4 motivos: por que a gasolina no Brasil é tão cara?

O fato é que o Brasil, apesar de produzir petróleo, depende da produção de outros países. E a desvalorização do real frente ao dólar contribui para a elevação do preço dos combustíveis

Procede que de que cada grupo de 10 motoristas brasileiros ao menos cinco querem se mudar para o Paraguai ou para a Argentina para abastecer seus veículos gastando menos? Se brincar, as pessoas irão até para a Venezuela. Boutade à parte, os preços dos combustíveis no Brasil estão entre os mais altos do mundo — e o país produz petróleo e, ao mesmo tempo, tem uma das maiores empresas do mundo na área, a estatal Petrobrás.

Recentemente, a BBC Brasil elencou quatro motivos pelos quais os preços dos combustíveis no país do presidente Jair Bolsonaro são tão altos — o que tem, inclusive, “quebrado” motoristas de caminhão e da Uber. Não só. O alto valor da gasolina, do Diesel, do Etanol e do gás tem contribuído fortemente para elevar a inflação — que, como se sabe, prejudica todo mundo, sobretudo os mais pobres.

Confira as quatro razões.

1
Aumento da demanda

Elevação do barril de petróleo tipo Brent tem subido no mercado internacional, o que afeta o Brasil. A BBC frisa que “essa trajetória de alta impacta diretamente nos derivados —gasolina, diesel, gás natural, gás de cozinha — e é explicada por pressões dos dois lados: maior demanda e restrição de oferta”.

A professora Júlia Braga, da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), postula que “a China vem usando mais gás natural como substituto do carvão em suas termelétricas. A medida é parte do esforço do país para cumprir as metas para redução da emissão de poluentes e entra na política de médio e longo prazo de transição energética da China”. A doutora em Economia frisa que “isso também impacta o preço do barril”.

2
Restrição da oferta

A oferta de petróleo no mercado internacional caiu. De acordo com a BBC, “uma das razões vem da própria dinâmica da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), um cartel que reúne 13 países e concentra cerca de 33% da produção global da commodity (por volta de 30 milhões de barris por dia). O grupo muitas vezes limita a produção para evitar quedas substanciais nos preços ou mesmo valorizar a cotação do barril”.

Há uma aposta de que a oferta vai ser normalizada até 2022. Mas tudo depende também da recuperação global da economia, e também depende da redução da pandemia da Covid-19 (que, entre 2020 e 2021, contribuiu para reduzir a produção de petróleo).

A BBC enfatiza que “o salto no preço do barril nos últimos meses tem levado países como os Estados Unidos a pressionar a Opep e seus aliados (que formam, com a organização, a Opep+) a acelerar a retomada. Assim como no Brasil, o preço da gasolina nos EUA deu um salto em 2021” (e continua em 2022).

3
Dólar alto

Alta do valor do barril do petróleo provoca dois efeitos no Brasil e outros país, onde ocorre uma profunda desvalorização cambial (o real vale cada vez menos ante o dólar).

“O preço sobe não apenas porque a commodity em si custa mais, mas porque o dólar também está mais caro. Uma série de fatores explica porque a moeda americana tem se mantido em patamar elevado, acima de R$ 5 por dólar. Alguns são externos, como a expectativa de aumento de juros nos Estados Unidos e de retirada do programa de estímulos monetários, outros, internos”, destaca a BBC.

“Aí entra muito da crise institucional, a briga entre os poderes”, diz a economista Júlia Braga. “E essa imagem muito ruim que o Brasil passa para o mundo inteiro, não apenas na parte política, mas também a visão anti-Ciência [do governo], a política ambiental, com aumento das queimadas, em um momento em que o mundo está cada vez mais sensível a essas questões. Tudo isso acaba afetando a decisão dos investidores internacionais de apostar no Brasil”, acrescentar a scholar.

4
Elevação dos preços de biocombustíveis

A BBC ponta que os biocombustíveis adicionados à gasolina e ao diesel, também em alta, colaboram “para pressionar o preço final dos combustíveis”.

