Vivendo no Vale do Silício, brasileira relata mudanças nas empresas pós pandemia

A empreendedora Natasha de Caiado Castro compartilha sua perspectiva acerca das diferenças culturais no ambiente corporativo e do papel da pandemia na modernização das empresas

Empresas têm de ser verdadeiramente preocupadas com questões sociais e ambientais, afirma Natasha Castro | Foto: Divulgação

Natasha de Caiado Castro é fundadora e CEO da Wish International, empresa especializada no mercado MICE (meetings, incentives, conventions e exhibitions — reuniões, incentivos, convenções e exposições). Tendo fundado sua empresa no Paraná, a especialista em inteligência de mercado hoje divide suas atividades entre Brasil e o Vale do Silício — apelido da região da Califórnia onde estão situadas várias empresas de alta tecnologia. Em entrevista ao Jornal Opção, Natasha Castro, que também é membro do Woman Silicon Valley Chapter, contou como enxerga as mudanças provocadas pela pandemia da Covid-19, comparando o cenário brasileiro com o americano. 

Primeiramente, gostaria de saber como a pandemia afetou seu trabalho

A empresa Wish realiza eventos, viagens corporativas, programas de imersão – todas essas coisas foram paralisadas com a pandemia. Então, passamos quase dois anos com a agência em hibernação. Mesmo nossos projetos de comunicação tiveram de ser interrompidos. 

Agora, com o fim da quarentena nos Estados Unidos, percebemos uma forte necessidade das empresas pela comunicação, uma demanda reprimida. O fluxo de trabalho voltou muito fortemente porque, não apenas no ambiente corporativo, há uma sede para recuperar o tempo perdido. 

No cotidiano, a situação é semelhante?

Sim porque, diferentemente do Brasil, nas cidades próximas à San Francisco todos pudemos parar completamente. Eu passei o período de isolamento aqui, em Palo Alto. Em uma ocasião, fui duas vezes na mesma semana ao supermercado para comprar ração para meus cachorros, e levei uma bronca do trabalhador do caixa porque era a segunda vez que eu saía de casa na mesma semana. Quer dizer, aqui houve um momento em que uma pessoa checava a vida da outra.

Quando passeava com os cachorros e topava com outra pessoa vindo na minha direção, a pessoa ou atravessava a rua ou se virava para o mesmo lado que eu estava andando, para não nos cruzarmos na calçada. Então a cultura aqui é diferente. O isolamento foi super pesado. 

Não existiram ondas de contágio, como no Brasil. As contaminações pela variante Delta começaram em fevereiro e foi imposto o lockdown completo até três ou quatro meses atrás, quando tudo reabriu e não havia mais contágios. A sensação que tivemos foi de completa liberdade. 

Antes da chegada da variante Delta, a imposição das máscaras terminou. Quando acabou o primeiro lockdown, ainda em 2020, víamos as pessoas felizes dançando no meio das ruas. Veio o verão, shows, restaurantes. As pessoas se juntaram novamente e vimos o alívio pelo fim do isolamento.

Em comparação com o Brasil, você acredita que as pessoas do Vale do Silício tiveram mais recursos, ou puderam lidar de forma diferente com a pandemia?

O principal fator foi a vacinação extremamente rápida. Eu recebi minha primeira dose da vacina no estádio de futebol americano Levi Stadium. Lá, 500 pessoas eram vacinadas a cada 20 minutos. No final do dia, a quantidade de pessoas vacinadas era absurda. A segunda dose da vacina foi em uma farmácia. Você entra em um sistema online do governo para verificar onde há farmácias autorizadas próximas. Quer dizer, não tem “mimimi”; o que importa é a vacina no braço, e depois nós vemos o que acontece. 

A Califórnia é um grande hub de chegada de pessoas da China. Eu peguei covid em janeiro de 2020, andando no transporte público, pois a imigração chinesa é muito grande. Hoje nós temos quase 90% da população vacinada; apenas os anti vaxxers, crianças e pessoas que não podem receber as doses estão sem imunizantes. Isso faz com que os serviços possam continuar normalmente agora. 

Portanto, dá para dizer que esse é o maior recurso que o Vale do Silício tem e que o Brasil não dispõe. Há também a consciência, que aqui é maior.  

