14% das estudantes goianas entre 13 e 17 anos já sofreram assédio sexual, diz IBGE

Delegada titular da DPCA de Goiânia, Marcella Orçai, ressalta a importância da denúncia e dá dicas de como identificar vítimas de abusos; “Com o silêncio, a chance desses abusos ocorrerem de novo é grande”, afirma

Dados da Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (PeNSE), do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE) divulgados nesta sexta-feira, 10, indicaram que 14,1% das estudantes entre 13 e 17 anos do estado de Goiás já foram tocadas, manipuladas, beijadas ou passaram por situações de exposição de partes do corpo contra a sua vontade. Desse percentual, a maior parte dos que reportam os casos são meninas (19,5%); somente 8,6% dos meninos expõem os casos.

O percentual de meninas que foram sexualmente assediadas na capital goiana é ainda maior que a média nacional. Veja gráfico:

A pesquisa foi realizada em 2019 por meio de um dispositivo móvel que garante o anonimato e a individualidade do respondente, reduzindo assim o receio do informante em responder a temas sensíveis. De acordo com os resultados, o estudo ainda mostra que 6,4% dos adolescentes desta faixa etária já foram obrigados a ter relações sexuais contra sua vontade. Entre as meninas, o percentual é de quase 10% e entre os meninos, de 3,2%. Além disso, a maior parte dos jovens que acabaram ameaçados, intimidados ou obrigados a ter relações sexuais contra a sua vontade são de escola pública (6,6%), contra 5,3% da rede privada.

Na capital goiana, a quantidade total de jovens cai para 6,3% e o número de meninos que foram forçados a ter relações sexuais contra sua vontade foi maior que o estadual, com porcentagem de 4,2%. No entanto, meninas ainda são maioria nesse percentual (8,2%).

Entre os agressores, namorados (as) e outros familiares foram os mais apontados como autores desse tipo de violência, em 26,1% e 21,1% das situações, respectivamente. Como outros agressores, foram apontados pai, mãe ou responsável (14,7%), amigos (14,5%), desconhecidos (15,6%) e outras pessoas (20,4%). “Esses resultados revelam que muitas das vezes os atos de violência ocorrem em ambiente doméstico ou há alguma relação de afetividade entre a vítima e o agressor, o que faz com que esses casos em grande parte não sejam denunciados”, avalia o relatório da pesquisa.

Em concordância, a delegada titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Goiânia, Marcela Orçai, acredita que como geralmente esses abusos ocorrem dentro das próprias residências das crianças, “um ambiente fechado e com testemunhas”, é preciso ter cuidado com a influência dos familiares mais próximos e olhar de forma sensível a essas crianças, com relação a alguns sintomas que elas possam demonstrar. “Os sintomas não são indicativos absolutos de abusos, mas podem mostrar que as crianças estão sofrendo algum tipo de violação”, pontua.

Desses adolescentes de 13 a 17 anos que revelaram alguma vez na vida terem sido abusados sexualmente em Goiás, 60% afirmaram que tinham menos de treze anos quando a violência ocorreu. A média nacional desse indicador é de 53,2%, menor que o dado goiano.

Como identificar?

Entre os sintomas que colaboram para a identificação de crianças e adolescentes que sofreram algum tipo de assédio ou abuso sexual, a delegada Marcela Orçai ressalta a dificuldade para andar, quando a criança é menor, perda de interesse escolar, isolamento, depressão, ansiedade e até a repulsa por determinada pessoa. Além disso, nessas situações, a escola é um grande aliado dos agentes policiais, na investigação dos casos. “A escola é o local onde mais se recebe denúncias de crianças, porque essas crianças e adolescentes se sentem a vontade para contar aos professores, colegas de classe e até familiares desses colegas”, afirma a delegada.

Quando há suspeita de abuso sexual, Marcella destaca a importância de ir até a delegacia e narrar os fatos ocorridos. A partir daí, a criança ou adolescente será encaminhada ao Instituto Médico Legal (IML) para fazer o exame, mesmo que não necessariamente os abusos deixem vestígios. Isso, porque a delegada pontua que, mesmo que o teste feito pelo IML dê negativo, não significa que o abuso não ocorreu. “Grande parte deles não deixam vestígio, especialmente se for menina. Um exemplo é quando não rompem o hímen da menor, já que sabem que a penetração vai romper o hímen. Só que é um engano tanto do estuprador quanto da sociedade achar que será inocentado com base em um exame negativo do IML”, esclarece.

Como prevenir?

Na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Goiânia, segundo a delegada titular, Marcella Orçai, é trabalhada de forma veemente a repressão desse tipo de crime, como forma evitar novos casos. “A repressão do crime gera um efeito preventivo. A partir do momento que nós prendemos os estupradores e mostramos na mídia, percebemos uma diminuição de casos”, diz a delegada. No entanto, não deixa de pontuar a importância da conscientização, especialmente por parte das escolas, para que crianças e adolescentes entendam o que é o comportamento abusivo e se sintam seguras em reportar.

“As escolas possuem a expertise para conscientizar e ensinar a criança e o adolescente o que pode e o que não pode, que ela deve narrar o que acontece com ela, que não deve esconder. Isso é uma coisa que deve ser muito bem trabalhada com psicólogos capacitados para que a criança não seja exposta a conteúdos sexuais sem necessidade. Tem que ser algo bem trabalhado e lúdico, para que ela seja ensinada, não sexualizada”, avalia Marcella. Isso, porque a adolescente e a criança vítimas desse tipo de crime, segundo a delegada, precisam se sentir seguras para contar o que vêm sofrendo a pessoas que elas confiam. “Com o silêncio, a chance desses abusos ocorrerem de novo é grande”, completa.

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