A dura vida na Coreia do Norte

O país mais fechado do mundo é aberto por quem viveu lá a vida inteira e conseguiu fugir

Por Waldineia Ladislau

Imagine se você vivesse num país sem internet, em pleno 2019. Onde comunicar-se com o mundo exterior, até mesmo com os países vizinhos de fronteira é praticamente impossível. Televisão e rádio, só nacional, com 100% da programação feita pelo Estado. Parece um pesadelo? Mas este país existe: é a Coreia do Norte; o país mais fechado do mundo, onde a grande maioria da população acredita que seu país é o melhor país do mundo, o melhor lugar do mundo para se viver. Se há uma coisa que funciona bem na Coreia do Norte é a propaganda. Os norte-coreanos que nasceram depois da divisão da então Coreia, em 1948, acreditam que seu líder supremo é o mais próximo que se pode chegar de um ser divino.

Na Coreia do Norte os mais pobres passam fome, alguns chegam a morrer de inanição, pois a produção agrícola em grande escala só é promovida pelo Estado. Os norte-coreanos são ensinados, desde os dois, três anos de idade, a amarem profundamente o seu líder, Kim Jong-un, hoje já o terceiro da dinastia iniciada em 1948, com seu avô Kim Il-Sung, apoio pela China e
a então União Soviética. Os homens da dinastia criada no século 20 recebem os títulos de Líder Supremo da República Popular Democrática da Coreia, Presidente da Comissão de Defesa Nacional da Coreia do Norte e Secretário-Geral do Partido dos Trabalhadores da Coreia, tudo junto.

Pouca coisa se sabe da Coreia do Norte. Os pouquíssimos visitantes, quando autorizados a conhecer o país, só podem circular pelas ruas e fazer viagens acompanhados o tempo todo por um agente do Governo. Só podem conversar com pessoas autorizadas por tal agente e conhecer os lugares indicados por ele. Os visitantes não sabem, por exemplo, que desde criança é ensinado na escola que todos devem vigiar todos, para que ninguém fale ou faça algo contra o Supremo ou contra o Partido. Os visitantes não sabem que uma vez por semana as pessoas devem confessar para alguém indicado pelo Partido em cada escola e fábrica, os seus “pecados” e denunciar os “pecados” dos outros. Deixar de denunciar regularmente pelo menos um colega de trabalho ou pais ou irmãos, é visto como suspeito ato de rebeldia ao regime.

Essas informações e outras, que tratam, por exemplo, da falta de justiça e de liberdade religiosa na Coreia do Norte, só são conhecidas no mundo livre por causa dos poucos que conseguem fugir do país. Dias atrás esteve em Goiânia e algumas outras cidades brasileiras, uma norte-coreana que conseguiu fugir. Hoje ela vive como refugiada política em outro país e
esteve no Brasil falando sobre a difícil situação em sua terra natal. Hea Woo (nome que adotou por questão de segurança), é uma senhora de 73 anos e cerca de 1,30 cm de altura. Depois de cumprir três anos e seis meses de prisão em campos de trabalho forçado pelo crime de pregar o evangelho, conseguiu fugir. Ela sabia que seria presa novamente por continuar pregando o evangelho e, talvez, não a deixassem viva uma segunda vez, o que a motivou a tentar a fuga.

Hea Woo viu o marido morrer também numa prisão, por pregar o evangelho, e uma filha, já adulta, que morreu de fome. Todos na casa trabalhavam, mas a ração diária era tão pouca, lembra a norte-coreana, que a filha não sobreviveu. Os outros filhos também conseguiram fugir da Coreia do Norte e receber asilo político. As prisões de seu país estão cheias de pessoas que tentaram fugir da Coreia do Norte para conseguir comida. Este é um grave crime naquele país, explica Hea Woo. Mais grave do que fugir para as vizinhas China ou Coreia do Sul atrás de mantimentos é pregar o Evangelho, ou até mesmo se converter ao Cristianismo. Assim, logo
que uma pessoa é devolvida pela China (as autoridades chinesas, quando descobrem norte- coreanos em seu território os devolvem ao governo vizinho), a primeira pergunta que fazem é se teve contato com cristãos, se foi ajudado por algum cristão ou entidade cristã.

