Veja 5 novos nomes que podem ressuscitar a esquerda em Goiás
31 janeiro 2026 às 21h00

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A esquerda goiana pode estar atravessando um período prolongado de esvaziamento político, pelo menos no que diz respeito a eleições majoritárias. Com baixo desempenho eleitoral, dificuldades de articulação partidária e pouca renovação de quadros, o campo progressista perdeu protagonismo em um estado historicamente conservador.
Ainda assim, fora do circuito tradicional da política institucional, novas lideranças começam a surgir, gerando expectativa sobre a possibilidade de reorganização da esquerda em Goiás. Um desses nomes é o professor e advogado Valério Luiz Filho.
Valério Luiz Filho

Pré-candidato ao Governo de Goiás, Valério Luiz Filho afirmou que o debate sobre desenvolvimento econômico no estado precisa ser reposicionado, com foco na diversificação da matriz produtiva, na reindustrialização e na retomada de uma agenda que enfrente diretamente o conflito entre capital e trabalho.
Em entrevista ao Jornal Opção, ele se disse parte de um grupo identificado como renovação da esquerda goiana e avaliou que esse movimento pode recolocar o campo progressista como alternativa real de poder.
“Eu recebo com alegria, porque é essa renovação que vai trazer esperança para o nosso estado”, afirmou. Para Valério, a renovação não significa abandono de princípios históricos, mas a sua atualização. “As gerações passam, e as ideias permanecem através dessa renovação. É nossa responsabilidade fazer com que esse campo político não só sobreviva, mas cresça aqui em Goiás.”
Na avaliação do pré-candidato, a formação econômica e social do estado ainda carrega marcas profundas do latifúndio e da herança escravagista, o que limita as possibilidades de desenvolvimento.
“É um estado cujo desenvolvimento é recente, constituído sobre a lógica do latifúndio e da monocultura. Isso não pode ser o nosso futuro”, disse. Ele ressaltou que Goiás já é majoritariamente urbano e, por isso, precisa “seguir outros caminhos”.
Valério defendeu que modelos econômicos produzem, necessariamente, modelos de ideias. “Quando você tem uma economia baseada na monocultura de exportação, não há interesse em criar um mercado interno diversificado. As cadeias de emprego são limitadas e a riqueza se concentra”, argumentou.
Segundo ele, a retórica que exalta Goiás apenas como “estado do agro” acaba funcionando como freio ao desenvolvimento. “Isso impede a industrialização e a ampliação das oportunidades, principalmente para a juventude.”
Como exemplo, citou a dificuldade de absorção de mão de obra qualificada. “O engenheiro de computação formado aqui vai fazer o quê? Prestar concurso para uma vaga ou duas em um tribunal? Não existe um parque industrial de tecnologia capaz de absorver esses profissionais”, pontuou.
Para o pré-candidato, a diversificação da matriz produtiva é condição básica para mudar esse cenário. Crítico do uso indiscriminado de incentivos fiscais, Valério afirmou que a política de atração de indústrias precisa estar condicionada à qualidade dos empregos gerados.
“Cria-se o discurso de que foram gerados milhares de empregos, mas muitas vezes os salários são abaixo da renda média da região”, disse. Segundo ele, isso provoca efeitos colaterais graves.
“Em vez de empregar a população local, atrai-se mão de obra de fora, que passa a viver em condições precárias. Você não resolve um problema social, cria outro.” Na sua visão, a esquerda precisa recolocar no centro do debate o conflito entre capital e trabalho, tema que, segundo ele, foi abandonado nos últimos anos.
“Enquanto isso não voltar, a vida das pessoas não vai melhorar verdadeiramente”, afirmou. Entre as propostas, defendeu a exigência de salários mínimos mais altos e a adoção de planos de participação nos lucros como contrapartida a incentivos fiscais.
“Parece um pecado falar isso, mas é esse tipo de discussão que precisa ser trazida de volta.” Professor, Valério também analisou o comportamento político da juventude goiana. Para ele, uma geração inteira se formou politicamente sob a influência das manifestações de 2013, do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e de um discurso neoliberal que demoniza a atuação do Estado.
“Esses jovens cresceram acreditando que a livre iniciativa resolve tudo e que o Estado é sempre um problema”, disse. Ele também demonstrou preocupação com o avanço do que chamou de “masculinismo” associado à extrema direita, potencializado pelas redes sociais.
“Existe uma tentativa muito forte de associar ser de direita a ser ‘másculo’, enquanto a esquerda é pintada como sinônimo de fraqueza ou ‘mimimi’. Isso é uma crueldade enorme”, afirmou, citando ataques a homens que se identificam com pautas progressistas.
Segundo o pré-candidato, a renovação da esquerda em Goiás passa, necessariamente, por enfrentar essas contradições e apresentar um projeto de desenvolvimento que dialogue com a realidade urbana, industrial e social do estado.
Trajetória da esquerda em Goiânia
Valério ainda analisou a trajetória recente da esquerda no estado, avaliou os impactos da ascensão do bolsonarismo no ambiente político goiano e defendeu que o campo progressista precisa avançar na mobilização popular e na comunicação com os setores mais empobrecidos da população.
Vale lembrar que, no passado, Goiânia já teve prefeitos do Partido dos Trabalhadores (PT), como Darcy Accorsi, Pedro Wilson e Paulo Garcia. Segundo ele, o cenário começou a mudar nos anos mais recentes, especialmente a partir do fortalecimento do bolsonarismo.
O bolsonarismo teve, sim, uma influência muito forte. Foi uma onda que a gente não pode sobrestimar apenas pelo aspecto eleitoral, mas também pelo elemento de repressão política, afirmou.
