Brasileiros passam, em média, cerca de nove horas por dia em frente a telas, aponta o estudo do Digital 2023: Global Overview Report, da DataReportal. O levantamento aborda que até 90% das pessoas podem desenvolver sintomas. Esse tempo prolongado de exposição já coloca o país como o segundo no mundo em uso de dispositivos eletrônicos.

Em entrevista ao Jornal Opção, o oftalmologista Bruno França alerta, nesta quinta-feira, 9, que pessoas podem desenvolver sintomas de fadiga ocular, também chamada de astenopia. O médico integra o corpo clínico do CBCO e é subespecialista em órbita, plástica ocular e vias lacrimais.

Oftalmologista Bruno França | Foto: Acervo Pessoal

Segundo o especialista, a pandemia intensificou esse cenário. “Hoje, a exposição às telas é muito maior do que há dez anos. Isso trouxe reflexos diretos para a saúde ocular”, explica. Ele observa que reuniões corporativas, aulas e eventos online se tornaram rotina e permanecem mesmo após o fim do lockdown.

Os primeiros sinais da fadiga ocular são claros: olhos secos, ardência e sensação de queimação. “Existem estudos que mostram que, diante das telas, piscamos até 70% menos. Isso gera maior instabilidade do filme lacrimal e acelera a evaporação da lágrima”, detalha. Ambientes climatizados, com ar-condicionado, tornam os sintomas ainda mais intensos.

Outro ponto crítico é o esforço contínuo do músculo ciliar, responsável por ajustar o foco da visão. “Quando passamos horas olhando para perto, esse músculo permanece contraído. Depois, ao tentar focar em objetos distantes, o olho encontra dificuldade em relaxar, gerando o que chamamos de espasmo de acomodação”, explica.

Esse mecanismo pode simular sintomas semelhantes à miopia, levando a diagnósticos equivocados se a avaliação não for detalhada.

França alerta que consultas rápidas podem induzir prescrições incorretas de óculos. “Muitos jovens chegam com queixa de dificuldade para enxergar de longe. No exame inicial, aparece uma miopia. Mas, após a dilatação pupilar, percebemos que não se trata de um erro refracional verdadeiro, e sim de espasmo de acomodação”, afirma.

A dilatação, segundo ele, é fundamental para inibir temporariamente o músculo ciliar e diferenciar os quadros. “Se a consulta for feita sem ouvir a rotina do paciente, é possível que ele receba uma receita de óculos para uma miopia que, na verdade, não existe.”

Além da visão embaçada, dores de cabeça e sensação de peso nos olhos são queixas frequentes. Esses sintomas, associados ao esforço visual prolongado, impactam não apenas a saúde ocular, mas também a concentração, o humor e a produtividade. “O paciente pode sentir que os óculos não estão funcionando bem, mas, na verdade, há uma sobreposição entre a miopia já existente e o espasmo de acomodação”, explica.

O especialista reforça que, embora a fadiga ocular não agrave diretamente a miopia, ela pode gerar desconforto adicional e comprometer a qualidade de vida. “Não é que a miopia vá piorar, mas o quadro de fadiga ocular se sobrepõe e traz sintomas que a correção visual isolada não resolve”, aponta.

O oftalmologista também detalha os impactos da exposição prolongada às telas, tanto em adultos quanto em crianças e adolescentes, e explica como sintomas aparentemente simples podem comprometer produtividade, humor e até gerar problemas refracionais como a miopia.

França destaca que o esforço visual contínuo está diretamente ligado à queda de produtividade. “Dor de cabeça, ardência ocular, visão turva e embaçada são sintomas clássicos da astenopia. Essa soma de fatores impacta diretamente na qualidade e no desempenho profissional”, afirma.

O especialista também reconhece que pacientes relatam alterações de humor relacionadas ao cansaço ocular. “O paciente passa o dia todo com dor de cabeça, sensação de peso, musculatura ocular fixa em tela para perto. Isso gera sobrecarga visual e mental. Ao final do dia, ele chega exausto, não apenas fisicamente, mas mentalmente. Esse quadro pode impactar no humor, principalmente”, explica.

