Em um cenário onde a oscilação climática e o período de maior circulação de vírus respiratórios costumam acender o alerta nas autoridades de saúde, Goiás apresenta um quadro de relativa estabilidade no início de 2026. Em levantamento enviado ao Jornal Opção, os dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) revelam que, até o momento, Goiás registrou 2.330 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag). 

Embora o número chame a atenção, a análise técnica sugere cautela e um olhar comparativo. Quando observados os números sobre a 12ª semana epidemiológica, dado o tempo necessário para que os municípios alimentem o sistema nacional, observa-se que há uma queda sutil. Foram 2.078 registros este ano, contra 2.332 no mesmo período de 2025.

Em relação à cobertura vacinal em Goiás, o levantamento mostrou que, até o dia 28 de março deste ano, foram 115 mil doses aplicadas durante o Dia D de vacinação contra a Influenza. No caso dos grupos prioritários, somente 8,69% das pessoas se imunizaram, um desempenho levemente superior à média nacional, que hoje está em 8,02%.

A infectologista do Hospital de Doenças Tropicais (HDT), Marina Roriz, demonstra preocupação com a porcentagem apresentada. Segundo ela,  a cobertura vacinal no Estado ainda está baixa. “O que preocupa bastante é a questão da cobertura vacinal, porque a gente sabe que a Influenza, por exemplo, que é uma das grandes causadoras de Síndrome Respiratória Aguda Grave, está com a cobertura muito baixa.  Então, preocupa bastante porque os casos começaram a aumentar um pouco mais cedo, tanto é que a campanha de vacinação foi antecipada e que a gente tem uma previsão de que venha uma onda de frio em breve”, alertou. 

Dentro do universo dos casos graves registrados em 2026, 92 pacientes foram confirmados com Influenza. Destes, a subvariante H3N2 foi identificada em 27 pessoas. O monitoramento desses subtipos é fundamental para entender o comportamento do vírus no território goiano e ajustar as estratégias de atendimento nas unidades de saúde.

A infectologista explicou que os casos de Influenza, por exemplo, costumam registrar aumento sempre em estações do ano mais frias. “Ela é uma doença que acontece durante todo o ano, mas nas épocas onde faz mais frio, como outono e inverno, geralmente tem um pico maior de incidência, por causa da maior circulação de vírus que é onde as pessoas ficam mais restritas em ambientes fechados”, esclarece.

Infectologista Marina Roriz apresenta preocupação com a cobertura vacinal do estado | Foto: Arquivo pessoal

A especialista também reforça a importância da imunização como estratégia para conter o avanço dos casos mais graves. “A importância de vacinar é a gente diminuir a circulação desses vírus que costumam causar casos mais graves. Essas vacinas não são feitas com vírus vivo, então elas não provocam a doença. Quando você toma vacina de gripe, não tem como a vacina desenvolver a doença em você, porque ela não tem o vírus inteiro, não tem como ela provocar a doença”, explica.

Ela ainda esclarece uma dúvida comum da população sobre a relação entre vacinação e sintomas gripais. “O que acontece é que essa época que a gente toma a vacina, tem outros vírus circulando. E esses outros vírus realmente têm um quadro mais leve. Eles não costumam causar tanta internação e tanto caso grave”, completa.

É importante ressaltar que os dados das últimas duas semanas (semanas 13 e 14) ainda não compõem o balanço final da SES. Isso ocorre devido ao “atraso de notificação”, um intervalo natural entre o atendimento na ponta, pelo município, e o registro oficial. Ignorar esse “delay” poderia gerar uma falsa sensação de queda ou subida abrupta que não condiz com a realidade das enfermarias.

Diante desse cenário, especialistas reforçam que, apesar da estabilidade momentânea, o período exige vigilância contínua. A baixa cobertura vacinal, somada à aproximação das temperaturas mais baixas, pode favorecer o aumento dos casos nas próximas semanas. A orientação é manter a vacinação em dia e reforçar as medidas de prevenção para evitar uma pressão maior sobre o sistema de saúde.

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