Para ele, esse tipo de situação indica um ambiente de restrição à liberdade política. “Quando isso acontece, significa que a gente já não está num lugar completamente livre”, avaliou.
Valério afirmou que, no interior do estado, o cenário seria ainda mais difícil. “Quando a gente visita os companheiros do interior, a hostilidade é maior ainda. Ser identificado como alguém do PT ou ligado ao Lula gera mais pressão”, relatou.
Questionado sobre uma possível perda de conexão da esquerda com os setores populares, o pré-candidato defendeu que o problema envolve tanto comunicação quanto organização.
“A gente tem que olhar para nós mesmos. Existe uma dificuldade real de mobilização popular. Está desmobilizado. A comunicação, às vezes, está faltando”, reconheceu. Na avaliação dele, o peso do poder econômico também ajuda a explicar a hegemonia da direita em Goiás.
“Eu costumo dizer que a direita serve para defender patrimônio. Não por acaso, os detentores de grande patrimônio tendem a estar à direita”, afirmou. Como exemplo, citou o perfil do Congresso Nacional. “Dos nossos deputados federais, muitos são milionários. Os projetos políticos deles acabam sendo defendidos pelas próprias fortunas”, argumentou.
Segundo Valério, esse fator influencia diretamente o financiamento de campanhas e o funcionamento dos meios de comunicação, sobretudo no interior do estado. “A esquerda sempre está em desvantagem nesse sentido”, disse.
Para ele, enfrentar esse cenário exige reorganização do campo progressista em Goiás. “A esquerda precisa evoluir muito em mobilização popular, recuperar a conexão com as pessoas e melhorar a comunicação. Sem isso, a desigualdade de forças continua”, concluiu.
Iure Castro

Outro nome frequentemente citado é o do pré-candidato ao Senado por Goiás e presidente estadual do Cidadania, Iure Castro. Em entrevista ao Jornal Opção, ele defendeu a união do campo progressista e criticou a polarização política no país ao avaliar o cenário goiano.
Segundo ele, a fragmentação entre partidos com pautas semelhantes dificulta a construção de projetos eleitorais viáveis e afasta o debate de temas estruturantes para o estado e para o Brasil. Ao assumir a presidência do Cidadania em Goiás, Iure afirma que encontrou um campo progressista desarticulado e excessivamente reativo.
É um ponto que eu tenho conversado muito com todos os partidos, no sentido de a gente ter uma condição mais próxima, uma condição de união, para que a gente realmente tenha condições de apresentar o que é o campo progressista, qual é a nossa tarefa e qual é o nosso desafio, afirmou.
Na avaliação do dirigente partidário, a extrema direita ocupa espaço no debate público sem oferecer propostas concretas. “Ela não propõe absolutamente nada para o país. Propõe apenas gritos, ruídos e desinformação. Não tem um projeto claro para o Brasil, a não ser um projeto de mídia, de algoritmo, que não muda a vida da sociedade”, disse.
Para Iure, a prioridade deve ser objetiva: “Cuidar do goiano, cuidar da goiana, cuidar do Brasil, cuidar do brasileiro. Ponto final. Essa é a nossa missão”. Segundo ele, a radicalização tem afastado o país de debates centrais.
O mundo está discutindo inteligência artificial, mobilidade urbana, robótica, escola integral com formação prática. O mundo cria big techs, e nós estamos criando influenciadores. Estamos criando consumidores de tecnologia, não tecnologia, criticou.
Iure também destacou que sua entrada na vida partidária foi recente e inesperada. “Eu nunca disputei eleição, nunca fui filiado a partido. Assumir a presidência de um partido foi algo que eu nunca imaginei”, relatou.
Ele afirma que o foco da nova gestão é a reestruturação da legenda e a ampliação da participação feminina. “Não adianta pensar que o homem vai pensar a pauta feminina com o olhar feminino. Dar voz à mulher no parlamento é dar voz à sociedade”, argumentou, ao defender que o partido tenha 50% ou até maioria de mulheres nas chapas proporcionais.
Questionado sobre o posicionamento ideológico do Cidadania, Iure afirmou que a sigla se coloca como um partido moderado. “É um partido social, democrata, que tem como centro o brasileiro. Eu não quero apresentar uma proposta que cause mais divisão. Quero trazer uma proposta de união”, disse.
Para explicar sua visão, recorreu a uma metáfora: “Arroz é bom. Com feijão, fica ótimo. Por que eu não posso me alimentar politicamente de bons ingredientes da esquerda e da direita?”.
Pré-candidato ao Senado em 2026, Iure avalia que a divisão entre forças progressistas prejudica o desempenho eleitoral. “A nossa conversa é para que a gente apresente para Goiás um campo de união, uma frente popular. Quem será o candidato ao governo? Quem terá viabilidade para o Senado? Isso precisa ser construído de forma conjunta”, defendeu.
Ele afirma que sua pré-candidatura se apoia na formação técnica e na experiência institucional. “O Senado é a mais alta Casa do Poder Legislativo do país. Nós vamos colocar quem lá? Alguém preparado para pensar política pública estruturante, e não grito político de ocasião. Tecnicamente, eu sei que estou preparado”, concluiu.
Aposta em nome de consenso
Iure Castro afirmou que o partido pretende protagonizar, ou ao menos compor de forma decisiva, as alianças do campo progressista no estado para as eleições de 2026. Segundo ele, a prioridade é construir uma candidatura ao governo que una as forças de esquerda e centro-esquerda e ofereça palanque sólido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ao comentar os nomes apresentados pelo Partido dos Trabalhadores para a disputa ao Palácio das Esmeraldas, entre eles Valério Luiz, professor Edward, Luiz César Bueno, Cláudio Curado e a professora Marina Sant’anna, Iure evitou indicar preferência.
