40 anos de refundação da UNE e a resiliência do Movimento Estudantil

Para além da discussão político partidária, organização de estudantes tem história marcada por perseguições e protagonismo em lutas históricas

Foto: Matheus Alves/ Divulgação

Por alguns anos ancorado em uma política que o favoreceu, o Movimento Estudantil (ME) passou e passa por momentos delicados após o processo político alcançar status de odioso a movimentos sociais, sobretudo, os que são lidos como de esquerda. Ante a uma história de diversas pautas, a União Nacional dos Estudantes (UNE) comemora os 40 anos de refundação da entidade e demonstra a força e resistência de um movimento que tem em sua trajetória vitórias e derrotas.

Em quase 81 de história, a UNE, caracterizada como Movimento Estudantil, tem como recordações documentadas desde a atuação clandestina, quando se coloca na ilegalidade pela Ditadura Militar, a até protagonismo no movimento Diretas Já, que restabeleceu a democracia nacional. Nos últimos três anos, entretanto, o movimento de estudantes enfrentava consecutivas derrotas, que vão da aprovação da PEC do teto de gastos, em 2016, até o corte de recursos em 2019.

Como pontuado ao início, o ME conseguiu, durantes alguns anos, tranquilidade em suas atuações, devido aos governos petistas, que acabaram por favorecer os movimentos, estabelecendo amplo diálogo entre eles. A tranquilidade, entretanto, fez com que o grupo se fragmentasse nas mais diversas pautas. Mas desde a conclusão do impeachment, em 2016, as lutas fragmentadas da categoria teriam de ser novamente aglutinadas. No entanto, o que se observou de lá pra cá foi um política anti-educação pública incapaz de dialogar com o ME.

Foto: Matheus Alves/ Divulgação

Em 2016, com a posse de Michel Temer, o Governo Federal propôs ao Congresso a PEC 241/55, nomeada “PEC do teto”, que estabelecia reajuste máximo de gastos públicos em cifras corrigidas pela inflação, o que, na prática, representava menos dinheiro não só para a Saúde como também para as universidades. Em resposta à PEC, estudantes ocuparam universidades em todo o País, e a UNE protagonizou movimentos de rua expressivos em Brasília. O ME foi derrotado. A PEC dos gastos foi aprovada por ampla maioria do parlamento.

Lúcido que é, o Movimento Estudantil acompanha, também, as pautas trabalhistas, ora, estudante universitário sabe que em questão de poucos anos se tornará trabalhador. E essa lucidez levou o ME às ruas de Brasília em 2017, lutando contra a proposta da Reforma Trabalhista, uma das maiores já registradas em solo brasiliense. E, novamente, foram derrotados por uma política não dialógica.

O derrotismo se tornou, mesmo que não assumidamente, um sentimento internalizado pelo ME. Desde 2016 estive ao lado de alguns desses movimentos e a sensação que se tinha há até poucos meses era um confuso “E agora?”. Mesmo com esse apontamento, eu não seria irresponsável em dizer que em algum momento o movimento cruzou os braços. A resiliência é a característica que sempre o marcou.

Em um cenário de constantes mudanças e ataques, vêm da resiliência os motivos de sobra para a UNE e todo o ME comemorarem os 40 anos de refundação da entidade durante o Congresso bienal da organização, que foi realizado em Brasília na última semana e reuniu milhares de estudantes.

A UNE representa muito mais que as pautas lidas como partidarizadas. Tem, sim, diversas bandeiras, que juntas representam uma luta organizada pela Educação Superior, e será impossível apagá-la da história, dada a sua inegável participação na construção da democracia.

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