Há também os presos políticos, afirma Hea Woo, quanto aos criminosos de verdade, aqueles que matam, roubam, etc., ela afirmou que são raros. Ela acredita que a doutrinação na escola é tão forte, a tática de todo mundo vigiar todo mundo, que não dá espaço para que as pessoas pratiquem crimes comuns. Em resumo, as prisões e os campos de trabalhos forçados estão cheios de pessoas que realmente não são criminosos. Talvez seja por isso que muitos se ajudam em lugares de péssimas condições de vida sem querer nada em troca, simplesmente pelo fato de que todos estão ali sofrendo debaixo da opressão de um sistema desumano.

Quanto às prisões, Hea Woo explicou que as pessoas não ficam muito tempo na mesma, talvez pelo fato de que isto criaria laços entre os detentos. Assim, pelo menos a cada seis meses são remanejados para outros campos de trabalho forçado. O trabalho é do nascer ao por do sol, e não se altera por causa das condições climáticas: chuva, temporal, neve. Os presos são
submetidos a temperaturas de até 30 graus negativos, que são comuns na região, com poucos agasalhos. Alguns morrem de frio. Uma das experiências de Hea Woo com o frio intenso foi quando orava a Deus pedindo que a guardasse de se congelar, e ouviu em seu coração que,
naquele frio, quando até mesmo os guardas que vigiavam entraram nas construções e ficaram vigiando a grande distância, ela poderia cantar e orar alto, pois eles não a ouviriam e ela não seria castigada. Ela disse que cantou a plenos pulmões e sentiu-se muito aquecida.

Quando Hea Woo foi presa, já estava com mais de 60 anos, e todo o tempo que permaneceu na cadeia, comendo diariamente apenas três pequenos bolos de milho (que cabiam na palma de sua mão), sendo que em algumas ocasiões Deus a levou a dividir ainda essa minúscula porção com outros prisioneiros, é contado com muita emoção pela senhora que há oito anos
tem experimentado a liberdade de poder falar de Deus e da obra realizada por Jesus Cristo de forma livre a milhares de pessoas.


O patrulhamento é tão intenso no país mais fechado do mundo que até mesmo os pensamentos das pessoas são motivo de longos interrogatórios, seja nas escolas, nas fábricas e, principalmente, nos campos de trabalhos forçados. Os presos são obrigados a ouvir longos discursos sobre a glória da Coreia do Norte, depois de um dia inteiro de trabalho pesado, quase sem alimentação, e se cochilam durante a exposição, podem ser punidos severamente. Surras e espancamentos são constantes nas prisões e campos de trabalho forçado quando os agentes de vigilância desconfiam que está havendo conversa entre os presos.

Com os olhos brilhando, a pequena Hea Woo conta que, apesar de toda vigilância, todo patrulhamento, ela conseguiu falar do amor de Jesus Cristo para vários presos e, para poderem se reunir, iam todos para o banheiro _ um lugar extremamente fétido _ mas afastado e sem janelas e onde os guardas não iam e, assim, falando bem baixo, podiam orar, cantar e compartilhar um pouco da Bíblia, alguns trechos que sabia de cor. Hea Woo pediu a Deus que permitisse que ela vivesse, que cumprisse sua pena e pudesse sair da Coreia do Norte, para testemunhar sobre as atrocidades cometidas em seu país e anunciar o evangelho. E, hoje, ela vê com muita alegria a resposta de Deus.

Apoiada pela Missão Portas Abertas, que há mais de 60 anos trabalha para ajudar cristãos perseguidos em todo planeta _ uma espécie de Green Peace da vida humana _ a norte coreana passou não só pelo Brasil, mas tem fala para grandes auditórios em vários países. Sua fuga da Coreia do Norte é um assunto mais reservado, pois embora tenha contado com intervenção
divina, que trouxe um forte nevoeiro para que não fosse vista pelos soldados norte-coreanos, a passagem ocorreu por um lugar que, possivelmente, muitos outros norte-coreanos poderão usar também.

No final da entrevista, a norte coreana de cerca de 1,30 cm de altura, de forma muito sorridente e carinhosa, presenteou esta jornalista com um par de meias. Segundo o intérprete, é um gesto dela para com as pessoas que a ajudam a propagar a verdade do evangelho. Um versículo da Bíblia, em Isaías 52: 7 diz: “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!” Pela disposição de Hea Woo, ela vai anunciar a verdade e o evangelho ainda por muito tempo.

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Carlos Spindula

Incrivel o tanto que essa senhora sofreu e os cristaos sofrem na Coreia do Norte ! Esse regime vai cair, com certeza, devido a impiedade,maldade e opressao sobre seu povo !

Paulo Rui de Matos Duarte

Mas eles transmitem pela internet no youtube a KCTV como a VOK-VOICE OF KOREA amigo