente, eu não era exatamente uma pessoa apaixonada pelas abelhas”, relembra.

Segundo ele, a motivação surgiu da necessidade de compreender como esses insetos interagem com os ambientes naturais. “Havia mais a necessidade de entender como as abelhas interagiam com as florestas. E essa demanda existe até hoje: compreender a dinâmica das abelhas na natureza”, contextualiza.

Professor da UnB, Antônio Aguiar | Foto: Arquivo Pessoal

Formado em Biologia pela Universidade de São Paulo (USP), Aguiar é hoje uma das principais referências no estudo de abelhas no Brasil. Durante a entrevista, ele estava em Manaus, onde desenvolve pesquisas envolvendo diferentes aspectos da biologia das abelhas.

Para o pesquisador, o trabalho em áreas naturais proporciona uma experiência única. “É muito satisfatório quando a gente vai para uma área de Cerrado e vê os animais interagindo com a natureza. Essa diversidade é única, diferente de ambientes urbanos, que são muito parecidos entre si”, observa.

Ele define o papel do cientista como o de um mediador entre a natureza e a sociedade. “O que a gente faz como pesquisador é ser um repórter da biodiversidade. A gente observa, reconhece padrões e transmite isso para outras pessoas. De certa forma, me sinto privilegiado por poder trabalhar nessa área”, afirma.

Pesquisas sobre abelhas e polinização

O Brasil abriga mais de 300 espécies de abelhas sem ferrão. Estudos recentes já identificaram características de 328 espécies, embora mais da metade das abelhas sociais ainda careça de pesquisas detalhadas, principalmente sobre distribuição e ecologia.

O aquecimento global e a perda de habitat são apontados como ameaças críticas à polinização e à segurança alimentar. Segundo Antônio Aguiar, há diversas frentes de pesquisa em andamento no país. “Quem elas são, onde se distribuem, com que plantas interagem. O que mais dá trabalho é saber quem elas são e onde estão”, explica.

Ele ressalta que essas áreas de estudo são interdependentes. “A partir do momento que você não sabe quem elas são, fica difícil avançar nas outras perguntas, como onde estão e o que fazem”, completa.

Nas matas brasileiras, as abelhas sem ferrão são responsáveis pela polinização de 30% a 80% das espécies de plantas, dependendo do bioma. Muitas delas estão diretamente ligadas à produção de frutos. “O murici, por exemplo, depende muito das abelhas. Se você não tem essas abelhas, deixa de ter murici”, destaca o pesquisador.

Aguiar explica que a perda das abelhas provoca uma cascata ecológica. “O fruto é mais importante para as aves do que para o ser humano. As aves adoram murici. Então, se você não tem murici, não tem aves. É uma sequência lógica”, afirma.

Segundo ele, a redução das abelhas afeta não apenas a reprodução das plantas, mas também a alimentação de diversos vertebrados, como aves e mamíferos. “Culturas como milho, soja e arroz não dependem da polinização, mas as frutas sim. Sem elas, a alimentação perde vitaminas, a imunidade da população diminui e vários problemas de saúde começam a aparecer”, conclui.

Murici | Foto: Divulgação /Embrapa

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