25 anos sem Renato Russo: conheça melhor 11 músicas inesquecíveis do “lado B” da Legião

Letras de grande poesia e melodias intensas estão em canções da banda que nunca chegaram a virar hits de rádios – embora merecessem

Neste 11 de outubro, há 25 anos, Renato Russo perdia a vida em decorrência da aids. Estava em casa e extremamente deprimido.

Durante os dez anos anteriores, ele, com seu vocal de tenor poderoso, havia conduzido a Legião Urbana ao Olimpo do pop nacional. Ainda hoje, é considerado por muitos o melhor letrista – batalha dura contra Cazuza – e o melhor vocalista – nesse item, com maior porcentagem de votos – do rock BR.

Entre os clássicos que até os não adeptos das guitarras elétricas conhecem estão Tempo Perdido, Pais e Filhos, Eduardo e Mônica, Ainda é Cedo, Vento no Litoral, Será, Quase Sem Querer e a eterna e interminável Faroeste Caboclo.

Mas, como nos vinis que fizeram sucesso com os jovens dos anos 80, há um outro lado, o “lado B”, de belas composições e que, em qualidade musical e lirismo, nada devem ao melhor de Renato Russo e da banda.

Confira a lista abaixo, de acordo com a cronologia dos álbuns da Legião Urbana:

A Dança (1985)

Uma das músicas mais dançantes de Legião Urbana, o disco de estreia da banda, A Dança tem em um tempo em que o discurso feminista ainda não tinha tanta força.

Não sei o que é direito
Só vejo preconceito
E a sua roupa nova
É só uma roupa nova
Você não tem ideias
Pra acompanhar a moda
Tratando as meninas
Como se fossem lixo
Ou então espécie rara
Só a você pertence
Ou então espécie rara
Que você não respeita
Ou então espécie rara
Que é só um objeto
Pra usar e jogar fora
Depois de ter prazer (…)

Pode-se dizer que A Dança é um contraponto involuntário a letras machistas e “engraçadinhas” de canções de bandas da mesma época, como Ultraje a Rigor e João Penca e Seus Miquinhos Amestrados.

O Reggae (1985)

Uma letra de forte cunho social, em que Renato Russo apresenta um criminoso apresentando sua história.

Ainda me lembro aos três anos de idade
O meu primeiro contato com as grades
O meu primeiro dia na escola
Como eu senti vontade de ir embora
Fazia tudo que eles quisessem
Acreditava em tudo que eles me dissessem
Me pediram para ter paciência
Falhei
Gritaram cresça e apareça!

Cresci e apareci e não vi nada
Aprendi o que era certo com a pessoa errada
Assistia o jornal da TV
E aprendi a roubar pra vencer

A pergunta que fica é: depois de 25 anos da morte do autor e mais de 36 anos da composição, o que mudou no Brasil em relação à (má) formação educacional que leva ao crime?

Acrilic on Canvas (1986)

Com certeza uma das mais belas e mais deprimentes letras do rock nacional. Acrilic on Canvas é uma “dor de cotovelo” em que a pessoa-alvo é metaforizada em um quadro pintado pelo eu-lírico:

Preparei a minha tela
Com pedaços de lençóis
Que não chegamos a sujar
A armação fiz com madeira
Da janela do seu quarto
Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete
E com as lágrimas que não brincaram com você
Destilei óleo de linhaça
E da sua cama arranquei pedaços
Que talhei em estiletes de tamanhos diferentes

Afinal, não é porque há um amor perdido que você precisa ir beber na Boate Azul e se abraçar com o garçom cantando Bruno e Marrone, né? Se quiser fazer isso com mais classe, está aí Renato para ajudar.

Fábrica (1986)

A música mais “luta de classes” da Legião, e também a música mais ecológica, é Fábrica. A letra poderia ser um libelo da classe trabalhadora e é lançada no momento do início da maior escalada inflacionária da história do País, quando principalmente os assalariados começavam a sentir graves efeitos da carestia.

Nosso dia vai chegar
Teremos nossa vez
Não é pedir demais
Quero justiça
Quero trabalhar em paz
Não é muito o que lhe peço
Eu quero o trabalho honesto
Em vez de escravidão

Deve haver algum lugar
Onde o mais forte não
Consegue escravizar
Quem não tem chance

De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo?
Quem guarda os portões da fábrica?

Em um tempo em que já se discutia efeito estufa, mas não tinha havido ainda nem mesmo a Rio 92, a letra também proclama: “O céu já foi azul, mas agora é cinza/ e o que era verde aqui já não existe mais”.

