Sensor brasileiro detecta câncer de pâncreas no início da doença em apenas 10 minutos
27 abril 2026 às 13h06

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Pesquisadores brasileiros desenvolveram um sensor eletroquímico capaz de identificar o câncer de pâncreas ainda nos estágios iniciais da doença. O dispositivo detecta no sangue pequenas quantidades da molécula biomarcadora CA19-9, principal indicador do tumor, e surge como uma alternativa mais simples, rápida e acessível aos exames convencionais.
Segundo Débora Gonçalves, professora do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo e coordenadora do projeto, o câncer de pâncreas costuma ser diagnosticado tardiamente por não apresentar sintomas no início. Isso contribui para que seja um dos tipos mais letais da doença, com taxa de sobrevida em cinco anos de apenas 3% nos casos avançados. A proposta do biossensor, segundo ela, é ampliar o acesso ao rastreamento precoce.
Os resultados do estudo foram publicados na revista científica ACS Omega. A pesquisa descreve o funcionamento do sensor, que identifica a proteína CA19-9, normalmente detectada apenas em exames laboratoriais mais complexos.
Nos testes iniciais, os pesquisadores analisaram 24 amostras de sangue de pacientes em diferentes fases da doença e de pessoas do grupo-controle. De acordo com Gabriella Soares, doutoranda da USP e autora principal do estudo, os resultados foram estatisticamente semelhantes aos obtidos pelos métodos tradicionais. A próxima etapa será ampliar o número de análises e incluir amostras de sangue, saliva e urina fornecidas pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.
Atualmente, o diagnóstico costuma ser feito por meio do exame Elisa, técnica que exige estrutura laboratorial especializada, profissionais qualificados e maior tempo de processamento. O novo sensor busca justamente oferecer uma opção de baixo custo e fácil aplicação, aumentando as chances de tratamento bem-sucedido.
O dispositivo funciona como um sistema de “chave e fechadura”. Sua superfície contém anticorpos específicos capazes de reconhecer a proteína CA19-9. Quando a amostra de sangue entra em contato com o sensor, ocorre uma alteração elétrica medida em forma de capacitância.
Quanto maior a concentração do biomarcador, maior a variação detectada. Em cerca de dez minutos, o sistema compara os dados com uma curva de calibração e estima a quantidade da proteína no sangue, permitindo identificar níveis muito baixos e favorecer o diagnóstico precoce.
A equipe também desenvolve outros dois sensores com tecnologias diferentes para aumentar a precisão dos resultados. A meta é combinar análises de sangue, urina e saliva e alcançar desempenho semelhante ao exame Elisa.
Além disso, os pesquisadores utilizam técnicas de aprendizado de máquina para criar uma ferramenta chamada “língua bioeletrônica”, capaz de interpretar grandes volumes de dados e identificar padrões que possam aprimorar a leitura dos exames.