“Eu penso que tem que ser um nome de consenso, um nome que dê palanque para o presidente Lula aqui em Goiás e que consiga mostrar para a sociedade quem nós somos e o que nós fazemos”, afirmou.
Para o dirigente do Cidadania, a definição passa majoritariamente pelo PT, partido do presidente da República, mas ele ressaltou que os aliados têm sido ouvidos no processo. “Eles têm esse protagonismo, mas têm nos dado muita voz para que a gente faça as nossas ponderações”, disse.
Iure avaliou ainda que a fragmentação do campo progressista pode favorecer candidaturas adversárias. “Se não houver união, o próprio campo progressista pode se dividir, com parte apoiando outros nomes. Esse é o nosso desafio.”
Embora tenha revelado que seu nome chegou a ser cogitado para uma candidatura ao governo, Iure foi enfático ao afirmar que seu foco é a disputa por uma vaga no Senado Federal. “Fiquei muito feliz com o aceno, mas o meu desejo é disputar uma vaga do Senado com o apoio de todo o campo progressista”, declarou.
Ele descartou, por ora, uma candidatura à Câmara dos Deputados. “Hoje eu não tenho esse desejo no meu coração. O meu foco é a eleição majoritária.” O pré-candidato atribuiu à eventual candidatura um forte simbolismo social.
Eu quero mostrar para o povo goiano que o filho do pobre pode disputar uma eleição majoritária. O filho da empregada doméstica, da família analfabeta, de trabalhadores rurais, pode sonhar e disputar uma eleição sem sobrenome político, sem carreira política, apresentando ideias, afirmou.
Questionado sobre como dialogar com o eleitorado moderado, segmento apontado por pesquisas como decisivo, para ele, a chave é a entrega de resultados. “É o eleitor que acorda cedo, trabalha e quer saber se o político entrega resultado. Ninguém pergunta se ele é de direita ou de esquerda quando vai contratá-lo”, argumentou.
Nesse sentido, defendeu que o eleitor analise o histórico e o currículo dos candidatos. “Político é funcionário da sociedade. Mas nenhum mercado aceita profissional ruim. Por que estamos aceitando tantos políticos que não mudam absolutamente nada?”, questionou.
Iure também criticou os custos do Congresso e o volume de emendas parlamentares, defendendo mais responsabilidade na destinação do dinheiro público. Entre as propostas, Iure destacou a federalização de escolas municipais como forma de reduzir desigualdades regionais e a inclusão de inteligência artificial e robótica na grade curricular.
“O ensino público federal é o melhor plano que existe. Por que não investir nisso?”, indagou. Ele também defendeu mudanças nos programas sociais, com foco em qualificação profissional e saída gradual da dependência do Estado.
Ao relatar sua própria trajetória, marcada pelo recebimento do Bolsa Família na infância até se tornar advogado e procurador, afirmou que políticas públicas precisam combinar proteção social e emancipação.
“É fundamental garantir o mínimo para viver, mas também criar condições para que as pessoas saiam do programa. A educação é o único caminho de salvação do Brasil e do brasileiro”, concluiu.
Ampliação da participação de jovens e mulheres
Iure Castro ainda defendeu a ampliação da participação de jovens e mulheres na política, a renovação dos quadros partidários e mudanças estruturais no Estado brasileiro. O dirigente partidário também apresentou críticas ao modelo atual de gestão pública, ao uso de emendas parlamentares e à distância entre o poder público e as demandas da população.
Ao comentar a escolha de jovens para cargos de direção no partido, Iure destacou a nomeação de Luiz Fernando para a presidência municipal do Cidadania em Anápolis. Segundo ele, a decisão simboliza a tentativa de romper com uma lógica tradicional da política.
“Se eu puder ter 246 jovens nas presidências dos nossos municípios, eu terei. E, se eu puder ter a metade, ou 60%, ou 70%, ou 90% de presidências femininas, o Cidadania terá”, afirmou. O dirigente avaliou que a juventude brasileira deseja mais do que inserção formal no mercado de trabalho.
“O jovem não quer mais ter apenas uma carteira de trabalho assinada. Nós queremos empreender, discutir tecnologia, mobilidade urbana, qualidade de vida e produzir com eficiência”, disse. Para ele, esse processo passa por um Estado que invista em formação qualificada.
“Produzir com eficiência exige que o Estado dê ao brasileiro a mesma visão de mundo que o europeu, o americano, o chinês e o japonês estão tendo: investir em formação.” Iure também relatou sua trajetória pessoal como exemplo de superação e incentivo à participação política.
“Venho de uma família de analfabetismo, de capina de lote, de venda de picolé para sobreviver, filho de Bolsa Família, e consegui alcançar uma posição da qual me orgulho. Não adiantava esquecer de milhares de brasileiros que ainda não têm”, declarou.
Segundo ele, o objetivo é estimular jovens a acreditarem que podem transformar a própria realidade. “Se esse cara conseguiu, eu posso conseguir também.” Ao abordar a formação de chapas para as eleições proporcionais, Iure afirmou que o partido ainda está em fase de diálogo, mas reforçou a prioridade por candidaturas jovens e de fora do circuito tradicional.
“Se eu puder ter um partido sem deputado com mandato, eu terei. O Cidadania não é um partido para agregar apenas quem já vive da política, mas para apresentar um modelo de renovação para a sociedade”, disse.
