Quase 8 em cada 10 médicos de UTI apresentam algum grau de esgotamento emocional, aponta pesquisa
15 setembro 2026 às 11h52

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O Estado de Goiás tem quase oito vezes mais leitos de UTI por beneficiário de plano de saúde do que por habitante dependente do Sistema Único de Saúde (SUS). Enquanto na rede pública dispõe 1,24 leito para cada 10 mil pessoas sem cobertura de plano de saúde, a proporção chega a 9,47 leitos para cada 10 mil beneficiários da saúde suplementar. Os dados são do Dossiê Estadual da Medicina Intensiva no Brasil, da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB).
A estrutura de atendimento é apenas uma das questões que envolvem as UTIs. Quem trabalha nelas também enfrenta uma rotina de pressão, decisões rápidas e contato constante com pacientes em estado grave. Um levantamento da AMIB, em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), mostra que 48,5% dos médicos que atuam em UTIs no Brasil apresentam alto nível de esgotamento mental e emocional. A pesquisa ouviu 2.338 profissionais nos 26 estados e no Distrito Federal.
Outros 31,2% apresentaram esgotamento moderado e 20,3% relataram baixo nível de desgaste emocional. Somados os dois primeiros grupos, 79,7% dos médicos ouvidos apresentam algum grau de esgotamento que, segundo a pesquisa, exige atenção e cuidado com a saúde emocional.
A diferença na oferta de leitos aparece em um Estado que tinha, em 2025, 1.720 leitos de UTI adulto e coronariana. Do total, 798 eram vinculados ao SUS e 922 no SUS. Considerando toda a população, Goiás tinha 2,32 leitos de UTI para cada 10 mil habitantes.
A conta muda quando são considerados os diferentes grupos de cobertura de saúde. Goiás tinha 6.450.407 habitantes sem cobertura médico-hospitalar suplementar, população usada como referência para os leitos SUS. Outros 973.222 eram beneficiários de planos de saúde, utilizados como denominador para os leitos no SUS.
Desgaste entre médicos
O levantamento nacional mostra que o problema não está apenas na quantidade ou na distribuição dos leitos. Entre os médicos que trabalham nas UTIs, 46,4% relataram baixa satisfação com as atividades que desempenham. Quando também são considerados aqueles com satisfação moderada, o percentual de profissionais que não estão totalmente satisfeitos chega a 84,5%.
Outro indicador analisado pela pesquisa foi a despersonalização, relacionada ao distanciamento emocional em relação a pacientes e colegas. Algum grau desse comportamento foi identificado em 45,6% dos médicos entrevistados. Em 29,6%, o nível foi moderado e, em 16%, elevado.
Os percentuais de saúde mental são nacionais. Embora profissionais dos 26 estados e do Distrito Federal tenham participado da pesquisa, a amostra não foi construída para permitir uma divisão estatística dos resultados por unidade da Federação. Por isso, os dados não permitem afirmar quantos médicos de Goiás apresentam alto nível de esgotamento ou burnout.
Em Goiás, há 279 registros de especialistas em Medicina Intensiva, o equivalente a 3,76 registros para cada 100 mil habitantes. Considerando a quantidade de leitos e os registros de especialistas, são 6,16 leitos de UTI adulto e coronariana para cada intensivista registrado.
Especialização faz diferença
A pesquisa também encontrou diferenças entre os médicos especializados em Medicina Intensiva e os generalistas que trabalham em UTIs. Entre os intensivistas, 44,5% apresentaram alto nível de esgotamento emocional. Entre os generalistas, o índice foi de 52,3%.
A diferença se repete nos demais indicadores. O alto grau de despersonalização foi registrado por 12,7% dos intensivistas e por 20,1% dos generalistas. Já a baixa satisfação com o próprio desempenho atingiu 39,8% dos especialistas e 50,7% dos generalistas.
Para a AMIB, os resultados sugerem que a especialização pode funcionar como um fator de proteção. Segundo a entidade, quanto maior o grau de especialização do médico que trabalha em ambiente intensivo, menores tendem a ser os níveis de esgotamento mental e de distanciamento afetivo, enquanto aumenta a realização pessoal com o exercício da profissão.
Goiás conta atualmente com 14 programas ativos de residência médica em Medicina Intensiva. Ao todo, são 58 médicos em formação: 24 no primeiro ano, 19 no segundo e 15 no terceiro.
Rotina de pressão
A AMIB relaciona o desgaste emocional a uma série de fatores presentes no cotidiano das UTIs. Entre eles estão a carga horária elevada, a exposição constante a situações críticas, problemas de infraestrutura, aumento da demanda e a necessidade de tomar decisões rápidas e precisas. O contato frequente com a dor, o sofrimento e a morte também faz parte dessa rotina.
A entidade também chama atenção para os reflexos desse desgaste no atendimento. Segundo a AMIB, médicos e equipes exaustos podem ter comprometidos o desempenho clínico e a qualidade de vida, com consequências para a assistência aos pacientes.
O levantamento deve ser levado pela AMIB a autoridades, gestores, entidades médicas e órgãos de fiscalização. A intenção da associação é discutir medidas e políticas públicas voltadas às condições de trabalho nas UTIs e à saúde dos profissionais que atuam nesses serviços.
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