“O etanol anidro responde por 27% do litro da gasolina vendida dos postos; já o biodiesel hoje equivale a 10% do diesel que sai das bombas”, pontua a BBC. “O primeiro acumula alta de quase 60% desde o início de 2021, conforme os dados do Cepea/Esalq. O salto é consequência direta dos efeitos climáticos adversos que têm se abatido sobre o país: a falta de chuvas e as geadas de junho e julho reduziram a produção das lavouras de cana-de-açúcar, sua matéria-prima. A soja usada no biodiesel, por sua vez, também está mais cara. Com maior demanda e a oferta também prejudicada pelas estiagens, a cotação da commodity acumula alta de mais de 70%.”

A Petrobrás tem culpa?

A partir de 2016, como empresa que está na bolsa, a Petrobrás aderiu ao Preço de Paridade Internacional, determinado “pelas flutuações do mercado internacional”. Consequentemente, “o dólar e a cotação do petróleo vem tendo mais influência sobre os preços dos combustíveis” no Brasil.

O objetivo da Petrobrás, ao praticar o Preço de Paridade Internacional, é obter lucros, satisfazendo os acionistas. A empresa mudou a política e passou a não mais “subsidiar”, por assim dizer, os combustíveis, ao contrário do que fez ao menos um dos governos do PT. O resultado é que, a rigor, se adotar práticas de mercado, a Petrobrás não tem como “custear” parte do custo do combustível para os consumidores. Porque pode até quebrar, o que os acionistas não aceitarão. Como assinala a BBC, a Petrobrás “é uma companha de economia mista e com capital aberto, com investidores privados”. De fato, o acionista majoritário é a União (o governo federal).

A Petrobrás tem concentrado seus esforços mais “na extração de petróleo do que no refino”, afirma a economista Júlia Braga. “O chamado de ‘plano de desinvestimento’ da estatal prevê a venda de oito de suas 13 refinarias.”

Júlia Braga sustenta que “o pré-sal é um sucesso retumbante, tem um custo baixíssimo, enquanto a parte do refino não tem tanta competitividade. Então prevaleceu essa ideia de ‘desverticalizar’ para preservar sua geração de lucro”. “Uma capacidade menor de refino, diz a economista, significa maior dependência das importações, o que deixa a empresa com menor margem de manobra para amortecer as flutuações do mercado internacional sobre os preços. ‘Agora a gente está vendo que esse outro extremo [em termos de visão para a empresa] ‘cobra seu preço’. Você perde esse instrumento que poderia ser usado para tentar não repassar de imediato toda a volatilidade que se vê nos preços do petróleo’”, analisa a economista.

ICMS e governadores

A BBC informa que, “no caso da gasolina, a Petrobras responde por cerca de 34% do preço pago pelos consumidores. A estrutura de precificação foi utilizada no fim de setembro pelo presidente da estatal, Joaquim Silva e Luna, como argumento para defender a atual política de preços. Na ocasião, ele afirmou que ‘tudo o que excede R$ 2’ não é responsabilidade da companhia. Além dos 34% da Petrobras, cerca de 16,5% representam o custo do etanol anidro, 10,7% vão para distribuição e revenda, 11,3% correspondem aos tributos federais PIS/Pasep e Cofins e 27,7% ao ICMS, tributo estadual.”

Júlia Braga “pondera que as alíquotas de ICMS praticadas pelos Estados não foram alteradas e, assim, não se pode atribuir o aumento nos preços ao tributo”. Noutras palavras, a culpa do aumento do preço dos combustíveis não se deve aos governadores. “O valor nominal de ICMS pago por litro de combustível cresceu porque seu custo, usado como base para o cálculo, está maior. As alíquotas, contudo, são as mesmas praticadas antes da atual crise: tanto em maio de 2020, quando a gasolina custava em média R$ 4,00, quanto no mês de setembro de 2021, com o preço a R$ 6, o percentual cobrado em São Paulo, por exemplo, é o mesmo, 25%.”

Uma resposta para “4 motivos: por que a gasolina no Brasil é tão cara?”

  1. Avatar Gunther Heinz disse:

    Não, a culpa é do Bolsonaro, genocídio!

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