Vai desunida mesmo

Base aliada estadual não demonstra, mais uma vez, disposição partidária para encontrar união de candidaturas em Goiânia

A vitória para a base em Goiânia aconteceu quando houve união em torno do nome de Nion Albernaz | Foto: Henrique de Paula

A vitória para a base em Goiânia aconteceu quando houve união em torno do nome de Nion Albernaz | Foto: Henrique de Paula

Afonso Lopes

Este ano, caso tudo siga como está sendo desenhado, a base aliada estadual vai completar duas décadas de divisão partidária nas eleições de Goiânia. A última vez que esse grupamento se uniu foi em 1996, quando os quatro partidos que deram origem à base — PSDB, PTB, PP e PFL/DEM — se uniram em torno da candidatura de Nion Albernaz. Foi também a última vez que esse grupamento político conseguiu vencer na capital. De lá pra cá foram outras quatro eleições, e quatro vexames.

Em 2000, mesmo lançando a candidatura consistente da então deputada federal Lúcia Vânia, hoje senadora em segundo mandato, a base sequer foi para o segundo turno oficialmente, já que o classificado foi Darci Accorsi (falecido), então no PTB como dissidente. Também em 2004, o nome oficial da base fez muito feio, com a terceira colocação de Sandes Júnior. O segundo turno foi disputado por Iris Rezende, do PMDB, e Pedro Wilson, PT, que tentava a reeleição.

Em 2008 e 2012, até por falta de ânimo eleitoral, a base estadual lançou apenas um nome, mas nem por isso saiu-se melhor. Perdeu as duas eleições já no primeiro turno. Para Iris e Paulo Garcia, ambos em processos de reeleição.

Contraste
Quando se observa o comportamento da base aliada em nível estadual se depara com um contraste incrível. Nas disputas pelo governo do Estado, todos os partidos convergem imediatamente em torno do ungido pelo grupo, e também por essa razão é um timaço que vem ganhando desde 1998, quando o então deputado federal Marconi Perillo surpreendeu não apenas Goiás, mas também o País, ao derrotar o então imbatível Iris Rezende nos dois turnos. Desde então, a base se une de quatro em quatro anos para surrar os opositores. Foram cinco vitórias consecutivas, quatro com Marconi, que se tornou o grande líder do grupamento e principal esteio de sua sustentação, e uma com Alcides Rodrigues, o vice-governador que foi ungido pela base e mudou de lado após a posse ao renegar sua proximidade política com Marconi.

Se une em Goiás e vence, por que a base aliada estadual não consegue se unir em Goiânia? São várias questões que envolvem essas constantes idas e vindas das divisões partidárias do grupo ao longo das duas décadas de derrotas. A união estadual de 1998 foi uma forma desesperada de sobrevivência legislativa do grupo. A situação era tão complicada que Marconi se revelou o único político da então insípida base aliada com topete e coragem suficientes para arriscar até mesmo seu futuro político-eleitoral ao enfrentar Iris e um favoritismo superior a 70% das intenções de voto. Ninguém mais topou encarar uma empreitada eleitoral tão perigosa. Daí em diante, a união da base passou a ter uma liderança natural com força para a convergência, o próprio Marconi.

É exatamente a figura desse líder com poder de convergência que falta à base em Goiânia. Não há candidaturas naturais nem lideranças internas acima das questões partidárias. O último nome do grupo que conseguiu fazer isso foi Nion, que durante seu reinado político na capital detinha praticamente a unanimidade em torno dele internamente.
Sem essa referência em Goiânia, os partidos acabam por se envolver numa briga para marcar posições que possam lhes favorecer nas disputas estaduais. Foi assim em 2000 e 2004. Qualquer partido da base que conseguisse vencer aquelas eleições certamente ganharia pontos para a corrida por um lugar na “janelinha” no grande ônibus da disputa estadual. Como ninguém conseguiu sobreviver, o resultado é que PT e PMDB conseguiram reforçar suas posições na capital mesmo sofrendo derrotas em nível estadual.

De novo
Não há qualquer indicativo de que a base aliada estadual vá convergir para uma só candidatura em Goiânia este ano. Mais uma vez, o grupo deve enfrentar as urnas com várias alternativas. O curioso é que desta vez essa parece ser a melhor estratégia, embora não tenha sido concebida com esse objetivo.

Com a posição reforçada do PMDB, e a possível candidatura de Iris Rezende, atacar em vários nichos do eleitorado ao mesmo tempo pode apresentar, sim, um bom resultado. Principalmente se a base conseguir um nome capaz de abalar a maior base eleitoral do peemedebista, que é a periferia. É lá que se encontra a fortaleza de Iris.

O deputado Waldir Soares, que pratica voo solo dentro do PSDB, provavelmente, conforme ele próprio tem falado ao longo do tempo, não vai participar das prévias internas do seu partido para a escolha do candidato oficial à Prefeitura de Goiânia. Como ele insiste em sair candidato mesmo assim, não resta outra saída para ele do que procurar abrigo em algum partido. Dentre os principais partidos da base aliada não se ouve ou vê nada no sentido de abrigar Waldir. Isso significa que ele pode buscar apoio nos partidos menores ou mesmo em algum médio que gravite próximo à base aliada.

Caso isso se confirme, Waldir, com seu discurso de imediato entendimento, vai certamente mexer no eleitorado até então inatingível de Iris. É claro que essa é apenas uma possibilidade baseada na composição do eleitorado que compõe as bases pessoais dele e de Iris, e que foram identificadas e mapeadas pelas pesquisas de opinião atuais.

Por outro lado, os candidatos que poderão ser lançados pelos demais partidos da base aliada estadual, Luiz Bittencourt, pelo PTB, Virmondes Cruvinel, pelo PSD, e Giuseppe Vecci ou Fábio Souza, pelo PSDB, podem construir uma barreira para o discurso de Iris Rezende nos demais setores do eleitorado. Assim, e por vias tortas, pela primeira vez em 20 anos a divisão partidária interna da base aliada forma um cenário que poderá efetivamente endurecer o jogo contra Iris Rezende na eleição goianiense.

Todo esse quadro, evidentemente, funciona no papel, na teoria. Na prática, tanto pode se confirmar como resultar em mais um tremendo fracasso. A eleição não será contra qualquer um, mas contra Iris Rezende, o mito que foi derrotado por Marconi Perillo. Apenas por ele e por mais ninguém.

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