Sobre diferenças entre dispositivos, o médico afirma que não é o tipo de tela que importa, mas a distância e o tempo de exposição. “No celular ficamos a cerca de 30 cm, no computador entre 50 cm e 1 metro. O problema é a musculatura ocular contraída para foco próximo durante grande parte do dia. Não é o tipo de tela, mas o gerenciamento da distância e das horas de uso”, diz.

O médico alerta para a vulnerabilidade de crianças e adolescentes. “Essa faixa etária tem maior tempo de exposição às telas. É geracional, nasceram no mundo digital. Desde muito cedo já passam horas em frente ao celular. Isso pode gerar espasmo acomodativo e até miopia verdadeira. Observamos um crescimento vertiginoso da miopia nos últimos anos, principalmente após a era digital”, afirma.

Ele lembra que há 15 ou 20 anos os celulares não eram computadores portáteis, mas hoje crianças de 2 ou 3 anos já ficam 2 a 4 horas por dia diante de telas.

Questionado sobre lentes com filtro de luz azul, Bruno ressalta que o tema ainda é controverso. “Não existe consenso científico sobre o impacto da luz azul. Sempre oriento o paciente a testar. Alguns relatam melhora significativa, outros não percebem diferença. É uma resposta individualizada”, diz.

O especialista também destaca hábitos simples de prevenção. “Existe a regra dos 20-20: a cada 20 minutos de tela, descansar 20 segundos olhando para uma distância de 20 pés, cerca de 6 metros. Na prática, recomendo pausas regulares, pelo menos a cada uma hora. Levante, vá até a janela, olhe para longe. Isso relaxa o músculo ciliar e evita o espasmo acomodativo”, explica.

O especialista comenta que a fadiga ocular não é apenas desconforto passageiro, mas um problema que pode comprometer produtividade, humor e saúde visual, especialmente em crianças e adolescentes. Segundo ele, a importância de adotar medidas preventivas e de conscientização sobre os riscos da exposição excessiva às telas.

O oftalmologista também aborda questões cada vez mais presentes na rotina moderna, o tempo seguro diante das telas, os efeitos da iluminação e a importância das consultas preventivas.

O médico destaca que não existe um número fixo de horas considerado seguro para adultos. “É muito individualizado. Imagina você falar para um empresário, um CEO ou alguém que trabalha com telas que ele tem um limite rígido de duas horas ao dia. Não. Na verdade, a gente vai do bom senso”, explica.

Segundo ele, o mais importante é realizar pausas regulares, olhar para longe e estimular a visão para minimizar sintomas da chamada astenopia, ou fadiga ocular. Em casos de pacientes que apresentam sintomas mesmo com medidas preventivas, a recomendação é reduzir gradualmente o tempo de exposição, de acordo com a sensibilidade individual.

No caso das crianças, há parâmetros mais definidos. “A partir dos dois anos de idade, uma hora por dia; a partir dos três, quatro anos, limite de duas horas por dia”, afirma. Esses limites buscam proteger o desenvolvimento visual e evitar sobrecarga precoce.

Um ponto abordado é pelo médico é a questão da iluminação. O especialista reforça que a luz natural é sempre preferível à artificial, por oferecer melhores condições ao conforto visual. Ambientes bem iluminados, com predominância da luz natural, reduzem o esforço ocular durante atividades em frente às telas.

Bruno também ressalta a importância das consultas regulares ao oftalmologista. “Não apenas esperar aparecer algum sintoma. Na presença do sintoma, é claro, é imperativo procurar o profissional. Mas é importante também fazer as consultas preventivas. A gente recomenda que sejam consultas anuais, mesmo que o paciente não tenha nenhum sintoma”, diz.

Por fim, o especialista lembra que algumas doenças oculares são silenciosas e só podem ser diagnosticadas em exames de rotina, o que torna a prevenção imprescindível.

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