Vai piorar mais

Economia ladeira abaixo, corrupção, inflação, popularidade derretendo, PMDB ditando o ritmo da governabilidade e com isso a presidente refém de Eduardo Cunha e Renan Calheiros…

Protestos populares desestabilizam ainda mais o  governo Dilma: falta base política e capacidade gerencial | Foto: José Cruz/ Agência Brasil

Protestos populares desestabilizam ainda mais o governo Dilma: falta base política e capacidade gerencial | Foto: José Cruz/ Agência Brasil

Cezar Santos

A demissão do ex-ministro Cid Gomes (Pros), na semana passada, foi um dos mais esdrúxulos episódios da política brasileira nos últimos anos. Algo talvez inédito no mundo, um ministro de Estado ir ao Legislativo para afrontar os donos da casa. Da forma como aconteceu, foi gasolina na fogueira da crise por que passa o segundo governo de Dilma Rousseff. Para piorar, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, anunciou a demissão do ministro antes de o Palácio do Planalto fazê-lo.

O fato é representativo do desarvoramento político da gestão que começou há menos de três meses. Mostra mais, mostra que Dilma Rousseff é refém do PMDB, que dita o ritmo da governabilidade ao seu alvitre. Os caciques peemedebistas, tudo “cobra-criada”, sentem a fragilidade e armam o bote. Cobram reforma ministerial e mais e novos espaços no governo.

Nos últimos dez dias, Dilma se reuniu duas vezes com o ex-presidente Lula da Silva para analisar a conjuntura, que não está nada leve, principalmente depois das manifestações do dia 15, em que 2 milhões de pessoas foram às ruas gritando “fora Dilma” e “fora PT”. Os petistas têm esperança de que a presidente passe a ouvir mais o ex. Ela também recebeu em seu gabinete, de forma privativa, o ex-presidente José Sarney. O velho oligarca é uma verdadeira “craca” do poder, e Dilma deve entender que ele saberia dar bons conselhos neste momento.

E Dilma Rousseff precisa mesmo de bons conselhos, porque sua popularidade está derretendo, o que foi constatado cientificamente em pesquisa. Levanta­mento do Datafolha depois dos protestos de domingo passado mostrou que a maioria dos brasileiros reprova a gestão da petista. Nada menos que 62% dos entrevistados classificam o governo Dilma como ruim ou péssimo.

Como os indicadores econômicos batem recordes negativos e a insatisfação popular com a corrupção toma conta das ruas, a reprovação da presidente subiu 18 pontos desde a última pesquisa, há pouco mais de um mês. Até em tradicionais redutos petistas, como o Nordeste, inundado por Bolsa Família, onde Dilma conseguiu uma grande votação em 2014, apenas 16% aprovam o seu governo. Pela primeira vez, a maioria dos eleitores com menor renda e menor escolaridade ouvidos pelo instituto avaliou a gestão da governante como ruim ou péssima.

Num primeiro momento, o governo quis tirar a importância do levante popular de domingo, como tinha feito antes das manifestações, imputando o descontentamento à elite. Os ministros escalados para falar do tema, José Eduardo Cardozo e Miguel Rossetto, disseram que só foi pras ruas manifestar quem não votou em Dilma. São ruins de análise de cenário e de matemática: a popularidade da chefe hoje é muito menor do que o porcentual de votos que ela recebeu. Então os números não deixam dúvida: entre os descontentes, há também quem votou na petista.

Na área econômica, a credibilidade do País está quase ao rés do chão. Os investidores percebem que a capacidade de a presidente manter o controle do governo está chegando ao limite. O governo vem tentando de todas as formas convencer as agências de classificação de risco a manterem o grau de investimentos do Brasil, mas o mercado financeiro já rebaixou o país.

Ministro Joaquim Levy: precisa implantar um duro ajuste fiscal, mas não tem apoio nem do PT da presidente | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Ministro Joaquim Levy: precisa implantar um duro ajuste fiscal, mas não tem apoio nem do PT da presidente | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Já se especula sobre até quando o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conseguirá permanecer no cargo. O jornalista de Economia do “Correio Bra­zi­liense”, Vicente Nunes, diz que integrantes da equipe do mi­nis­tério falam nos bastidores que não há chances de retomada da economia no segundo semestre, como prega Dilma Rousseff. O clima na pasta está péssimo. O entusiasmo do ministro, que contaminava a todos, diminui a cada dia.

Nesse quadro, o pacote do ajuste fiscal que Joaquim Levy precisa implantar para tirar o país do atoleiro econômico não tem apoio nem do PT de Dilma Rousseff, o que a deixa ainda mais nas mãos de… Eduardo Cunha e Renan Calheiros.

O dólar dispara. A inflação é uma realidade. Na quinta-feira, 19, divulgou-se que as massas terão alta de 8%. As massas referidas aqui são produtos como biscoitos, pão e bolos. O aumento dos derivados de trigo será repassado para os preços das mercadorias nas prateleiras dos supermercados e padarias. Os mais pobres sentem de imediato quando sobe o preço do pãozinho e do macarrão.

