Vacina sob medida pode transformar combate ao câncer de pele; entenda como funciona
24 outubro 2026 às 11h29

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Uma vacina feita sob medida para cada paciente pode ajudar a evitar que um dos tipos mais agressivos de câncer de pele volte a aparecer. É essa a aposta de pesquisadores que desenvolvem uma terapia de RNA mensageiro (mRNA) contra o melanoma. Em um estudo clínico de fase 3, a combinação da vacina com um medicamento de imunoterapia reduziu em 42% o risco relativo de recorrência da doença ou morte, em comparação com o uso isolado do medicamento. Apesar dos resultados animadores, o tratamento ainda é experimental e depende das etapas necessárias para sua aprovação.
O estudo reuniu 1.137 pacientes que passaram por cirurgia para a retirada do melanoma. Depois do procedimento, parte deles recebeu a vacina personalizada junto com o pembrolizumabe, medicamento usado na imunoterapia, enquanto outro grupo foi tratado apenas com o remédio. Após um acompanhamento mediano de 24,6 meses, 82,2% dos pacientes que receberam a combinação estavam vivos e sem sinais de retorno da doença. Entre aqueles que receberam somente o pembrolizumabe, o índice foi de 70%.
Para a farmacêutica e especialista em saúde estética Francielly de Oliveira, o que chama a atenção na pesquisa é a possibilidade de preparar o organismo para reconhecer características específicas do tumor. Em vez de funcionar como as vacinas tradicionais, voltadas à prevenção de doenças, a tecnologia foi desenvolvida para pacientes que já tiveram melanoma e passaram por cirurgia.
“É um avanço na medicina personalizada, porque eles vão estar pegando as células do próprio organismo e treinando o sistema imune da pessoa para reconhecer algumas células cancerígenas”, explica à reportagem do Jornal Opção.

O processo começa com a análise genética do tumor retirado do paciente. A partir dela, os pesquisadores identificam características que podem ser usadas para orientar a resposta imunológica. A proposta é fazer com que as defesas do organismo reconheçam essas marcas e ataquem eventuais células cancerígenas que permaneçam no corpo mesmo depois da cirurgia.
Essa é uma das preocupações no tratamento do melanoma. Embora a retirada do tumor seja fundamental, existe o risco de a doença voltar, caso células cancerígenas permaneçam no organismo. “A gente faz a cirurgia, tira o tumor, mas às vezes ficam células ali mais profundas e, posteriormente, a doença volta”, afirma a farmacêutica.
A vacina foi pensada justamente para ajudar a reduzir esse risco. Nos testes, porém, ela não foi utilizada sozinha: os pacientes receberam também o pembrolizumabe, medicamento que atua sobre mecanismos de controle do sistema imunológico e ajuda as células de defesa a combater o câncer. Enquanto a vacina busca ensinar o organismo a reconhecer alvos específicos do tumor, a imunoterapia contribui para que essa resposta aconteça. A combinação apresentou resultados melhores do que o uso isolado do medicamento.
O que significa a redução de 42%
O número divulgado chamou a atenção, mas não significa que 42% dos pacientes foram curados. A redução se refere ao risco relativo combinado de recorrência ou morte observado no grupo que recebeu os dois tratamentos, em comparação com o grupo tratado apenas com pembrolizumabe. Também não significa que a mortalidade, isoladamente, tenha caído 42%.
“Não quer dizer que foi 42% de pessoas curadas”, reforça Francielly. Para ela, os resultados são positivos, mas precisam ser acompanhados de uma avaliação criteriosa antes que a tecnologia possa ser utilizada de forma ampla.
A pesquisa chegou à fase 3, etapa em que um tratamento é testado em um número maior de participantes para avaliar sua eficácia e segurança em comparação com uma opção de referência. É um passo importante no desenvolvimento de um medicamento, mas não representa, por si só, uma autorização para uso. Ainda são necessárias avaliações regulatórias antes que a terapia possa chegar aos pacientes fora dos estudos clínicos.
O desafio de levar a tecnologia aos pacientes
Se os resultados continuarem favoráveis e o tratamento receber as autorizações necessárias, outro desafio será ampliar o acesso. Como a vacina é desenvolvida a partir das características do tumor de cada pessoa, sua produção exige um processo individualizado, diferente daquele utilizado na fabricação de imunizantes convencionais.
O custo e a estrutura necessária para produzir cada dose podem pesar na oferta do tratamento. Francielly observa que, além do investimento, a comprovação da segurança e dos benefícios precisa continuar sendo prioridade. No Brasil, uma eventual comercialização dependerá das avaliações regulatórias aplicáveis, incluindo a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ainda não há uma previsão confirmada para a disponibilidade da terapia no país.
Mesmo com essas etapas pela frente, a farmacêutica vê na pesquisa uma perspectiva importante para pacientes e familiares que convivem com o câncer. “Tudo que tem investimento, que tem estudo nessa área, é algo que aquece nosso coração, porque nasce a esperança em muitas pessoas”, afirma. Ela ressalta, no entanto, que a expectativa precisa vir acompanhada de cautela, já que os resultados ainda estão sendo avaliados.
Prevenção continua sendo fundamental
A possibilidade de um tratamento mais personalizado não muda um cuidado essencial: a vacina em estudo não foi desenvolvida para impedir que pessoas saudáveis tenham melanoma. Seu objetivo é reduzir o risco de a doença voltar em pacientes que já foram diagnosticados e passaram pela retirada do tumor. Por isso, a novidade não substitui a prevenção nem o acompanhamento médico.
Na rotina de Francielly, que também trabalha com saúde estética, é comum encontrar pessoas que procuram procedimentos para melhorar a aparência, mas acabam deixando em segundo plano alterações na pele que merecem atenção. Uma pinta que muda de tamanho, formato ou cor, uma lesão que sangra com facilidade ou uma ferida que não cicatriza são sinais que não devem ser ignorados.
A farmacêutica defende que o cuidado com a aparência precisa caminhar junto com a atenção à saúde. Ao perceber uma alteração suspeita, a orientação é procurar um dermatologista para avaliação, sem tentar resolver o problema por conta própria. A proteção solar e a observação regular da pele também continuam importantes.
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