Vem aí uma nova concepção de governo

Nem em 1998, quando derrotou o PMDB pela primeira vez e sucedeu a um adversário político, Marconi havia promovido uma reforma tão profunda. Por que ele fez isso agora?

Foto: Lailson Damásio

Foto: Lailson Damásio

Afonso Lopes

O governo Marconi Pe­rillo que estreia dia 1º de janeiro de 2015 vai ser inédito. Não apenas pelas razões óbvias, mas especialmente na relação direta que poderia existir com os três mandatos anteriores. Para quem esperava mais do mesmo, o anúncio de parte da reforma administrativa que ele está disposto a promover e realizar já no início do ano que vem foi um tremendo baque. Mesmo setores oposicionistas ficaram impressionados com as dimensões da redução que ele quer implantar nos mecanismos da máquina administrativa. De 16 secretarias de Estado, vão ficar somente 10. Mais de 15 mil cargos comissionados e gratificados vão ser extintos. Uma economia direta e imediata que deve atingir, segundo cálculo do próprio governo, algo como R$ 300 milhões, ou R$ 1,2 bilhão em quatro anos.

Mas por quê, afinal de contas, Marconi quer promover uma reforma que altere tão profundamente a máquina administrativa estadual? Seria um evidente sinal de que as contas do Estado estão ruins? De todas as hipóteses, essa parece ser a menos provável. É claro que o governo não tem sobras financeiras para esbanjar, mas não há qualquer evidência de estrangulamento. Nem no aspecto financeiro e, muito menos, na composição econômica.

Além do mais, o Congresso Nacional aprovou recentemente a remontagem do quadro geral das dívidas de Estados e prefeituras de modo a diminuir a sangria mensal que devorava qualquer sobra eventual nesses cofres. Ou seja, Goiás vai gastar menos porcentualmente com os encargos de sua dívida no ano que vem, e nos próximos, do que gastou este ano e até aqui.

Amarras

Essa reforma tão dura e profunda não é desejo novo. Marconi a quer há tempos, mas nunca teve tão plenas condições políticas para implantá-la como agora. No início do terceiro mandato, diante de dificuldades financeiras herdadas da administração de Alcides Rodrigues, ventilou-se em certos núcleos pensantes do governo um corte mais ou menos como esse que está sendo proposto. Talvez não tão intenso, mas certamente com alguns dos elementos que servem como orientação para o plano administrativo atual. A crise financeira seria mais do que uma boa justificativa para aplicar a tal reforma, mas não deu.

Ao enfrentar as três máquinas administrativas na campanha de 2010, Prefeitura de Goiânia, governo de Goiás e Presidência da República, Marconi se viu obrigado a estender seus compromissos político-partidários ao máximo. Depois, com a vitória, se viu na obrigação de cumprir o que foi acordado com a rede partidária que o apoiou. Ele, de certa forma, relembrou isso de forma indireta ao se reunir com prefeitos, deputados e lideranças partidárias recentemente, quando afirmou que cumpre os compromissos políticos que faz. Em comparação com as outras três vezes em que foi eleito, agora esses compromissos foram mínimos, no limite do necessário.

Em 1998, ele foi apoiado desde sempre por uma frente de partidos oposicionistas. Em 2002, precisou negociar intensamente desde 2001, quando ainda aparecia apenas em segundo lugar nas pesquisas. Em 2010, não teve alternativa diante de todas as forças palacianas que se levantaram contra ele.

Um dos pontos polêmicos da reforma administrativa de 2011 foi a adoção do sistema de meritocracia nas repartições públicas. Por ela, cargos de chefia e gerenciamento eram ocupados por concurso, e não mais por indicação político-partidária. Deu pra avançar bastante, mas gerou crise interna que precisou de um trabalhão danado para ser domada.

Como consequência, a máquina administrativa teve que ser recalculada para mais. Na época, um dos generais administrativos do exército de Marconi dizia que era necessário fazer a reforma de maneira profunda. “Tem que fazer. O Brasil não aguenta, o Estado não aguenta. Ninguém aguenta mais esse modelo de gestão que está aí. Virou uma bola de neve”, exemplificou. Mas esse técnico do primeiríssimo time de Marconi também admitia que o plano administrativo não teria como ser inteiramente aplicado. “Politicamente, não tem como fazer. Tem hora que isso me irrita, mas o Marconi sabe administrar esse lado político e vai fazer o que der para ser feito”, antecipou.

Esse cenário dominante de 2011, resultado da montagem da estrutura político-partidária da duríssima campanha de 2010, está totalmente superado. Marconi cumpriu todos os compromissos, e por isso aquela frase na reunião recente com prefeitos, deputados e lideranças soou como tão atual. Os compromissos de 2010 foram totalmente quitados politicamente, e os atuais, da campanha de 2014, são bem poucos.

É óbvio que haverá ranger de dentes e uma ou outra dissidência interna, mas ouvidos atentos anotaram uma outra frase de Marconi no tal encontro pós-eleição: “Se esticar a corda, ela arrebenta”. Numa livre tradução de um dos pensadores muito próximo do governador, a frase está invertida. “Quem vai puxar a corda é ele. Se alguém quiser, que a arrebente, e vá para a oposição”, explicou. Em outras palavras, o que Marconi quer é que as lideranças políticas que toparem continuar em sua trincheira, acreditem que a solução atual que ele propõe é a melhor possível, apesar do sofrimento que poderá causar inicialmente. “Tem que enxergar mais à frente, lá na frente”, detalhou. “Será que nós poderemos chegar em 2018 com as mãos abanando, sem nada de novo, sem Marconi como candidato, e ainda assim ter alguma chance de vencer mais uma vez?”, pergunta.

Diante do que esses dois técnicos do núcleo central de Marconi disseram ao Jornal Opção, cada um a seu tempo, mas ligados por idêntico diapasão, a reforma administrativa duríssima e profunda que está sendo implantada tem o objetivo de entregar nas mãos da base aliada um novo Estado, menor, mais rápido nas decisões e mais inteligente no atendimento das demandas da população. Mas e a tal história de que Goiás está se antecipando às dificuldades previstas para o Brasil em 2015? Também tem esse componente, sim, sem dúvida. Mas isso parece ter sido mais um item motivador para a reforma, e não o único. Não é só por causa da possível crise, mas por uma concepção de Estado, que pela primeira vez tem um cenário altamente favorável para ser aplicada.

Confira como fica o novo quadro de secretarias:

conexao.qxd

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.