Depois do Começo (1987)

Uma letra em que Renato Russo descarregou todo seu nonsense e que foi composta entre 1982 e 1983, antes do lançamento do primeiro disco. Como ritmo é um ska e remete musicalmente muito mais ao repertório dos Paralamas. Mas, imageticamente, se alguém tivesse de apostar em um letrista, com certeza mais da metade chutaria que seu autor é Zé Ramalho.

Da nossa casa cega e medieval
Cantar canções em línguas estranhas
Retalhar as cortinas desarmadas
Com a faca surda que a fé sujou

Desarmar os brinquedos indecentes
E a indecência pura dos retratos no salão
Vamos beber livros e mastigar tapetes
Catar pontas de cigarros nas paredes

Abrir a geladeira e deixar o vento sair
Cuspir um dia qualquer no futuro
De quem
Já desapareceu

Ao concluir a letra, a irreverência de considerar o início do fim, “depois do começo”. Uma rebeldia descontraída, com mensagens em código, como admitiu o próprio Renato, para depois advertir, está no encarte do disco: “Cuidado, entretanto. Interpretar estes versos provavelmente dirá mais sobre que tenta decifrá-los do que propriamente sobre a música em si.”

1965 (Duas tribos) (1989)

É uma música que, como já insinua a partir do título, fala sobre o período da ditadura militar no Brasil e a divisão entre “patriotas” e “subversivos”.

Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Num dia de verão
Num dia de verão

Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão
Não se esqueça, temos sorte
E agora é aqui

Em uma entrevista concedida em 1994, Renato Russo diz que a música “fala especificamente de tortura” e também “dessa ideia toda de o Brasil ser o país do futuro”. Segundo ele, o Brasil precisava ser o país do presente, “a gente tem que viver o agora”.

Eu Era Um Lobisomem Juvenil (1989)

Uma balada em melodia ritmada que não deixa ninguém passivo a ela. Faz uma perfeita transição entre o disco As Quatro Estações e o próximo, V .

Luz e sentido e palavra
Palavra é o que o coração não pensa

Ontem faltou água
Anteontem faltou luz
Teve torcida gritando, quando a luz voltou
Não falo como você fala, mas vejo bem o que você me diz

Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo
Prefiro acreditar no mundo do meu jeito
E você estava esperando voar
Mas, como chegar até as nuvens, com os pés no chão?

Apesar de todas as metáforas contidas na letra, em tempos de crise hídrica e risco de apagão elétrico, não dá para deixar de lembrar os três primeiros versos da segunda estrofe acima, concordam? Renato Russo, novamente atualíssimo.

Metal Contra as Nuvens (1991)

Em V, o disco da Legião que mais se aproxima do rock progressivo, a tão longa quanto bela Metal Contra as Nuvens é o ponto alto, embora – talvez exatamente por seus 11 minutos de duração – nunca tenha alcançado o grande público.

Não sou escravo de ninguém
Ninguém, senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E, por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz

Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais

Mas sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão

Uma interpretação diz que a letra tem a ver com a trajetória dos templários, na voz de Jacques de Molay, o último dos grão-mestres da ordem. Já o próprio Renato Russo disse, certa vez, que a composição tinha a ver com o governo Collor (1990-1992).

A Canção do Senhor da Guerra (1992)

A única dessa relação que é de uma gravação ao vivo, do álbum Músicas Para Acampamentos. A música, porém, foi composta em 1985, para integrar um especial de TV, A Era dos Halley, da Rede Globo.

Existe alguém que está contando com você
Pra lutar em seu lugar já que nessa guerra
Não é ele quem vai morrer

E quando longe de casa
Ferido e com frio o inimigo você espera
Ele estará com outros velhos
Inventando novos jogos de guerra

Que belíssimas cenas de destruição
Não teremos mais problemas
Com a superpopulação
Veja que uniforme lindo fizemos pra você
E lembre-se sempre que Deus está
Do lado de quem vai vencer

O senhor da guerra
Não gosta de crianças

A Guerra Fria entre EUA e União Soviética estava no fim, assim como, no Brasil, a ditadura militar. A canção de Renato Russo soa como uma “resposta” – melhor seria dizer um “adendo” – a músicas como Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e Os Rolling Stones, que tratavam da perda da juventude e da inocência para servir a interesses políticos num campo de batalha.

Só Por Hoje (1993)

Essa música é praticamente uma “intrusa”: entra na lista não exatamente pelas qualidades melódicas ou por uma letra de excelência. O motivo é que talvez seja uma das que, até aquele momento da banda, Renato Russo mais se expunha, em um drama recorrente no mundo do rock: o vício.

Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu espero conseguir
Aceitar o que passou e o que virá
Só por hoje vou me lembrar que sou feliz

Hoje eu já sei que sou tudo que preciso ser
Não preciso me desculpar e nem te convencer
O mundo é radical
Não sei onde estou indo
Só sei que não estou perdido
Aprendi a viver um dia de cada vez

Só por hoje eu não vou me machucar
Só por hoje eu não quero me esquecer
Que há algumas pouco vinte quatro horas
Quase joguei a minha vida inteira fora

 

“Só por hoje”, o título dessa canção do disco O Descobrimento do Brasil, é também o lema dos Alcoólicos Anônimos. Durante boa parte de sua vida, Renato Russo enfrentou problemas com o abuso de bebidas alcoólicas e também uso de drogas.

Dezesseis (1996)

O disco A Tempestade ou O Livro dos Dias foi composto a fórceps: Renato Russo já estava muito debilitado em decorrência da aids e às vezes simplesmente não conseguia cantar. Por isso, também, é um álbum que fica devendo em qualidade à trajetória da Legião. Dezesseis é um respiro em meio a esse processo de decadência pessoal e conjunta.

Johnny estava com um sorriso estranho
Quando marcou um super pega no fim de semana
Não vai ser no CASEB
Nem no Lago Norte, nem na UNB

As máquinas prontas
E um ronco de motor
A cidade inteira se movimentou

E Johnny disse
“Eu vou pra curva do Diabo em Sobradinho e vocês?”

E os motores saíram ligados a mil
Pra estrada da morte o maior pega que existiu
Só deu pra ouvir, foi aquela explosão
E os pedaços do Opala azul de Johnny pelo chão

No dia seguinte, falou o diretor
“O aluno João Roberto não está mais entre nós
Ele só tinha dezesseis
Que isso sirva de aviso pra vocês”

E na saída da aula, foi estranho e bonito
Todo mundo cantando baixinho

“Strawberry fields forever”
“Strawberry fields forever”

E até hoje, quem se lembra
Diz que não foi o caminhão
Nem a curva fatal
E nem a explosão

Johnny era fera demais
Pra vacilar assim
E o que dizem que foi tudo
Por causa de um coração partido

Era o epílogo do melhor do trovadorismo que havia em Renato Russo. Menos de um mês depois do lançamento do disco, o líder da Legião Urbana sucumbia. O legado continua.

9 respostas para “25 anos sem Renato Russo: conheça melhor 11 músicas inesquecíveis do “lado B” da Legião”

  1. Avatar Graciano Farias Arantes disse:

    Excelente texto, inspirado e inspirador Elder!!! Eu vou demorar alguns dias para conseguir digerir todo o conteúdo de suas palavras sábias e motivadoras….. muito obrigado!!! O abraço afetuoso…………..

  2. Avatar Dé Cruz disse:

    🤔🤔
    Talvez o reggae não retrate um bandido , mas mais do que isto , a opressão que o “bitolado ” sistema educacional impunha (em especial a uma mente brilhante como a dele). A ponto de considerar a escola seu primeiro contato com as grades, “… Estão com meu destino pronto, não me deixam escolher…” – Depois de “Por enquanto” , O Reggae é minha canção favorita da Urbanna Leggio

  3. Avatar Daniela Ribeiro disse:

    Querido Elder, super bem feita e reportagem. Ótimas escolhas e comentários oportunos para os tempos atuais.

  4. Avatar Bruno Xavier disse:

    Maravilhoso texto! Como é bom reler versos que já foram uma isolada companhia em tantas épocas da minha vida. Obrigado!!

  5. Avatar Antônio Carlos Neri disse:

    Parabéns! Amei o texto. As músicas realmente foram escolhidas a dedo. Só não acho que Fábrica seja lado B. Mas isso pode ser uma questão de opinião.

    • Avatar Silvio disse:

      Tanto trabalho, tanto estudo, tanta poesia, para ter o Giuliano como filho. JPata mim, Renato Russo ogou tudo o que fez de bom no lixo com este rapaz gerindo o seu legado. Deve sentir vergonha por ter um filho assim. Um filho inútil.

  6. Avatar Tânia Canêdo disse:

    Vou demorar dias pra terminar de apreciar tudo isso! Maravilhoso e oportuno, Elder querido! Parabéns pela escolha, o mérito é seu e o presente é nosso!

  7. Avatar Juliana Morais disse:

    Muito boa a reportagem. Saudades imensas dessa banda maravilhosa.

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