O dirigente também defendeu critérios objetivos para a destinação de emendas parlamentares. “Não pode ser um critério pessoal ou eleitoreiro. Se temos bilhões em emendas, elas precisam chegar também aos municípios menores, com regras claras e obrigatórias”, argumentou.
Ele citou experiências internacionais de participação social. “Vamos ouvir a população, como a Suíça faz, para que ela indique suas necessidades.” Entre outras propostas, Iure sugeriu debates sobre a reestruturação do Judiciário, a ampliação da presença feminina nos poderes e regras de paridade de gênero em chapas majoritárias.
Tales de Castro

Entre os nomes que aparecem nesse debate está também o do vereador por Aparecida de Goiânia, Tales de Castro (PSB). Ele avalia que a esquerda goiana atravessa um período de reorganização e renovação de quadros, com potencial de ampliar sua presença no Legislativo, embora ainda enfrente desafios na construção de uma estratégia comum para a disputa de cargos majoritários.
Segundo o parlamentar do PSB ao Jornal Opção, o contexto político de Goiás, historicamente marcado pela força de grupos tradicionais, impõe obstáculos, mas não caracteriza uma crise do campo progressista.
“Eu acho que é um momento de organização e de renovação de quadros”, afirmou. Para ele, mesmo após a alternância entre MDB e PSDB e a vitória do atual governador, a esquerda se manteve ativa “não só através de parlamentares, mas também dos movimentos sociais, sindicatos, associações de bairro e movimentos de saúde”.
Na avaliação de Tales, a presença nesses espaços permitiu projetar novas lideranças para o Parlamento. “Essa construção ao longo dos anos foi projetando lideranças para assumir espaço no parlamento”, disse, citando nomes que surgiram de trajetórias sindicais e do movimento estudantil.
Ele acredita que o campo progressista tende a crescer especialmente no Legislativo estadual e federal nas próximas eleições. Questionado se há uma crise da esquerda em Goiás, Tales afirma: “Não considero que exista uma crise. Pelo contrário, vivemos um momento importante de organização”.
Para ele, as dificuldades decorrem do perfil histórico, econômico e agrário do estado, e não de erros recentes. Ainda assim, reconhece que falta amadurecer uma estratégia para as disputas majoritárias. “Disputar governo e Senado com chances reais de vitória ainda é um desafio”, ponderou.
A experiência na Câmara Municipal de Aparecida, segundo o vereador, revela mais oportunidades do que limites para o campo progressista. Ele lembra que o município deu cerca de 40% dos votos ao presidente Lula, apesar de lideranças locais alinhadas à direita.
“Existe muita gente que quer construir uma política diferente, baseada em ideias e projetos”, afirmou. Tales também destacou investimentos de governos progressistas no município, como unidades de saúde, hospitais e a expansão da educação federal.
Sobre o suposto distanciamento entre partidos de esquerda e a base popular, o parlamentar atribui parte do fenômeno a mudanças sociais mais amplas. “A sociedade está cada vez mais individualista, o que dificulta a organização coletiva”, avaliou.
Ele defende, porém, que há esforços das direções partidárias para manter a conexão com a população, sobretudo por meio de pautas concretas. “Quem discute universidade, valorização do servidor e saúde pública de forma objetiva é o campo progressista”, afirmou, em contraste com o que chama de “debates de costumes” promovidos pela direita.
Tales também comentou as diferenças entre PT, PSB, PSOL e outros partidos do campo progressista, ressaltando que a fragmentação não inviabiliza alianças. Para ele, o momento atual é de formação de chapas proporcionais, e não de definição de candidaturas majoritárias.
“Não podemos banalizar a discussão política ficando apenas em torno de nomes”, criticou. Em sua visão, o essencial é construir um programa comum para o estado. Ao analisar o comportamento do eleitor goiano após o impeachment de Dilma Rousseff e a ascensão do bolsonarismo, Tales não acredita na ideia de rejeição estrutural à esquerda.
“São questões circunstanciais”, disse, lembrando que gestões petistas em Goiânia foram bem avaliadas, especialmente na área da educação infantil. Para ele, houve um processo de criminalização da esquerda, mas isso não eliminou sua base eleitoral.
O vereador defende maior presença e comunicação do governo federal em Goiás para evidenciar resultados concretos. “Grande parte dos avanços do estado nos últimos anos veio de governos progressistas”, afirmou.
Segundo ele, cabe às lideranças locais apresentar esses resultados de forma clara à população. “O debate não é só ideológico, é um debate de resultados. E nisso a esquerda tem muito a apresentar”, concluiu.
Unidade programática
Tales de Castro (PT) avaliou que a fragmentação do campo progressista em Goiás não representa, neste momento, um obstáculo para a construção de projetos comuns entre os partidos de esquerda.
À reportagem, ele afirmou que divergências entre legendas como PT, PSB e PSOL são naturais e fazem parte da autonomia política de cada sigla. Segundo o parlamentar, o período atual ainda não é de debate sobre candidaturas majoritárias ou alianças para o governo estadual.
“O momento que a gente vive agora, até início de abril, é muito mais voltado para a construção de chapas de candidatos a deputado federal e estadual do que para uma discussão sobre candidatura ao governo”, disse.
Para ele, especulações sobre um suposto distanciamento entre partidos do campo progressista ignoram o calendário político real. “Não tem nada a ver. O momento agora não é dessa discussão.”
Tales explicou que, primeiro, cada partido precisa organizar sua própria estrutura eleitoral, definindo filiações e chapas proporcionais. Só depois desse processo é que haverá espaço para um diálogo mais amplo.
