“O Estado tem de incentivar a cultura”

Com público cativo na capital do Tocantins, onde se apresentou recentemente, cantor goiano fala de sua carreira e do novo trabalho, o acústico de piano gravado ao vivo “Do fundo da alma”


Dock Júnior
(De Palmas/TO para o Jornal Opção)

Em curtíssima temporada em Palmas, o cantor goiano Tom Chris recebeu o Jornal Opção para uma entrevista exclusiva, quando discorreu sobre sua carreira, seus novos projetos e tendências digitais. Ao seu sentir, a música é capaz, não apenas de trazer boas energias, mas contribuir, sobremaneira, com os aspectos culturais da nossa sociedade.

Cristiano Pereira da Silva é de origem simples, natural de Anicuns, e migrou para a capital Goiânia na juventude, onde passou sobreviver da música. Desde a mais tenra idade estudando piano clássico, não teve dificuldades para se adaptar ao estilo MPB, muito em voga nas décadas de 80 e 90. Intérprete do mais alto gabarito, Tom Chris é conhecido pelo seu timbre suave e ao mesmo tempo envolvente, que atrai a atenção das pessoas, fazendo-as viajar ao som de suas baladas quase sempre românticas.

O sr. fez apresentações em Palmas há poucos dias. Como foram?

Uma apresentação bem intimista, romântica, apenas com voz e piano. Toquei músicas que gravei, outras inéditas e até mesmo canções internacionais. Foi um apanhado geral sobre a minha carreira, contudo, para um público mais restrito e interessado em baladas românticas.

Como o sr. resume essa nova fase de sua carreira?

Muito bem. Lancei um disco novo, acústico de piano, gravado ao vivo no Teatro Sesc de Goiânia. O trabalho chama-se “Do fundo da alma” e no segundo semestre de 2018 vou lançar o DVD deste mesmo trabalho. Trata-se de releituras e algumas poucas composições minhas. No CD há interpretações de Ivan Lins, Geraldo Azevedo, Lenine, como também de compositores goianos como João Caetano e Fernando Perillo. Portanto, é um apanhado geral, que incluem uma série de regravações do Oswaldo Montenegro e Guilherme Arantes, entre outros.

É sabido que o sr. tem público cativo na capital do Tocantins e, nestas circunstâncias, virá lançar o DVD em Palmas?

Com toda certeza, virei. Tenho muitos amigos e admiradores do meu trabalho por aqui e preciso prestigiá-los quando o DVD for lançado ao grande público. Há um grande número de goianos residindo no Tocantins e a grande maioria deles me conhece. São muitos parceiros, tanto em Gurupi quanto em Palmas. Além disso, tenho um excelente convívio com músicos daqui, como Diomar Naves, Juraíldes da Cruz, Genésio Tocantins, entre outros.

Entre outras interfaces da sua carreira artística, há uma boa parceria com o conhecido cantor goiano Pádua. Vocês ainda atuam juntos?

Sim, sempre. Há uma harmonia entre nós e uma excelente parceria. Fazemos shows juntos em ambientes de barzinho, mas preferimos apresentações em teatros, principalmente em razão da acústica. Vamos, também, começar em poucos dias o projeto “Por outros cantos II”.

Estamos em fase de escolha de repertório, com algumas composições inéditas e regravações. Iremos fazer um trabalho de resgate, mesmo porque a MPB hoje está um pouco esquecida. Há um público novo a ser atendido. É lógico que o nosso público, de 30 anos ou mais velhos, são muito importantes, pois prestigiam e solidificam nosso trabalho, mas há que se pensar em resgatar essa juventude. Um dos instrumentos para isso é a internet, através do Youtube, Spotify, entre outras plataformas digitais. Esse é o futuro, temos que nos adaptar.

Além do seu estilo MPB, suas atuações com o cantor Pádua possuem um misto de regionalismo goiano. Como é a receptividade dessa mescla musical?

O Pádua faz uma espécie de regionalismo voltado para o mundo, ao modelo de Alceu Valença. Não é aquele modelo regional fechado e circunspecto. Acho o estilo musical dele inconfundível e prazeroso de se ouvir. Além disso, é um excelente compositor e não apenas intérprete. Mas refletindo sobre o tema, o que é mesmo regionalismo? A bossa nova é música regional do Rio do Janeiro, o samba nasceu em São Paulo e por aí vai. É complicado classificar o regionalismo. Fazemos música, portanto, independente desta simbologia.

Existem ou existiram outras parcerias?

Tenho desenvolvido um trabalho solo, mas fiz outras boas parcerias com o Luiz Augusto e o Gilberto Correia. Fizemos um disco experimental à época, mas nada muito profundo. Toquei muito também como músico instrumentista goiano Charles d’Artagnan, que rendeu bons frutos.

Já existe no Centro-Oeste bons locais para gravação de CDs e DVDs, de forma tal a evitar que os artistas tenham que se deslocar para São Paulo ou outros locais para produzirem suas obras?

Posso dizer que alguns estúdios de Goiânia não perdem em nada para aqueles localizados nos grandes centros. Especificamente o UP Music, o estúdio que utilizamos para nossas gravações, conta com a mais moderna tecnologia. Para se ter uma ideia, aquele quadro Bem Sertanejo apresentado pelo Michel Teló, no programa televisivo “Fantástico”, é produzido por esse estúdio. A ampla maioria dos ídolos sertanejos atuais também gravam com eles. Mas também há outros bons estúdios em Goiás, com know-how comprovado. Exatamente por isso, muitos artistas saem dos grandes centros para gravar em Goiânia.

Há muitos incentivos estatais para projetos culturais em Goiás?

Sim, as legislações do Estado de Goiás e, também, do município de Goiânia, favorecem as produções culturais, porque há a possibilidade de captação com a iniciativa privada e o consequente direito de abater os investimentos no pagamento de impostos, por parte das empresas incentivadoras. Além disso, há ainda o Fundo de Cultura, que funciona muito bem, beneficiando os artistas locais. Há vários projetos nesse sentido e também verbas destinadas para essa rubrica.

Qual é o seu pensamento sobre políticas públicas para incentivar a musicalidade das crianças e jovens?

Penso que tais incentivos são importantíssimos, mas não apenas projetos musicais. É necessário também criar e fomentar projetos esportivos e outras atividades culturais. Se os políticos não começarem se preocupar com isso, estaremos fadados a ter uma sociedade futura totalmente alienada às mídias digitais e sem quaisquer traços de educação e cultura. Esses projetos não são dispendiosos, ao contrário, é relativamente barato manter escolas de artes, de música ou de iniciação esportiva em qualquer modalidade. É necessário que os nossos governantes invistam em escolas, mas também é vital que também invistam em teatros e quadras esportivas.

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