Um acordo firmado entre a Universidade Federal de Goiás (UFG) e o Laboratório Cristália, uma gigante farmacêutica, pode resultar em um medicamento inédito no Brasil, capaz de reverter intoxicações e overdoses provocadas por anestésicos locais e drogas de abuso com características semelhantes à lidocaína.

A iniciativa, baseada em nanotecnologia, cria partículas microscópicas que “sequestram” substâncias químicas em excesso no organismo, neutralizando seus efeitos e revertendo quadros graves que podem levar à morte. As informações foram divulgadas pelo Jornal da UFG.

 

Nos testes realizados com animais, inicialmente é administrada uma quantidade fatal de uma substância de abuso. Em seguida, os animais passam a manifestar sinais típicos de overdose, como elevação da pressão arterial e aceleração dos batimentos cardíacos. Depois disso, recebe-se a aplicação da formulação criada pela UFG, que gradualmente faz com que o organismo retorne ao estado normal.

Os primeiros resultados surgiram em 2018, quando a pesquisadora Sarah Rodrigues Fernandes, então mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da UFG, realizou experimentos com animais sob orientação da professora Eliana Martins Lima, diretora do Farmatec.  

Nos testes, a nanopartícula conseguiu absorver grande parte da cocaína administrada, normalizando sintomas de overdose como hipertensão e taquicardia em apenas dois minutos. 

A ideia foi inspirada em um marco da nanotecnologia. Em 1995, o FDA aprovou o Doxil, primeiro medicamento nanotecnológico do mundo, utilizado em tratamentos contra câncer. A diferença está no objetivo, enquanto o Doxil controla a liberação de fármacos, a formulação da UFG funciona como uma nanopartícula “vazia”, que absorve substâncias tóxicas presentes em excesso. 

Para transformar a descoberta em produto farmacêutico, a UFG firmou parceria com o Cristália, que assumiu metade dos direitos de propriedade intelectual e exclusividade na exploração comercial. O laboratório também investiu recursos financeiros e tecnológicos, além de disponibilizar sua equipe para o projeto. “Queremos trazer inovações disruptivas que transformem vidas”, afirmou Ogari Pacheco, presidente e fundador do Cristália ao Jornal da UFG. 

Atualmente, cerca de 25 profissionais participam da iniciativa, sendo mais de 15 vinculados ao Cristália e oito ao Farmatec. O plano de trabalho prevê cinco anos de execução, com reuniões semanais para acompanhar os avanços. 

O projeto já está em fase de otimização da produção e ampliação para escala industrial. Técnicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acompanham o processo de submissão para registro do medicamento, que será destinado ao uso hospitalar. 

As negociações envolveram diferentes setores da UFG, como a Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, o Parque Tecnológico Samambaia, a Agência UFG de Inovação e a Fundação de Apoio à Pesquisa (Funape), responsável pela gestão financeira.  

O diretor do Parque Tecnológico Samambaia, Luizmar Adriano, destacou a complexidade das tratativas, que exigiram valoração da tecnologia e definição de condições contratuais. 

Leia também:

Chuva deve perder força em Goiás: especialista explica mudança repentina no clima

5 livros tão ruins que parecem ter sido escritos pelo Paulo Coelho

Chuva deve perder força em Goiás: especialista explica mudança repentina no clima