“Passou esse momento de preparação da chapa, nós vamos sentar com o PT, com o PCdoB, com a Cidadania, com a Rede, com todo mundo do campo progressista, e vamos avaliar, de forma conjunta, as alternativas que nós temos”, afirmou.
Na avaliação do vereador, a principal falha do debate atual está no excesso de atenção aos nomes e na ausência de uma discussão mais profunda sobre projetos. “Nós não podemos ficar discutindo quem vai ser o nome. Nós precisamos discutir um projeto político para o estado. Quais as nossas propostas para educação, saúde, segurança?”, questionou.
Ele citou como exemplo a necessidade de debater políticas concretas, como a defesa ou não de equipamentos públicos estratégicos. Ao comentar a atuação do próprio PT, Tales foi direto ao apontar equívocos.
Acho que nisso o PT, às vezes, está sendo equivocado, se adiantando em torno de nomes. A pauta principal tinha que ser projeto político do estado, disse.
Para ele, alianças eleitorais precisam ir além do tempo de TV ou de acordos pontuais.
“Vamos disputar a eleição juntos e depois vamos atuar juntos aonde? No Parlamento? Nas prefeituras? Não pode ser cada um falando uma coisa depois da eleição.” Tales também avaliou a relação do eleitorado goiano com a esquerda, especialmente após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a ascensão do bolsonarismo.
Na opinião dele, não houve uma rejeição estrutural ao campo progressista, mas um contexto adverso marcado por fatores circunstanciais. “Os governos do Darcy e do Pedro Wilson foram extremamente bem avaliados. O Pedro Wilson mudou a história da educação infantil em Goiânia, com os Cmeis ganhando prêmios internacionais”, relembrou.
Apesar do que chamou de “criminalização do PT e da esquerda” e da adesão de lideranças locais ao bolsonarismo, o vereador argumenta que ainda existe um espaço significativo para o diálogo com a população.
“Mesmo com prefeito bolsonarista e candidato a governador defendendo o Bolsonaro, o Lula teve cerca de 40% dos votos aqui. Há um campo enorme para a esquerda dialogar”, afirmou. Para que isso ocorra, no entanto, Tales defende mais organização e uma estratégia de comunicação mais eficaz, além de maior presença do governo federal em Goiás.
Tenho cobrado muito isso. O governo federal precisa estar mais presente, visitar as regiões, mostrar que quem tem mudado a realidade é a presença federal no saneamento, na infraestrutura, na construção de institutos federais, disse.
Ele citou obras e investimentos recentes como exemplos dessa atuação. “Boa parte do dinheiro de várias obras veio do governo federal, embora muitos batam no peito dizendo que fizeram sozinhos”, afirmou.
Para o vereador, o desafio é transformar esses resultados em narrativa política compreensível para a população. “O debate não é só ideológico, é um debate de resultados. E nisso a esquerda tem muito a apresentar em Goiânia, no interior e em Aparecida.”
Rimet Jules

Outro nome frequentemente citado é o do vereador por Anápolis, Rimet Jules (PT). Ele avalia que não há uma crise da esquerda em Goiás, mas, sim, um processo histórico de estigmatização, preconceito e criminalização dos partidos e movimentos progressistas, especialmente do Partido dos Trabalhadores.
A análise foi feita em entrevista ao Jornal Opção, na qual o parlamentar também defendeu maior organização de base, planejamento estratégico de longo prazo e unidade do campo progressista diante do avanço da extrema direita.
Segundo Rimet, a percepção de fragilidade da esquerda é amplificada pelo cenário de polarização política, que intensifica os conflitos e gera uma impressão distorcida sobre a rejeição do eleitorado goiano.
“Na minha visão não existe crise da esquerda. O que existe desde sempre é uma estigmatização, preconceito e até uma criminalização”, afirmou. Para ele, essa narrativa acompanha o PT desde sua fundação e acabou ganhando espaço na sociedade ao longo do tempo.
O vereador avalia que a polarização “acirra muito os ânimos em ambos os polos” e cria um “barulho” que faz parecer maior do que realmente é a resistência à esquerda em Goiás. “A impressão que se dá é que essa rejeição é maior do que de fato é”, disse.
Ao ser questionado se o eleitorado goiano rejeita a esquerda em si ou a forma como ela é apresentada, Rimet defende que parte da população acaba incorporando uma imagem distorcida construída historicamente.
“O eleitorado goiano, alguma parte dele, acaba adotando essa visão deturpada que se tem da esquerda e dos partidos de esquerda”, avaliou. Diante desse cenário, ele aponta como desafio central ampliar o diálogo direto com a população.
“A nossa tarefa é aumentar a aderência e a interlocução com as bases, com os bairros e com as comunidades, no sentido de desmistificar e quebrar essas barreiras”, afirmou. Segundo o vereador, os mandatos e as lideranças do PT precisam intensificar a presença territorial para apresentar “a verdadeira imagem” do partido e o que ele representa.
Rimet também destacou que a trajetória política de Goiás, marcada por sucessivos governos de centro-direita e direita, influencia a percepção do eleitorado. Para ele, a ausência de um governo estadual do PT dificulta a comparação e o julgamento por parte da sociedade.
Nós ainda não tivemos a oportunidade de mostrar para a sociedade goiana o modo petista de governar o estado. É difícil até para o próprio eleitorado fazer essa comparação, afirmou.
Estratégia e planejamento
Ao analisar o desempenho eleitoral da esquerda em disputas majoritárias, o vereador afirmou que a organização de base é imprescindível, mas não suficiente. Ele defende uma estratégia partidária de longo prazo e maior antecedência no planejamento.