A previsão é que esse aumento vai gerar um efeito cascata que esvaziará ainda mais o bolso dos consumidores, já penalizados com majoração de preços na gasolina e na tarifa de energia elétrica, entre muito outros.

Em meio a tudo isso, as crescentes revelações sobre o escândalo do petrolão, com implicação direta do PT, que recebeu dinheiro da propina na empresa para financiar campanha da presidente. A conversa sobre impeachment vem recrudescendo a cada dia, embora seja muito difícil que isso ocorra. Mas serve para que os aliados, principalmente os dois peemedebistas “donos” do Congresso — eles mesmo implicados no escândalo, por incrível que pareça – tenham o governo ainda mais nas mãos.

Não resta dúvida de que o governo de Dilma Rousseff vai piorar mais a cada dia. A frase pode soar forte e até desesperançada, mas os primeiros quatro anos da petista a corroboram sem apelação. Desde que começou a governar, Dilma veio tratando de botar abaixo tudo de positivo que seu antecessor e criador, Lula da Silva, tenha deixado, possibilitado pelas condições que o Plano Real de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso garantiu.

Se não bastasse o “currículo” de Dilma para não deixar dúvida de que o ruim pode ficar pior, basta analisar com um pouco de atenção o discurso que ela fez um dia após as manifestações de domingo. Ele tentou, mas não conseguiu, dar uma resposta ao clamor que 2 milhões de pessoas lhe dirigiram e que no fundo foi o seguinte: freie a corrupção em seu governo, seja menos incompetente, governe com um mínimo de decência.

As condições políticas de governabilidade estão cada vez mais escassas.

O desânimo dos companheiros

Jornalista Ricardo Kotscho: um companheiro desanimado com a incompetência de Dilma Rousseff | Foto: Julia Chequer/R7

Jornalista Ricardo Kotscho: um companheiro desanimado com a incompetência de Dilma Rousseff | Foto: Julia Chequer/R7

Um dos fatores mais curiosos quando se analisa o atual governo, é que já não é apenas a oposição que bate e rebate na tecla do total desarranjo político e econômico do governo de Dilma Rousseff. Aliados de outros partidos e também petistas não escondem a decepção com a gestão – ou falta de gestão — da companheira. No mês passado, após novas revelações sobre a roubalheira na Petrobrás e na véspera das comemorações dos 35 anos da fundação do PT, o jornalista Ricardo Kotscho, desde sempre uma das figuras mais notórias a defender o petismo, publicou em seu blog no portal R7 um texto-desabafo que dá bem a mostra do desânimo da turma com Dilma. Alguns trechos:

“…

“Pelo ranger da carruagem desgovernada, a oposição nem precisa perder muito tempo com CPIs e pareceres para detonar o impeachment da presidente da República, que continua recolhida e calada em seus palácios, sem mostrar qualquer reação.

“O governo Dilma-2 está se acabando sozinho num inimaginável processo de autodestruição.

“A presidente teve todo o tem­po do mundo para pensar em soluções para a Petrobras, desde que es­ta grande crise estourou no ano passado, mas só se dedicou à campanha pela reeleição e à montagem do seu novo ministério. Agora, tem apenas 24 horas para encontrar uma saída, antes da reunião do Conselho de Administração, que precisa nomear a nova diretoria amanhã para não deixar a empresa acéfala.

“…

“Isolada, atônita, encurralada, sem rumo e sem base parlamentar sólida nem apoio social, contestada até dentro do seu próprio partido, como estará se sentindo neste momento a cidadã Dilma Rousseff, que faz apenas três meses foi reeleita presidente por mais quatro anos?

“Ou, o que seria ainda mais grave, será que ela ainda não se deu conta do tamanho da encrenca em que se meteu?

“É duro e triste ter que escrever isso sobre um governo que ajudei a eleger com meu voto, mas é a realidade. É preciso que Dilma caia nesta realidade e mude radicalmente sua forma de governar, buscando e não arrostando apoios, ouvindo pessoas fora do seu núcleo palaciano, como prometeu no discurso da vitória, antes que seja tarde demais.

“Por um desses achaques do destino, foi marcada para amanhã, em Belo Horizonte, a abertura das comemorações dos 35 anos da fundação do PT, um partido que vi nascer e que vive hoje a pior crise da sua história, 12 anos depois de ter chegado ao poder central.

…”

2 respostas para “Vai piorar mais”

  1. Avatar Manuel Ferreira disse:

    Muito bacana a análise. Com efeito, a presidente já desperdiçou muito (e muito) tempo para remediar a crise. Preocupada, e a serviço do marqueteiro, em transmitir mentiras, deixou o tempo passar… agora não consegue mais esconder a própria mentira, nem consegue apoio para resolver a situação caótica do país.

  2. Avatar Maria Clara disse:

    Obrigado LULA/DILMA/PT pelo rombo dos POSTALIS. Para quem seguiu a ESTRELA DO MAL será difícil pagar por um desfaque bilhionário. Para quem não seguiu a ESTRELA DO MAL resta-lhe ainda a esperança de REQUERER sua desfiliação.

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