“Parece-me que estava falando da natureza da doença da meia noite, que começava com um simples sentimento de desconexão com as outras pessoas , uma incapacidade de se “ajustar”, e que de modo algum é exclusiva dos escritores, um sentimento de inveja e de distância intransponível como a sentida por pessoas que se debatem num travesseiro, inquietas, num mundo cheio de gente adormecida”, escreveu Michael Chabon em “Garotos Incríveis” sobre a “doença da meia noite”. Mais de 72% dos brasileiros sofrem de doenças relacionadas ao sono, entre elas, a insônia, apontou estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Isso significa que a insônia atinge 73 milhões de brasileiros. Na sociedade do cansaço, dormir 8 horas por noite é privilégio de poucos. 

A insônia é um distúrbio associado ao aumento do risco de morte, doença cardiovascular, depressão, obesidade, dislipidemia (presença de índices elevados de gordura no sangue), hipertensão, fadiga e ansiedade. Nos quadros crônicos, está associada a acidentes automobilísticos, domésticos e no trabalho. A definição é do site do médico e oncologista Drauzio Varella.

Especialistas brasileiros elaboraram o novo Consenso de Diagnóstico e Tratamento da Insônia em Adultos com o objetivo de fornecer respostas e orientações para a detecção e controle desse problema, cuja incidência se agravou durante a pandemia e já afeta até 30% da população. Este documento compila as soluções mais eficazes com base em evidências científicas. Foi apresentado na última edição do Congresso Mundial do Sono, realizado no Rio de Janeiro, e foi elaborado com base na revisão de quase 25.000 estudos. A partir dessas pesquisas, os especialistas selecionaram os artigos que destacam as melhores abordagens para a insônia, que é considerada crônica quando ocorre cerca de três vezes por semana por pelo menos três meses.

O consenso confirma que a terapia cognitivo-comportamental (TCC), uma forma de psicoterapia que busca modificar padrões de pensamento e comportamento, é a abordagem padrão-ouro para o tratamento da insônia e pode ser eficaz, inclusive na forma online. No que diz respeito a medicamentos, são consideradas bem-vindas, quando prescritas por um médico, as classes de agonistas de benzodiazepínicos, como o conhecido Zolpidem, e os antagonistas da orexina (suvorexanto, lemborexanto e daridorexanto), sempre sob supervisão e acompanhamento médico.

O trabalho recém-publicado vem ao encontro do crescimento no número de pacientes nos consultórios, situação agravada pelas repercussões da crise da Covid-19, que, além das noites em claro, estimularam rotinas menos regradas com o home office, uso desmedido de telas e casos de ansiedade e depressão. A piora no padrão de sono, algo crítico para a saúde em geral, demanda intervenções mais eficazes, seguras e precisas de acordo com o tipo de insônia e o perfil do paciente. Perceber que algo não vai bem e procurar ajuda são o primeiro passo para impedir que o distúrbio deite raízes e fique mais difícil de controlar.

Cannabis pode ajudar a dormir melhor?

Um estudo publicado em 2022, que envolveu mais de 27 mil usuários de maconha medicinal nos Estados Unidos e no Canadá, revelou que quase metade deles citou o sono como uma razão de saúde física para o uso da maconha.

No entanto, é importante observar que a relação entre a cannabis e o sono é complexa, e os estudos sobre o assunto são limitados, com resultados frequentemente contraditórios, de acordo com Vyga Kaufmann, professora assistente de psicologia e neurociência na Universidade do Colorado em Boulder.

Os dois principais compostos ativos da cannabis, o tetrahidrocanabinol (THC, responsável pelos efeitos psicoativos) e o canabidiol (CBD, não psicoativo), parecem afetar o sono de maneiras distintas, conforme aponta Cinnamon Bidwell, psicóloga clínica e professora assistente de ciência cognitiva também na Universidade do  Colorado em Boulder.

Por exemplo, estudos limitados sugerem que baixas doses de THC podem melhorar o sono, enquanto altas doses podem piorá-lo, e o oposto é observado com o CBD. Essa diversidade de resultados torna a pesquisa sobre cannabis e sono desafiadora, especialmente porque diferentes produtos de cannabis podem conter proporções variadas desses compostos.

Entretanto, em uma revisão de 26 estudos publicada em 2020, os pesquisadores relataram “evidências preliminares promissoras” de que terapias com canabinoides, incluindo THC e CBD, deveriam ser investigadas como possíveis tratamentos para distúrbios do sono, como insônia, apneia do sono, síndrome das pernas inquietas e pesadelos relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático.

Há também algumas evidências de que a cannabis pode ajudar indiretamente no sono, aliviando dor crônica e ansiedade –duas principais preocupações que motivam novos pacientes a experimentar a cannabis medicinal.