“Nós precisamos ter um projeto a longo prazo, uma organização antecipada, planejada, para poder disputar as eleições”, disse. Segundo Rimet, um dos principais problemas é deixar para montar chapas, discutir projetos e construir bases políticas apenas na véspera do pleito.
“Isso é problemático”, avaliou. Ele também citou limitações estruturais do partido em Goiás, o que, segundo ele, torna ainda mais necessária a antecipação e o fortalecimento gradual da musculatura política.
Sobre a fragmentação interna do campo progressista, que envolve PT, PSB, PSOL e outras siglas, Rimet considera as divergências naturais e não exclusivas da esquerda. “É natural que haja distensões, inclusive dentro do próprio PT, em termos de projeto e de tática”, afirmou.
Apesar disso, ele avalia que, nos últimos anos, houve mais convergência do que divergência, sobretudo em resposta ao crescimento da extrema direita. “Com a ascensão e a consolidação do bolsonarismo, os partidos progressistas e até de centro perceberam a gravidade do momento e a necessidade de caminhar no mesmo propósito”, disse.
Para o vereador, a defesa da democracia se tornou um eixo unificador. “O desafio nesse período e no próximo é preservar e garantir a democracia no país e frear essa formação neofascista que tem se desenhado”, concluiu, citando a atuação de lideranças da extrema direita no Brasil e em Goiás.
Principal desafio
Rimet Jules avalia que o principal desafio do campo progressista hoje é transformar o histórico ativismo político em um projeto viável e capaz de dialogar com parcelas da sociedade que se afastaram da política institucional.
Ele destacou a necessidade de ampliar a comunicação direta, sobretudo com jovens e trabalhadores inseridos em novas formas de trabalho. Segundo Rimet, o caminho passa pelo diálogo e pelo uso mais estratégico das tecnologias digitais.
“Muito diálogo com a sociedade, com os movimentos sociais, mas especialmente com as pessoas e os indivíduos que estão alheios à organização da sociedade civil”, afirmou.
Para ele, as redes sociais e as ferramentas digitais precisam ser melhor exploradas para alcançar uma geração que não vivenciou governos anteriores à consolidação do sistema de direitos no país.
O vereador defende que essa interlocução seja acompanhada de pautas concretas, capazes de unificar a sociedade em torno de demandas objetivas. Entre elas, cita o fim da escala 6×1 e a ampliação do debate sobre tarifa zero no transporte público.
“A questão, por exemplo, do fim da escala 6×1, essa defesa é nossa e eu acho que une a sociedade em torno dessa pauta”, disse. Sobre mobilidade urbana, acrescentou: “Quem depende do transporte público de massa é o trabalhador, são as pessoas de baixa renda. Conscientizar as pessoas acerca da importância desse debate acaba abrindo caminhos e possibilidades”.
Rimet avalia que essas discussões reafirmam a identidade histórica do PT, centrada na defesa dos trabalhadores e na melhoria da qualidade de vida. “A gente se reafirma naquilo que sempre defende, que é a defesa do trabalhador, mais qualidade de vida para as pessoas que mais precisam, a garantia do direito ao transporte público e do direito à cidade”, pontuou.
Na avaliação do vereador, mesmo com avanços do atual governo federal, há uma falha na comunicação das políticas públicas. Ele citou o governo do presidente Lula, que entra no último ano do mandato com programas e entregas relevantes, mas sem conseguir dialogar plenamente com a população beneficiária.
Infelizmente, não conseguimos criar esse canal de interlocução direta com a sociedade para levar a informação, mostrar que o programa existe, que a pessoa é beneficiária e como acessar, afirmou, atribuindo parte da dificuldade ao acirramento ideológico dos últimos anos.
Ao comentar o debate sobre renovação política no campo progressista em Goiás, Rimet afirmou que o Partido dos Trabalhadores tem investido na formação de novas lideranças. Ele lembrou sua própria trajetória, iniciada na juventude do partido, e citou nomes que, segundo ele, simbolizam essa renovação.
Entre os quadros mencionados estão o professor Marcos, vereador jovem em Anápolis; o professor Edward Madureira; o vereador Fabrício Rosa, de Goiânia. “São nomes com potencial enorme, com identidade marcada do partido e capacidade de representar, além de estarem em cidades com maior projeção e ainda no início de suas trajetórias políticas”, avaliou.
Para Rimet Jules, apesar dos avanços, o processo de renovação ainda precisa ser ampliado. “A gente ainda pode e deve fortalecer outros e novos nomes”, afirmou, destacando que o desafio do campo progressista em Goiás passa tanto pela formação de lideranças quanto pela capacidade de dialogar com uma sociedade cada vez mais diversa e distante das estruturas tradicionais de participação política.
Ludmila Rosa

Para a cientista política e também um nome de renovação da esquerda, Ludmila Rosa (PSB), embora Goiás costume ser apresentado nacionalmente como um estado de perfil conservador, Goiânia historicamente funcionou como uma “ilha relativamente progressista” no Centro-Oeste.
Esse traço, no entanto, se enfraqueceu nos últimos anos. “Mesmo Goiânia, que era uma referência mais progressista, tem assumido um lado mais à direita, deslocando o pêndulo do poder para um campo conservador e, mais recentemente, bolsonarista”, afirma.
A cientista política ressalta que é preciso diferenciar a direita tradicional do bolsonarismo, fenômeno mais recente. “Existia uma direita antes do Bolsonaro. O bolsonarismo é um amálgama de insatisfações e inquietações e dialoga com um movimento global de crescimento da extrema direita”, pontua.