Enquanto especialista em inteligência de mercado, você vê diferenças nas posturas brasileiras e americanas em relação ao trabalho?

São completamente diferentes. Nos Estados Unidos, em especial no Vale do Silício, existe um comportamento generoso em oposição à atitude de competitividade que há no Brasil. No Vale, você precisa ser bom no que faz e procurar o máximo de parceiros possíveis para complementar seus serviços em outras áreas. Já no Brasil, como há menos recursos, você compete com outras empresas, sente que todas são uma ameaça e querem roubar seu lugar ao sol.

Além disso, todas as empresas que crescem aqui acabam reinvestindo aqui. Como o lugar é um nascedouro de empreendimentos inovadores, vale a pena fomentar a atividade local. Quando eu estudei aqui, em 1994 e 1995, era tudo absurdamente vazio e estéril. Mas começamos a nos juntar em volta de pessoas interessantes. O ecossistema recebeu muitas pessoas inventivas, de cabeça aberta, e a troca sem restrição acabaram criando o Vale do Silício de hoje.

Um exemplo mais prático: durante as sessões de networking, nos cafés, nas ruas, todo mundo sabe o que todo mundo faz. Frequentemente eu pego meu computador e vou trabalhar em um café, com os ouvidos atentos, e vejo novas ideias nascendo assim, do contato entre pessoas que compartilham uma visão. Aqui, criar empresas é mais simples, e elas surgem do começo para o final do dia. É comum que pessoas se juntem e, na hora, tentem criar algo, fazer acontecer seus projetos em pouco tempo.

Em seu artigo para o Jornal Opção, afirmou que percebe uma mudança tecnológica acelerada pela pandemia de Covid-19. Há alguma área que você acredita que não vá passar por transformação?

Não. A Covid-19 deu uma acelerada no processo de mecanização e de substituição dos humanos por softwares na interface dos serviços. Tudo que o robô puder automatizar, será substituído a curto prazo. Nos EUA, falta mão de obra para trabalhos pouco qualificados. Como o custo de vida é muito alto, não há quem trabalhe em restaurantes, por exemplo. A solução tem sido empregar robôs no atendimento pessoal. Para evitar o contágio do vírus, esse processo que já existia foi acelerado. 

Tem algum conselho para dar aos empreendedores brasileiros?

O brasileiro precisa ligar a antena. O jeitinho brasileiro tem um lado bom e um ruim. Como o brasileiro precisa se virar o tempo todo, nós desenvolvemos muitas habilidades. Somos criativos e sabemos resolver problemas. Entretanto, nós brasileiros precisamos entender que é impossível fazer qualquer processo inteiro sozinho. Gostaria de ver mais brasileiros focando no que são bons e tentando fazer conexões, se juntando com outras pessoas boas em outras áreas.

Digo isso porque vejo frequentemente que os brasileiros têm medo de gente que é melhor do que ele em algo. Têm medo de perder seu lugar e, via de regra, tentam fazer a parte que não dominam na “gambiarra”. Nós não temos a cultura de nos somar com os outros, pois os vemos como ameaça, temos medo de ser passados para trás. Quando isso começar a ser superado; quando focarmos mais na parceria, o espaço comum vai aumentar. Todos terão mais espaço.

Há alguma tendência que você observe aí no Vale do Silício e que pense que pode vir a se espalhar para o Brasil e o mundo?

Sim. Tenho visto uma acentuação da humanização nas empresas. Aqui, já estamos trabalhando com um público mais humano, mais ligado a valores. A geração mais nova cobra autenticidade, não só na comunicação de princípios, mas exige que produtos e serviços sejam produzidos e fornecidos de acordo com sua moral. Aqui, as empresas já sacaram que os valores precisam ser legítimos.

Em parte, acredito que a pandemia também acelerou isso, porque neste tempo de isolamento, as pessoas ficaram internadas e refletiram sobre o que realmente importa. Esse contraste é nítido quando se compara a geração nova, que tem convicções, com a geração antiga, que se habituou com o discurso do marketing. A nova geração não aceita essa conversa, para eles, tudo isso soa falso. Precisamos aprender com eles e interiorizar o que é importante, não só na comunicação, mas no cerne das empresas; elas têm de ser verdadeiramente preocupadas com questões sociais e ambientais, entre outras. 

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