3 anos depois, o “Estadão” finalmente se convence: o golpe está aí, cai quem quer

Não era uma escolha muito difícil. Não era uma escolha difícil. Não era, nem ao mesmo, uma escolha: era um dever democrático

No dia 8 de outubro de 2018, logo após a conclusão da votação do 1º turno presidencial, o jornal O Estado de S. Paulo resolver abrir sua página de opinião para escrever uma das maiores irresponsabilidades jornalísticas de toda a história da imprensa brasileira: o hoje tragicamente clássico editorial Uma escolha muito difícil.

Era sobre as opções que havia chegado ao duelo decisivo pela Presidência nas eleições daquele ano. Com a palavra, o Estadão:

“De um lado, o direitista Jair Bolsonaro (PSL), o truculento apologista da ditadura militar; de outro, o esquerdista Fernando Haddad (PT), o preposto de um presidiário. Não será nada fácil para o eleitor decidir-se entre um e outro.”

Agora, repare bem no título do editorial: “Uma escolha muito difícil”. Não é que fosse uma escolha apenas não satisfatória ou complicada. Nem era tão somente “difícil”: o advérbio de intensidade do título diz “muito” sobre o quanto a barra foi forçada, naquele momento, tanto para radicalizar o que havia de um lado como para amenizar o que se escancarava no outro.

UMA ESCOLHA MUITO DIFÍCIL" explode na internet com editorial do Estadão  defendendo Bruno Covas

Post do perfil do “Estadão” no Twitter, compartilhando o editorial do jornal em 8 de outubro de 2018 | Foto: Reprodução

O termo “esquerdista” tem a ver com Fernando Haddad? Para a leitura de um bolsonarista radical (desculpando o pleonasmo), sim, Haddad não é só esquerdista, mas comunista, ladrão, ateu, criador do kit gay e da mamadeira de piroca. 

Agora, para uma pessoa de bom senso, sem paixões políticas e que acompanhasse o cenário político nacional, deveria estar claro que Haddad passava longe de ser um radical de esquerda, como o uso do termo esquerdista insinua. Era um progressista moderado dentro de um partido que havia disputado como protagonista todas as eleições presidenciais desde 1989.

Aquele candidato era ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, sem qualquer ato que pudesse ser considerado aloprado, do ponto de vista de um liberal ou conservador (no sentido original da palavra), em nenhuma das gestões. Claro, sua competência ou uma ou outra medida tomada nos cargos executivos em que atuou poderia e deveria ser questionada em um debate. Mas é bom recordar que, quando perdeu a reeleição em 2016, fez uma transição de forma transparente e cordial para o antipetista João Doria (PSDB) e deixou em caixa cerca de R$ 2 bilhões líquidos. Não era nenhum irresponsável.

E do outro lado? Do outro lado estava um sujeito que, em 30 anos de vida pública, não havia produzido praticamente nada além de falas golpistas e factoides racistas, misóginos, xenófobos e homofóbicos. Não tinha proposta para o País: da sua boca saíam frases desconexas sobre Deus, família e comunismo que se resumiam em um projeto de “acabar com tudo isso que está aí”, nas palavras do próprio Bolsonaro.

Não era uma escolha muito difícil. Não era uma escolha difícil. Não era, nem ao menos, uma escolha: era um dever democrático votar contra alguém que, como diz o próprio editorial, fazia defesa aberta da ditadura militar, chegando a incensar torturadores.

Era preciso entender: naquele momento não importava mais quem estivesse daquele lado do jogo, se Haddad, Ciro, Alckmin, Meirelles, Lula, FHC, Dilma, Aécio, Serra, Collor, Sarney ou Maluf. Era o lado da única opção democrática que havia. 

Já se passaram quase mil dias de governo Bolsonaro e a imprensa, inclusive jornalistas do próprio Estadão, cobram ainda uma autocrítica do PT. Mas sobre esse fatídico editorial, o próprio Estadão, ao que se sabe, nunca se penitenciou.

Nesta terça-feira, 24 de agosto, o jornal paulista soltou um editorial com o título A convocação para o golpe – por coincidência, no mesmo dia do mesmo mês em que 67 anos atrás Getúlio Vargas se matava para evitar um. Em determinado trecho do texto, está lá:

“Em nenhum país civilizado, esse tipo de convocação é considerado ‘manifestação de pensamento’ ou ‘expressão de opinião política’. Trata-se não apenas de incitação à violência contra as instituições – o que já configura crime -, mas de convocação para o golpe.”

Alguém em 2018 imaginaria, três anos depois, o PT – fosse com Haddad, Dilma ou Lula ou qualquer outro – jogando a população contra o Judiciário e o Executivo a ponto de incitar a invasão de cortes e plenários? O PT, aquele mesmo partido que entregou a chave para Michel Temer (MDB) depois de um controverso impeachment da presidente?

Hoje, à exceção de radicais – sejam eles religiosos, militares ou empresários –, o povo já descobriu que não era uma escolha muito difícil. As pessoas comuns sentiram e sentem isso na irresponsabilidade da autoridade máxima com a saúde de seu povo durante uma pandemia, da dor de cada perda sofrida de uma pessoa querida que poderia ter sido evitada, mas também sente no bolso, cada vez mais, a falta de rumo do País.

Instituições, entidades representativas, sindicatos, movimentos sociais, gente lúcida do empresariado e do agronegócio, banqueiros, grande parte da classe política e mesmo boa parcela de militares e religiosos já se convenceram da roubada em que o País se meteu.

A grande imprensa, em momento algum, fez seu mea-culpa, mas a cada editorial como o de hoje se percebe que a ficha caiu. Até lá pelos lados do Estadão.

O prejuízo de ver “dificuldade” naquela escolha de três anos atrás já se tornou imensurável. Tomara que não tenha sido tarde demais para evitar o caos definitivo.

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