Para ela, o resultado desse deslocamento ficou evidente nas últimas eleições municipais da capital, quando o segundo turno reuniu candidaturas situadas entre a centro-direita e a extrema-direita. Diante desse contexto, Ludmila define o atual momento da esquerda como um período de “desbravamento”.
“É um momento de achar novos espaços de crescimento, o que passa pelo surgimento de novas lideranças e pela apresentação dessas referências ao eleitorado”, diz. Ela destaca que esse processo exige também uma mudança profunda na forma de comunicação do campo progressista.
“Não é só oxigenar os rostos, mas também a comunicação, torná-la mais assertiva e adequada aos tempos atuais.” Nesse ponto, a cientista política chama atenção para o papel das redes sociais, especialmente entre os jovens.
“Vi recentemente uma pesquisa mostrando que cerca de 38% dessa geração já se informa sobre política pelo TikTok. As boas ideias precisam disputar esses espaços que trabalham a economia da atenção, mesmo com todo o desafio de aprofundar o debate em plataformas que exigem rapidez”, afirma.
No cenário estadual, Ludmila identifica ainda obstáculos adicionais para a reorganização da esquerda. Um deles é a força residual do bolsonarismo em Goiás, impulsionada pela presença frequente do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no estado.
Outro fator é o bom momento político do grupo liderado pelo governador Ronaldo Caiado (PSD). “São oito anos de governo bem avaliado. Hoje, as duas forças que disputam o poder no estado são, de certo modo, o bolsonarismo e o caiadismo”, analisa.
Apesar das dificuldades, Ludmila evita uma leitura fatalista. “Não acho que seja o fim. São ciclos. Esse ciclo da direita é muito exitoso, mas pode ter um fim, seja por exaustão do próprio sistema de poder ou por disputas internas”, afirma.
Para ela, há espaço para o surgimento de um novo ciclo, desde que a esquerda invista em renovação e consiga dialogar com parcelas da população que não se identificam claramente com campos ideológicos. “Existe um vácuo de liderança do campo progressista hoje, e esse é um espaço de disputa”, diz.
Questionada sobre a existência de uma crise da esquerda em Goiás, Ludmila relativiza o termo. “Talvez seja polêmico chamar de crise. Eu vejo como um produto de anos em que a esquerda ficou estacionada, sem apostar no surgimento de novas figuras”, avalia.
Ela reconhece a presença de quadros combativos, sobretudo ligados ao PT, mas pondera que o campo se manteve restrito a poucas lideranças. “Fora dessa bolha, nós perdemos espaço justamente pela falta de crescimento e de apostas em novos nomes.”
Segundo a cientista política, a busca por sobrevivência eleitoral levou partidos progressistas a alianças mais pragmáticas com forças conservadoras, o que acabou deslocando discursos e programas. Ainda assim, ela defende que esse quadro não deve levar à acomodação.
O que a sociedade não pode fazer é se conformar com esse estado de coisas e não pensar no amanhã. É preciso pensar na construção de um campo progressista reoxigenado, com novas referências e novas formas de diálogo com a população, conclui.
Reposicionamento
Ludmila ainda analisou o cenário da esquerda em Goiás, o papel do PSB e a fragmentação do campo progressista. Na avaliação da cientista política, o PSB tem buscado se reposicionar nacionalmente, com um discurso de moderação e diálogo com diferentes setores.
Como exemplo, citou o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, a quem atribuiu “muita virtude” e “habilidade política”. “É um homem extremamente habilidoso, que traz moderação. Talvez seja o que boa parte do nosso campo precisa: conversar com outros setores que não necessariamente são abertos ao campo da esquerda”, afirmou.
Questionada sobre a identidade do PSB em Goiás frente a outras siglas progressistas, Ludmila avaliou que o partido ainda não conseguiu se afirmar plenamente. “Faço minha culpa de que não. O PSB aqui já foi um partido maior, mas entrou num momento de esfriamento e precisou ser muito pragmático, pensando em viabilidades eleitorais, o que, às vezes, exige sacrifício do campo ideológico”, analisou.
Ela destacou a força organizativa do PT, que classificou como “o grande partido do campo da esquerda” em termos de estrutura e militância. Ainda assim, defendeu que outras siglas do campo progressista construam caminhos próprios.
“Cabe a nós, que somos filiados a outros partidos do mesmo campo, criarmos a nossa identidade própria, sem estarmos à sombra”, afirmou. Sobre a fragmentação da esquerda, Ludmila reconheceu que, no curto prazo, ela pode dificultar projetos eleitorais competitivos, especialmente nas disputas majoritárias.
“Se protagonismo for sinônimo de êxito eleitoral, acho difícil pelas circunstâncias que estão colocadas”, avaliou. No entanto, ressaltou que a política é dinâmica. “Nada é impossível. Uma candidatura que leve uma mensagem de esperança, de renovo, de cuidado com as pessoas e com o Cerrado pode, sim, brilhar os olhos da população”, disse.
Para a cientista política, o principal desafio da esquerda goiana passa menos por alianças ao centro e mais por uma reorganização programática. “Quando a gente fala de alianças ao centro, não está falando de imprimir identidade própria junto ao eleitorado. É uma disputa ad hoc, pragmática, mas que não deixa claro quem somos e o que queremos”, argumentou.
Ao final, defendeu um retorno às bases programáticas aliado à renovação de lideranças. “É um retorno programático que precisa ser feito, somado à potencialização de lideranças que estão surgindo e precisam de espaço para crescer”, concluiu.
O que diz a ciência política?
A dificuldade histórica da esquerda em se viabilizar eleitoralmente em Goiás tem raízes estruturais e vai além do cenário conjuntural atual. A avaliação é da cientista política Rejaine Pessoa, em entrevista ao Jornal Opção, ao analisar os entraves enfrentados pelo campo progressista no estado e os desafios colocados para as eleições de 2026.
Segundo Rejaine, a base do problema está no próprio modelo econômico goiano, fortemente ancorado no agronegócio e no setor de serviços a ele vinculado. “A economia goiana é movida pelo agronegócio, o que molda uma estrutura de classes e uma cultura política refratária a pautas clássicas da esquerda, como a reforma agrária ou as críticas ao capital produtivo rural”, afirma.
Para ela, a conjuntura política apenas agravou um cenário já adverso, especialmente diante da alta popularidade do atual governo estadual. A cientista política argumenta que não se trata apenas de uma crise de nomes ou lideranças, mas de uma desconexão mais profunda entre partidos e eleitorado.
“Os partidos de esquerda em Goiás ainda operam com uma lógica centralizada em Brasília, enquanto o eleitorado goiano passou por uma transformação sociopolítica e se tornou mais pragmático, ligado a valores individuais”, analisa.
Nesse contexto, a dificuldade de renovação dos quadros partidários acaba se refletindo diretamente na falta de competitividade eleitoral. Apesar disso, Rejaine vê espaço para o surgimento de novas lideranças, especialmente a partir de movimentos sociais e coletivos digitais.
No entanto, ela ressalta que o próprio sistema eleitoral impõe limites. “A cláusula de barreira e a proibição de candidaturas avulsas obrigam que essa renovação desemboque inevitavelmente nos partidos para que tenha viabilidade institucional”, diz.
Um dos pontos centrais da crítica diz respeito à relação da esquerda com o agronegócio. De acordo com a pesquisadora, o setor representa atualmente cerca de 60% do Produto Interno Bruto (PIB) de Goiás e é o maior empregador indireto do estado.
“O grande erro histórico da esquerda local foi o discurso de confronto com esse setor produtivo”, avalia. Para ela, uma eventual reorganização do campo progressista passa pela construção de uma narrativa que dialogue com o agro.
“É preciso focar na sustentabilidade, no valor agregado e na agroindústria, e não apenas na crítica ao latifúndio”, defende. Pensando no cenário de 2026, Rejaine destaca a importância do uso estratégico das federações partidárias.
“É fundamental para não perder cadeiras na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal”, afirma. Ao mesmo tempo, ela aponta a existência de um segmento relevante do eleitorado, entre 10% e 15%, que não se identifica nem com o bolsonarismo ou o caiadismo à direita, nem com o lulismo clássico à esquerda.
“Esse eleitor é jovem, urbano e busca o novo. Dialogar com ele é um desafio central”, observa. Para a cientista política, isso exige uma “goianização” do discurso progressista. “É preciso deslocar o foco da agenda nacional de Brasília e concentrar nos problemas locais, como a gestão da saúde, o custo de vida nas cidades médias e no interior”, diz.

Embora reconheça que o conservadorismo em Goiás seja histórico, ela pondera que ele foi potencializado nos últimos anos por uma nova configuração. “O conservadorismo moderno está ligado ao agronegócio tecnológico e ao empreendedorismo, que deram uma nova roupagem a uma base histórica que nunca deixou de existir”, explica.
Outro fator que pesa contra a esquerda, segundo Rejaine, é a força do atual governo estadual. “O governador Ronaldo Caiado caminha para encerrar seu ciclo com aprovação acima de 80%. Isso cria um fenômeno de continuidade natural”, afirma.
Na avaliação dela, a eventual ascensão de Daniel Vilela ao comando do Executivo estadual tende a herdar tanto a máquina pública quanto esse capital político, tornando ainda mais difícil a tarefa da oposição.
“Para a esquerda, enfrentar um candidato que represente a união do MDB histórico com o agro é uma tarefa muito difícil”, resume. A disputa narrativa também aparece como elemento central. Rejaine avalia que a direita conseguiu dominar o debate sobre segurança pública, tema sensível ao eleitor goiano.
“Enquanto a esquerda tenta pautar a prosperidade econômica, o eleitor associa a atual gestão à paz social e ao controle da criminalidade”, diz. Nesse cenário, a esquerda teria perdido a capacidade de apresentar um projeto de futuro convincente.
“A base social ainda existe, mas o discurso focado apenas na resistência identitária muitas vezes não dialoga com a urgência econômica do eleitor”, aponta. Ao citar experiências de outros estados, como Maranhão e Ceará, Rejaine destaca que é possível a esquerda construir hegemonia quando alia política social à eficiência administrativa e diálogo com os setores produtivos locais.
“São exemplos que mostram que isso é possível, algo que Goiás ainda não conseguiu fazer”, compara. A ausência de um operariado industrial forte, tradicional base do sindicalismo, somada ao peso do setor evangélico e à influência de sindicatos conservadores, também ajuda a explicar o isolamento das chamadas “ilhas progressistas” no estado.
“Elas ficam restritas às universidades e às periferias urbanas”, afirma. Por fim, a cientista política alerta para os limites do chamado capital simbólico. “Prestígio e fama podem atrair votos, especialmente em eleições proporcionais, mas não substituem estrutura”, diz.
Sem capilaridade no interior, tempo de TV e recursos partidários, os candidatos progressistas acabam se tornando “outsiders isolados”, sem capacidade de alterar a correlação de forças no estado. “Voos solo podem até garantir cadeiras no Legislativo, mas não constroem uma alternativa real de poder para o Executivo”, conclui.
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